O sol estava quente, como costumava estar naquela época do ano. O inverno do norte ainda não chegara ao sul, e portanto o santuário ainda ostentava os últimos resquícios do outono, com direito à folhas secas quebrando-se sob os pés e um tapete de carmim no meio da floresta.
Não que ela se aventurasse muito à fundo. Não gostava de ir muito longe do santuário, até porque não podia. Mesmo que as garotas tivessem trancado-se em seu quarto compartilhado para um pouco de privacidade extra conjugal, e Karyna tivesse pego um cavalo para a vila próxima em busca de notícias de seus amigos, Eliara nunca podia ir muito longe.
Como a guerreira amazona da principal Aliança Alada do reino de Adarlan, ela podia ir onde quisesse, quando bem entendesse. Como sacerdotisa em um templo de Lumas, ela não podia se afastar muito de seu novo lar. Era uma vida monótona, mas segura.
Fizeram, cinco anos antes, exatamente o que seu rei mandara. Eliara, Eliza e Giulya alçaram voo direto para a casa de Karyna não muito fora da cidade, e então, juntas, as quatro desapareceram do mapa. Usando nomes diferentes, Lisandra, Elizabeth, Julieta e Catrina, misturaram-se aos humanos da menor forma que podiam, e quando uma vida juntas em uma vila qualquer chamou atenção demais, mudaram-se para um convento.
Foram cinco anos tranquilos, orando a um deus da criação a quem não creditavam criação alguma, e pior, que sabiam sequer estar mais naquele mundo. Pastaram animais, costuraram, cozinharam, treinaram em segredo todos os dias como mandava a rotina que já tinham no castelo.
Ainda que seu corpo mantivesse-se ocupado, a mente de Eliara voltava sempre para os olhos safira de seu rei, o peito coberto de sangue negro, a magia gélida que explodiu dele para o mar de soldados possuídos. O castelo em chamas, a debandada de Serpentes e Vassouras, as últimas imagens que tivera de seu lar.
Só em relembrar, o coração revestido de ferro e forrado em linho azul claro doía, torcia-se em seu lugar, errando uma batida saudosa. Os olhos azuis da bruxa se cobriam de lágrimas, queimando e forçando-se a se fechar, tristes. Suas mãos cruzadas atrás das costas se fecharam em punhos, as garras fazendo-se presentes nas pontas dos dedos com a raiva da impotência.
Fazia cinco anos.
As instruções eram claras, elas deviam esperar instruções, mas e se Asterin não as enviasse? E se já estivesse morta? Quanto tempo deveriam ficar escondas? Quanto tempo seu rei ainda resistiria? Ele ainda estava...
Ela refreou os passos arrastados e os próprios pensamentos, limpando a mente.
Dorian Havilliard era o humano mais forte que Eliara jamais conhecera, e não sucumbiria a meros demônios. Não após lutar tão bravamente quanto naquela noite.
Respirando fundo, a bruxa voltou a andar.
Aquele pensamento o levou a outro. O rei dissera expressamente para não procurarem nenhuma de suas três princesas, e assim elas fizeram, mas e se tivessem buscado Asterin, Rhiannon ou Lothian? E se tivessem ido atrás de Hollin ou da rainha-mãe? Eles não eram sua prioridade, as bruxas protegiam as suas, mas ainda eram Havilliard, ainda eram candidatos ao trono, mesmo que Eliara não gostasse de nenhum dos dois.
Mas... Ainda existia um trono?
Cinco anos antes, quando Forte da Fenda e Orynth caíram, Erilea tornou-se um império sem bandeira ou capital. Sob o rígido comando de soldados semi decompostos cujo sangue se tingia de negro e fedia à morte, que não pareciam precisar de cartas para terem suas ordens, todo o continente caíra no mesmo regime onde magia de qualquer tipo era extritamente proibida, assim como treinamento físico, ou estudos.
Quase tudo estava diferente. Exceto uma coisa. Eliara ainda podia treinar com algumas de suas irmãs.
Seus corpos, agora imortais, exigiam treinos diários e pesados, para manter os músculos fortes e estáveis. Muito fracas, e sentiriam incômodos e dores. Não que um dia tivessem tentado, ser fisicamente fraca nunca fora uma opção, não quando elas precisavam estar em forma para quando as ordens chegassem.
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Os Portadores Elementais
FanfictionNascer em um mundo livre, é bom apenas antes que a guerra tente lhe colocar correntes. Gavriel é o filho de uma terra diferente. Uma terra sem gentileza, recoberta de maldade e rancor. Ele treinou a vida para ser o melhor Guardião que poderia, par...
