Capítulo 9 - Uma decisão a tomar

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O silêncio reinou na sala do trono, nada das palavras de seu pai fazia sentido. Ella seria a noiva de Philip para que assim ele herdasse o trono, então... por que ela? Mesmo que nutrisse um carinho por Ella, aquilo ainda não era acreditável para a princesa.

O rei por outro lado, observava cada pequeno movimento feito pela filha mais velha, sua postura imponente no trono, apenas esperava algum outro questionamento de Maryenne, esse que não demorou a vir.

— Pai, isso não faz sentido. O trono é do Philip, o casamento com a Ella era para que ele enfim fosse o rei e desse um herdeiro para o reino!

— Sei o que falei, Maryenne. Philip também deu sua opinião sobre isso.

— Então...

— Você subirá ao trono como rainha, assim que se casar com a garota do sapatinho de cristal — vendo a confusão ainda no rosto da filha, continuou. — Philip não tem o perfil e nem a postura de um rei, Maryenne. O conselho e eu decidimos que seria melhor que você assumisse o trono, é a capitã da guarda real, é respeitada, leal ao reino e sabe tudo sobre política, seus julgamentos sempre são justos, minha filha. — Fez uma pausa, apenas para se levantar do trono e ir para a janela que dava vista para o jardim.

— Eu não posso...

— O conselho sabe que você não pode ter filhos! — O rosto surpreso da general da guarda real apenas fez com que o rei continuasse. — O melhor para o reino é que você se torne a rainha, ao lado da garota do sapatinho de cristal. Seu irmão será o segundo na sucessão, e os filhos que ele tiver também carregarão o legado de Veridia.

— Então esse tempo todo, fui apenas um peão para o reino? Uma peça política?

O rei se virou para olhar o rosto da filha.

— Não foi só isso que influenciou minha decisão, Maryenne. Eu vi como você ficou com o sumiço dessa moça depois do baile, também vi como a olhava no salão de bailes. Não pense que suas emoções passaram despercebidas por mim.

A mulher abriu a boca para protestar, mas a fechou novamente. Seu pai estava certo, ela gostava de Ella, mas tudo aquilo ainda parecia tão irreal.

— Fale com a moça, se ela concordar com a mudança de noivos, continuará no castelo como uma princesa consorte.

A general sentiu o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros, mas mantendo a cabeça erguida, apenas concordou: — Se isso é uma ordem, então eu a farei, majestade.

E assim ela saiu da sala do trono, com seu coração acelerado e uma esperança de ter Ella ao seu lado.

────⊱◈◈◈⊰────

Encontrou Ella conversando com Philip nos corredores dos quartos, reunindo toda coragem em seu corpo, se aproximou dos dois. Seus pensamentos estavam a mil, como ela contaria aquela noticia a Ella sem magoar a jovem? E mais importante ainda, como controlar seus sentimentos se eles transbordavam a cada gesto perto da garota loira?

— Philip.

— Irmã.

— Eu gostaria de falar em particular com a Ella — os olhos azuis de Maryenne sequer fitaram os do irmão, apenas Ella estava em seu campo de visão.

— Claro! Nos vemos depois, Ella. — E com uma sutil reverencia, ele saiu pelos corredores do castelo.

Maryenne respirou fundo, entrando em um dos quartos, puxando Ella para entrar consigo.

— Alteza, algum problema?

— Não... quer dizer...

Ella se aproximou, segurando as mãos da princesa em uma forma de acalmá-la.

— Você não vai se casar com o Philip!

— O quê?

— O rei e o conselho decidiram que você não vai se casar com o Philip...

— Eu... eu achei que o sapatinho... eu achei que ele queria se casar com a garota do sapatinho de cristal! — O desespero começou a tomar conta de Ella. Ela teria que voltar a casa de sua madrasta? Seria obrigada a cuidar da casa como uma escrava?

— Não, não, Ella! Você não vai se casar com o meu irmão, mas sim com outra pessoa, alguém que possa governar ao seu lado com força e sabedoria.

— Com quem?

A princesa deu algumas voltas no quanto, seu nervosismo fazia com que as palavras não saíssem de sua boa.

— Com quem, Maryenne?

— Comigo!

O quarto ficou em silêncio. Ella estava surpresa, seu coração estava acelerado, por um momento ela havia perdido todo o ar. Se casar... com Maryenne?

— Com você?

— Sim...

— Eu... eu imaginei que isso fosse contra as tradições.

— E é! Porém Philip não é maduro o suficiente para governar o reino, ele não é do tipo de pessoa que é diplomata. O conselho e o rei, acham que esse casamento seria beneficiário para Veridia.

Ella permaneceu em silêncio por um momento.

— E você... o que você acha disso?
Maryenne hesitou, seu peito doía em expectativa antes de responder: — Não importa o que acho sobre isso, Ella. Mas o que você deseja? Garanto que o rei e o conselho vão acatar a sua vontade, e eu também.

Ella olhou para Maryenne, tentando entender a tempestade de emoções que se escondia por trás de seus olhos azuis.

— Você iria contra o rei por uma decisão minha?

A princesa se aproximou da jovem loira, olhando em seus olhos castanhos.

— Eu jamais a obrigaria se casar comigo, Ella. O que quer que você decida, eu aceitarei e farei com que o conselho e meu pai aceitem também.

E com isso, a princesa saiu, deixando Ella sozinha com seus pensamentos tumultuados.

────⊱◈◈◈⊰────

Maryenne caminhou até os estábulos, tentando acalmar a mente. Cada vez que pensava na conversa com Ella, sentia o coração apertar. Como seria possível governar ao lado da mulher que amava, sabendo que esse amor nunca seria correspondido?

Ela acariciou o pescoço de seu cavalo, Blackthorn, como se o animal pudesse oferecer algum consolo.

— O que você acha disso tudo, hein, garoto? Estou sendo tola, não estou?

O cavalo relinchou suavemente, como se concordasse.

A princesa suspirou, encostando a testa na crina do animal.

— Eu faria qualquer coisa para vê-la feliz. Mesmo que isso signifique sufocar o que sinto e esquecê-la.

A voz do rei ecoava em sua mente. " Eu vi como você ficou com o sumiço dessa moça depois do baile, também vi como a olhava no salão de bailes." Será que Ella também havia notado?

Enquanto Maryenne lutava com seus sentimentos, Ella permanecia em seu quarto, fitando a paisagem com um misto de esperança e dúvida. Pela primeira vez em anos, o futuro parecia estar em suas mãos. Mas seria ela forte o suficiente para aceitá-lo?

E se for ela?Onde histórias criam vida. Descubra agora