Era cedo, ainda nem amanhecera, e Cheryl já estava de pé, preparando-se para mais um turno extenuante no hospital. Observava-a da cama, sentindo a familiar mistura de orgulho e frustração que vinha crescendo em meu peito há algum tempo. Ela estava lá, vestindo o uniforme de médica-chefe com uma precisão quase militar, ajustando a gola e alisando o tecido, como se estivesse se preparando para a batalha. E talvez, de certa forma, estivesse. O hospital era o campo de batalha dela, um lugar onde Cheryl Blossom se tornava a força implacável que sempre soube que seria.
Eu, por outro lado, ficava para trás, deitada na cama que ainda estava quente do seu corpo. Naquela manhã, como em tantas outras, senti a distância entre nós, uma distância que não era física, mas emocional. Era como se houvesse uma barreira invisível crescendo entre nós, construída lentamente ao longo dos anos, com cada nova responsabilidade, cada nova expectativa que o trabalho nos impunha.
Quando Cheryl finalmente me notou acordada, ela ofereceu um sorriso rápido e cansado, o tipo de sorriso que me dizia que a rotina já estava pesando sobre ela antes mesmo de o dia começar. Ela se aproximou e me deu um beijo na testa, o que era o máximo de afeto que conseguíamos trocar nesses momentos apressados.
— Não espere por mim — disse ela suavemente, como fazia todas as manhãs.
Eu assenti, forçando um sorriso.
— Vou tentar — respondi, embora ambas soubéssemos que era uma mentira. Eu sempre esperava por ela, mesmo que isso significasse ficar acordada até tarde da noite, lutando contra o cansaço só para vê-la chegar em casa.
Quando Cheryl saía, o silêncio se instalava no apartamento. Esse silêncio era um velho conhecido, algo que eu costumava apreciar durante os meus dias ocupados como psicóloga. Ele me dava a chance de me preparar mentalmente para as sessões com meus pacientes, organizando meus pensamentos e emoções para que eu pudesse oferecer o melhor de mim a eles. Mas, ultimamente, esse silêncio começou a pesar. Ele se transformou em algo mais, algo que representava a ausência de Cheryl em minha vida. E eu sentia sua falta.
Segui minha rotina matinal, preparando o café e revisando mentalmente a lista de pacientes do dia. Como psicóloga, eu sabia que precisava estar presente para cada pessoa que cruzasse a porta do meu consultório, cada uma carregando seus próprios traumas, ansiedades e histórias complicadas. Eu adorava meu trabalho, mas ele também era exaustivo. Às vezes, eu me via carregando os fardos emocionais de meus pacientes para casa, lutando para separá-los dos meus próprios sentimentos.
E foi assim que nos perdemos. Não de uma vez, mas gradualmente, quase imperceptivelmente, até que, um dia, percebi que Cheryl e eu não conversávamos realmente há semanas, talvez meses. Conversávamos sobre o dia a dia, discutíamos o que comprar no supermercado ou quais contas precisavam ser pagas, mas não falávamos sobre nós, sobre como nos sentíamos em relação à vida que estávamos vivendo, ou sobre o fato de que algo essencial entre nós estava mudando.
Eu via Cheryl lutando para manter tudo em ordem no hospital, carregando o peso de cada paciente que perdia e cada problema que surgia, e isso a estava consumindo. À noite, quando finalmente nos encontrávamos, ela estava exausta demais para qualquer coisa além de um jantar silencioso e talvez um episódio de alguma série que já tínhamos visto mil vezes. Eu queria perguntar a ela se estava tudo bem, se havia algo que eu pudesse fazer para ajudar, mas nunca encontrava as palavras certas.
E eu? Eu também estava me afogando no trabalho, mas de uma maneira diferente. Meu trabalho exigia que eu estivesse emocionalmente disponível para cada pessoa que entrasse no meu consultório, e isso era extenuante. Eu passava horas ouvindo as histórias dos outros, oferecendo conselhos, tentando guiar meus pacientes para alguma forma de cura. Mas quando chegava em casa, eu estava emocionalmente esgotada, sem nada a oferecer para Cheryl, que também estava exaurida. Era como se estivéssemos correndo em direções opostas, tentando alcançar algo que não podíamos definir, enquanto nossa relação desmoronava no processo.
O pior de tudo era que sabíamos o que estava acontecendo, mas nunca falávamos sobre isso. O trabalho era o elefante na sala, o que estava lentamente nos afastando, mas que nenhuma de nós queria reconhecer. Falar sobre isso significava admitir que havia um problema, e talvez temíamos que, ao admitir, não soubéssemos como resolver. E assim, continuávamos, dia após dia, fingindo que tudo estava bem, que nossa relação era tão forte quanto sempre fora.
Eu me perguntava, muitas vezes, como chegamos a esse ponto. Quando nos conhecemos, éramos inseparáveis, duas almas que se completavam, que compartilhavam cada pensamento, cada medo e cada sonho. Mas agora, éramos como duas estranhas dividindo o mesmo espaço, vivendo vidas paralelas que raramente se cruzavam de verdade.
Havia momentos, quando estávamos juntas no silêncio da noite, em que eu olhava para Cheryl e via a mesma mulher pela qual me apaixonei, mas também via o desgaste, a fadiga que o trabalho tinha imposto a ela. Eu queria alcançá-la, puxá-la de volta para mim, mas não sabia como. Eu me perguntava se ela sentia o mesmo, se também percebia a distância que crescia entre nós, mas a verdade é que estávamos tão envolvidas em nossas próprias batalhas que não tínhamos energia para lutar pelo que realmente importava.
O trabalho tornou-se uma barreira invisível, algo que nos definia tanto que esquecemos que havia mais na vida do que isso. Eu sabia que Cheryl estava seguindo os passos do pai, Clifford Blossom, em sua busca por excelência e reconhecimento. Ela se dedicava ao hospital de uma forma quase obsessiva, como se estivesse tentando provar algo a ele, ou talvez a si mesma. E eu, como psicóloga, estava tão envolvida em ajudar os outros a resolver seus problemas que esqueci de cuidar dos meus próprios.
Cheguei a um ponto em que comecei a temer que, se continuássemos assim, eventualmente não haveria mais "nós". Apenas duas pessoas vivendo juntas, mas separadas por muros de silêncio e exaustão. Eu queria falar com Cheryl sobre isso, queria dizer a ela que sentia falta da pessoa com quem costumava compartilhar tudo, mas toda vez que tentava, as palavras se perdiam em minha garganta. Talvez porque, no fundo, eu sabia que ela também estava ciente do que estava acontecendo, e que, assim como eu, não tinha forças para enfrentar essa realidade.
E assim, continuávamos com nossas vidas, cada uma lidando com suas próprias responsabilidades, suas próprias pressões, enquanto o tempo passava, e a distância entre nós crescia. Eu sabia que precisávamos mudar algo, mas não sabia por onde começar. E então, o silêncio se tornava nossa resposta. O trabalho preenchia o vazio entre nós, mas também era o que o causava. E até que estivéssemos prontas para enfrentar isso, continuaríamos vivendo nossas vidas separadas, mesmo estando lado a lado.
Enquanto eu observava Cheryl sair para mais um dia de trabalho, uma parte de mim se perguntava se algum dia encontraríamos o caminho de volta uma para a outra. Ou se esse seria apenas mais um dia em que fingiríamos que tudo estava bem, enquanto o amor que uma vez nos uniu se desgastava lentamente, em um ritmo que nenhuma de nós parecia capaz de deter.
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Caleidoscópio (Choni)
FanfictionCheryl Blossom e Toni Topaz, duas melhores amigas inseparáveis desde a infância, vivem um intenso romance que parece transcender o tempo. Unidas por uma conexão profunda e um amor vibrante, elas veem seu relacionamento como um caleidoscópio, onde ca...
