Antes mesmo que pudesse sequer ter a chance de chegar em casa, a magia se esvaiu em pequenos fragmentos brilhantes pelo ar. Ella voltou a sua aparência de antes, assim como a carruagem e os animais, com os cabelos soltos bagunçados, o vestido rosado com rasgos, o ultimo resquício que sobrou da magia da Fada madrinha, foi o sapatinho de cristal no pé esquerdo de Ella.
Os animais a olhavam, como se questionassem se a Monclair estava bem com aquela transformação abrupta. Com um sorriso no rosto, Ella se levantou rodopiando, estava feliz, mesmo que nunca mais visse Maryenne de novo, guardaria a imagem da princesa em seu coração. Ele nunca havia batido tão rápido antes, ainda mais por conta de outra mulher! Estava confusa, mas a felicidade dentro dela era imensa.
Antes mesmo que pudesse falar algo, os trotes de cavalos fizeram com que Ella se escondesse nos arbustos da floresta, assim como Veloz e os pequenos ratinhos.
— Tem certeza de que viu ela vindo por esse caminho, vossa alteza? — perguntou um dos soldados ao lado de Maryenne.
— Sim! Continuem as buscas.
— Maryenne, já está tarde. Não vamos conseguir encontrar a Ella nesse breu — a voz de Philip foi ouvida.
A princesa suspirou, olhando para o sapatinho de cristal em sua mão. E se ela nunca mais encontrasse Ella? Não! Não iria desistir de encontrá-la tão facilmente assim.
— Está bem. Mas assim que amanhecer, mandarei meus homens atrás dela.
— O que aconteceu entre vocês? Por que tanto interesse assim na Ella?
Maryenne não o respondeu. Deu meia volta com seu cavalo, voltando para o castelo, assim como seus homens.
Ella, assim que percebeu que estava sozinha na floresta novamente, saiu de dentro dos arbustos, olhando para o caminho iluminado apenas pela lua, Maryenne queria vê-la novamente! Sem que percebesse, um sorriso brotou em seus lábios rosados.
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Fechou a porta de seu quarto, se escorando na mesma, ainda estava sorrindo quando começou a dançar sozinha, segurando o sapatinho de cristal. Por algum motivo, ele não havia desaparecido como os outros itens que a magia desfez, talvez fosse um presente da Fada madrinha, não sabia ao certo, mas sua noite fora mais do que ela poderia esperar.
Guardou o sapatinho em um lugar bem escondido, para que ninguém além dela pudesse acha-lo. Dormiu cantarolando a música que dançou com a princesa. Desejava de coração que Maryenne a encontrasse, e talvez, só talvez, elas pudessem ter um bom final feliz.
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— Cinderela!!! Cinderela desça já!!!
Acordou com o grito alto e estridente de Lilian a chamando. Olhou para a janela em seu quarto, o céu lá fora ainda estava escuro, sinal de que não havia dormido muito antes que as Drakov voltassem para casa. Espantando a preguiça de seu corpo, se levantou da pequena cama, ainda estava com o vestido rasgado de sua mãe. Trocou rapidamente de roupa antes que ouvisse outro grito vindo de Lilian, e desceu as escadarias até o quarto da Drakov mais velha.
Lilian e Anastácia estavam de pé no quarto, com as expressões irritadiças de sempre. Ainda usavam os vestidos do baile, mesmo que agora eles estivessem amarrotados e um pouco menos "glamurosos" que antes.
— Onde você esteve ontem a noite? — perguntou Lilian, de braços cruzados, com sua típica voz esganiçada. Parecia um cão bravo.
Ella hesitou em responder, mas manteve o rosto neutro para a pergunta. O que elas tinham em mente com aquela pergunta?
— Eu estava aqui, como sempre — respondeu com calma.
Os olhares de Lilian e Anastácia pareciam querer comê-la viva, quer dizer, estavam ainda mais amedrontadores que o de costume.
— É mesmo? — Anastácia arqueou uma sobrancelha super fina. — Porque disseram que viram uma garota loira perambulando pela floresta com um vestido maltrapilho, estão achando que é você.
Ella suspirou, com o coração acelerado. Se elas sequer suspeitassem de algo, poderiam fazer até mesmo o impossível para que nunca mais ela visse Phillip, ou pior, nunca mais veria Maryenne.
— Vocês sabem que eu não tenho tempo o suficiente para ficar saindo durante a madrugada.
As irmãs se encararam, não acreditavam em Ella, mas não queriam perder mais do seu precioso tempo, conversando com uma empregadinha, uma gata borralheira.
— Vá fazer o nosso café da manhã, e traga na cama, estamos exaustas de dançar.
— Mas você nem dan- Ai! — Resmungou Anastácia ao ter seu braço beliscado pela irmã.
Ella apenas deixou as duas sozinhas, indo para a cozinha. Uma noite a mais sem dormir, que maravilha!
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Maryenne já podia imaginar o motivo pelo qual seu pai havia a convocado aquela manhã, movimentar a guarda real em prol de achar alguém que esteve presente no baile real, era minimamente suspeito. Ela sabia que devia uma resposta ao pai, gostando ou não, ele ainda era seu rei.
— E então? Posso saber o motivo de minha filha estar atrás de uma convidada do baile de ontem com tanto interesse? — A voz calma do homem demostrava apenas curiosidade.
— Bem...
As portas da sala do trono foram abertas de uma vez, chamando a atenção do rei e da princesa. Philip estava com uma típica roupa da realeza, digna do status que ele exercia, os cabelos negros penteados para trás destacavam o rosto delicado do jovem.
Maryenne o olhava com curiosidade, o que ele pretendia fazer?
— Eu pedi que Maryenne me ajudasse a encontrar uma das damas com quem dancei ontem, meu pai.
— E por que você pediu isso?
— Talvez... talvez, ela seja uma boa noiva.
O rosto do velho rei se iluminou, um sorriso amarelado tomou forma e o velho rei levantou do trono, indo em direção ao filho mais novo.
— Ora, mas que alegria! Uma noiva, uma noiva! Vá, de pressa. — O rei olhou para a filha devidamente uniformizada. — É um motivo a se comemorar, minha querida. Sorria, sorria e não percam mais tempo com seu velho pai. Vão atrás da moça.
Já fora da sala do trono, Maryenne não conteve sua curiosidade. Puxou o irmão para um dos corredores do castelo, o prendendo na fria parede de tijolos.
— O que você pretende?
— Apenas ajudar a minha irmã. E confesso que também me interessei por aquela moça.
— Se interessou? — Os olhos azuis da princesa se nublaram em uma surpresa melancólica.
— Ela me lembra de uma outra moça que conheci no campo, quero ter certeza de que se trata dela. Mas e você? Por que tanto interesse nessa moça?
O que diria a Philip? Que a moça que ela estava interessada era a mesma que roubava suas noites de sono e tardes a sua procura? Não queria que sua relação com seu irmão fosse quebrada por esse sentimento.
— Você se interessou por ela, Maryenne?
O sussurro confidente de Philip fez seu sangue gelar, e por um instante, Maryenne pode sentir suas pernas fraquejarem.
— É por essa razão que está procurando por ela? Diga, Maryenne! É por isso?
Apenas se afastou do irmão, em silêncio, se quer olhava nos olhos tão azuis quantos os seus.
— Está apaixonada?
— Não.
— Mary, sou seu irmão, sei quando está mentindo para mim.
— Apenas... apenas quero vê-la de novo. E devolver seu sapatinho.
Philip a encarou confuso, sapatinho?
— Quando ela fugiu, deixou para trás um de seus sapatinhos de cristal.
— Então vamos procura-la. Vamos achar a dona do sapatinho de cristal.
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E se for ela?
RomantizmEsse livro é uma releitura de "Cinderela". Ella é uma jovem garota com um coração puro e uma admirável determinação, mesmo com sua madrasta e irmãs postiças cruéis, ela ainda consegue ser uma pessoa gentil e bondosa. Um desejo misturado com uma pita...