ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ caput 05

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A chuva começava a gotejar sobre o para-brisa, enquanto o carro deslizava pelas ruas desertas, rumo ao monastério. Perséfone fitava a escuridão à sua frente, mas sua mente ainda estava presa na igreja, naqueles minutos tensos com o padre Charlie Mayhew. Ela repassava cada palavra, olhar, como se pudesse entender onde tinha perdido o controle. Porque, por Deus, ela tinha perdido.

Ela sabia que ele era um homem perigoso. Ele tinha um magnetismo que nenhuma batina poderia esconder, mas mesmo assim... ela não esperava que ele fosse agir daquele jeito. Não sob o teto de uma igreja. Não com tanto... fervor.

"Você está testando seus próprios limites agora, não está?"

Aquelas palavras continuavam ribombando em sua cabeça, munidas de uma intensidade velada. Como ele tinha ousado desafiá-la daquela forma? Era ela quem o estava provocando, quem o estava empurrando para fora dos trilhos. Ele deveria ter recuado. Ele deveria ter resistido, ou, no mínimo, repreendido seu comportamento inadequado.

Mas não. Ele retaliou.

Perséfone apertou os dedos ao redor do volante, frustrada. Aquilo não fazia parte do plano. O jogo era dela, não dele. O padre deveria ter sido fácil de manipular, uma peça a ser usada em seu pequeno experimento de controle e tentação. Mas ao invés de cair na armadilha, Charlie Mayhew revidou, e ela não sabia como processar isso.

— Você está quieta — Megan comentou do banco do passageiro, mexendo no celular sem muito interesse, as unhas curtas e cuidadas arranhando a tela. O tom dela era neutro, quase desinteressado, mas havia algo sob a superfície, como se também tivesse percebido a mudança no ar.

— Estou pensando — Perséfone respondeu, mantendo os olhos na estrada à frente, embora a cena que realmente via estivesse dentro da igreja, no púlpito, quando Charlie prendeu os olhos nos dela e praticamente a desafiou a continuar.

Megan riu baixinho.

— Pensando no sermão, ou no padre? — ela quis saber, erguendo uma sobrancelha sugestiva. Havia sarcasmo e algo mais naquela pergunta.

Perséfone não respondeu de imediato. Ela não gostava de admitir fraqueza, muito menos diante de Megan. Mas, ao mesmo tempo, ela sabia que não conseguiria tirar Mayhew da cabeça tão cedo. Ele havia mexido com algo dentro dela, e isso era perigoso.

Antes que ela pudesse pensar em uma resposta digna, o celular de Megan começou a vibrar. A mão de sua amiga voou até o aparelho, e o sorriso que Megan tinha no rosto desapareceu assim que viu quem ligava. O carro mergulhou em um silêncio pesado.

— Alô? — Megan atendeu com uma voz tensa, o tom sério tomando conta de sua postura, como se estivesse se preparando para algo que Perséfone ainda não sabia.

O coração de Perséfone acelerou. Ela sentia quando algo estava para acontecer. Podia sentir a mudança na atmosfera. Megan escutava a pessoa do outro lado com o rosto sério, e quanto mais a conversa avançava, mais as costas de Perséfone se arrepiavam.

Então veio a notícia.

— Mais uma — Megan sussurrou, os olhos frios enquanto encarava Perséfone. — Mais uma vítima. Enquanto estávamos no sermão... encontraram uma garota morta.

Perséfone sentiu o sangue fugir de seu rosto. Grotesquerie atacara novamente. A sombra que pairava sobre a cidade há meses continuava a crescer, implacável. Mais uma jovem, mais uma morte brutal. O padrão estava se consolidando.

Ela respirou fundo, tentando suprimir a onda de adrenalina que a notícia provocou.

E o padre Charlie?

Por algum motivo, ela não conseguia afastar o rosto dele da mente.

SAGRADO PROFANO  |  Charlie MayhewOnde histórias criam vida. Descubra agora