Capítulo 3 - Um baile real

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Ella sabia que levaria uma bronca de Malvina assim que ela a encontrasse. Entrou sorrateiramente dentro da casa, depois de deixar Veloz no estábulo, sua sapatilha a impedia de fazer qualquer barulho, e ela agradecia mentalmente por isso.

— Ella!

Seu corpo gelou ao ouvir o grito de Malvina, ela estava sentada na sala de estar, com uma xícara de chá em mãos, a encarando como se fosse matá-la a qualquer instante.

— Sim, madrasta?

— Me pergunto se as obrigações que você tem não são suficientes. Onde você estava?

— Eu... sai para cavalgar um pouco.

Não adiantaria mentir, seu castigo seria pior se o fizesse. Malvina se levantou deixando a xícara na mesinha redonda ao lado da poltrona, o vestido preto assim como os olhos frios e verdes da mulher a assustavam fielmente.

— Oh! Vejo bem. Está imunda!

Ella abaixou a cabeça tentando controlar os olhos que ardiam, as lágrimas queriam teimar em cair, mas ela não permitiria. Não na frente de Malvina.

— Limpe o chão de toda a casa, e as escadas também.

— Sim, madrasta.

— As meninas e eu, iremos as compras. Quando eu voltar, quero esta casa brilhando, ouviu bem, Cinderela? — apertou o rosto bronzeado de Ella, a forçando a olhar em seus olhos.

— Sim...

— Ótimo. Lilian! Anastácia! Vamos logo a modista. — Gritou, logo vendo as duas filhas descerem as escadas implicando uma com a outra.

E sem nenhuma outra palavra, as três saíram da casa e entraram na carruagem.

Ella suspirou, a casa não era pequena, levaria o dia inteiro para limpá-la.

────⊱◈◈◈⊰────

Seus joelhos doíam de tanto ficar ajoelhada no chão, suas mãos estavam enrugadas pelo excesso de contato com a água. Limpou o suor do rosto com o antebraço, e antes que pudesse voltar a esfregar o chão, ouviu batidas em sua porta, não costumavam receber visitas.

Levantou-se ainda dolorida, limpou seu rosto como pode e secou as mãos no avental branco e surrado. Abrindo a porta se deparou com um senhor de idade, os cabelos pretos, ainda que alguns fios estivessem esbranquiçados, estavam arrepiados para cima, o bigode longo e grosso contrastava com o rosto fino e longo, as roupas de alto porte só fizeram Ella se questionar, quem era aquele homem que a encarava com tanto afinco?

— Boa tarde! Posso ajudá-lo?

— Oh, sim, sim! Que indelicadeza. Sou o mensageiro do rei, trago um convite em nome de vossa majestade — as mãos cobertas por luvas brancas estenderam uma carta em direção a Ella — , todas as jovens descompromissadas do reino foram convidadas para o baile real, onde o príncipe escolherá uma das donzelas para ser sua noiva.

Ella olhou a carta em suas mãos, um baile real.

— Ora, mas isso é fabuloso! — a voz de Malvina foi ouvida do lado de fora da porta.

A mulher havia acabado de descer da carruagem com suas filhas, o sorriso de Malvina chegava a ser medonho de tão largo.

— Milady. — o senhor se curvou, antes de montar seu cavalo e ir embora.

Malvina entrou na casa e arrancou o convite real das mãos de Ella, observando como a cera vermelha foi carimbada com o selo real, seus olhos brilhavam com a possibilidade de uma de suas filhas ser a futura rainha de Veridia.

— O baile será em dois dias. Que bom que fomos a modista, vocês precisam estar perfeitas para serem futuras rainhas.

— Aposto que o príncipe deve ser lindo — comentou Anastácia.

— Claro que ele é! E vai ser meu marido — Lilian se gabou, acariciando os cabelos negros.

— Não, vai ser meu!

— Meu!

— Meu! Sua invejosa.

— Meninas, chega, por favor! Isso não são modos de uma dama.

Com uma sensação boa em seu peito e uma esperança, Ella perguntou:

— Eu posso ir ao baile, madrasta?

Malvina a encarou de baixo para cima, antes de um sorriso convencido aparecer em seus lábios vermelhos.

— É claro que não! — Lilian respondeu.

— Claro!

A resposta de Malvina deixou todas surpresas.

— Como assim, mamãe? A Cinderela é apenas uma empregada maltrapilha.

— O baile é para todas as jovens descompromissadas do reino. Seria injusto se a Ella não fosse.

Lilian e Anastácia se encaravam sem entender o que estava acontecendo.

— Mas você tem muitas obrigações a cumprir nessa casa, Ella. Se conseguir terminar de limpar e encerar a casa, tirar as teias de aranha, limpar a lareira, arrumar os quartos, lavar as roupas, alimentar os animais, preparar as refeições e arranjar um vestido, poderá ir conosco.

O sorriso das duas irmãs postiças logo surgiram nos rostos brancos pelo pó de arroz. Ella suspirou, não perderia as esperanças, teria dois dias para terminar todas as suas obrigações

────⊱◈◈◈⊰────

Maryenne andava pelos vastos corredores do castelo, uma sensação de calor adornava seu peito, como se algo bom estivesse prestes a acontecer, talvez esse baile real realmente fosse uma boa ideia. Ela nunca havia sido uma princesa de usar vestidos glamusoros, e graças a sua posição como general, não precisava utilizar um vestido durante o baile, agradecia internamente por isso.

Passos rápidos foram ouvidos e logo Philip passou correndo por si.

— Onde vai com tanta pressa?

— Maryenne, bom dia! — sorriu o príncipe. — Irei cavalgar próximo a floresta.

— Com essa animação? — um sorriso de lado surgiu nos lábios róseos da princesa — Vai se encontrar com alguém?

O rosto de Philip ganhou um tom rosado, havia sido pego em flagrante.

— Bem, eu gostaria muito que pudesse encontrar alguém nesse passeio.

— Por isso o baile será para todas as jovens do reino? A pessoa que você está interessado é uma camponesa? — Se divertia com aquela situação. Philip estava vermelho e envergonhado, significava um claro interesse em quem quer que seja a moça misteriosa.

— Sim... ela é uma pessoa incrível, e me entende.

— Então temos outro espírito aventureiro.

— Espero que sim — riu — , se me der licença.

Maryenne sorriu, vendo o irmão mais novo sair correndo. Talvez o sentimento bom que ela estava sentindo fosse isso, seu irmão havia encontrado uma dama em potencial.

— Que ela seja uma pessoa boa para você, Philip.

Desejou. Os olhos azuis parando no quadro de sua mãe, a rainha era uma pessoa excepcional, a pessoa mais gentil e engraçada que Maryenne havia conhecido, desejava encontrar alguém como a mãe, tanto para si, quanto para Philip. Pondo a mão delicadamente na pintura, sorriu de forma nostálgica.

— Interceda por nós mãe, para termos um bom futuro.

E então foi para o vasto campo de treinamento, prepararia os novos soldados do castelo.

E se for ela?Onde histórias criam vida. Descubra agora