Charlie estava sentado em seu escritório, os olhos deslizando minuciosamente pelo artigo que Megan havia escrito para o Catholic Guardian. O texto estava pendente de sua aprovação. Era algo sobre o aumento de jovens se envolvendo em atividades da igreja — uma tentativa de trazer mais almas para a fé. Ele lia cada linha com atenção cirúrgica, embora as palavras fossem apenas ruído de fundo, perdidas em meio ao turbilhão que era Perséfone em sua mente. Como diabos ela conseguia fazer isso com ele?
O alarme interrompeu o fluxo de sua distração. Ele olhou para o relógio e bufou, jogando o rascunho sobre a mesa. Claro. Era o horário semanal de confissões, e ele não tinha nem um pingo de disposição para ouvir os pecados de outras pessoas hoje. Mas, era sua obrigação. Dever acima de desejo.
Caminhou até o confessionário com passos pesados, o peso da noite anterior ainda o oprimindo. Autocontrole. Disciplina. Ele repetia essas palavras internamente como uma reza, uma tentativa inútil de se convencer de que ainda tinha controle sobre si mesmo. Mas, no fundo, ele sabia que estava à beira de perder tudo.
Charlie tomou seu lugar no compartimento. A primeira penitente foi uma senhora idosa, uma presença frequente. Ela murmurou baixinho, a voz falhando enquanto confessava desejar a morte do próprio marido. A mesmice daquilo o fez soltar um suspiro quase audível. Mayhew a abençoou e pediu para que orasse por paciência. Simples. Fácil.
Inofensivo. Nada que abalasse sua postura.Mas a próxima.
A cortina se mexeu, e ele soube imediatamente quem era.
Perséfone.
Seu corpo ficou tenso no mesmo instante, o coração disparando dentro da caixa torácica. Ela não podia estar falando sério. Depois do que aconteceu ontem? Depois da calcinha? Ela teria a audácia de aparecer ali? No confessionário? Ele apertou o punho, o calor subindo pela sua coluna. O desejo de abrir a cortina e enforcar aquele pescoço delicado e forçar alguma noção de decência em sua mente sedutora e diabólica era quase incontrolável. Ele queria castigá-la. Queria puni-la por cada centímetro de provocação.
Mas algo o deteve.
A ideia de Perséfone ajoelhada, cumprindo qualquer penitência que ele impusesse, o fez sorrir. Diabolicamente. Se ela queria jogar, ele também sabia como.
Quando ela se ajoelhou e a cortina foi puxada para o lado, a luz suave da igreja iluminando parte de seu rosto, ele sentiu o pulso acelerar. Merda. Ela estava linda. Pecaminosamente linda. E seus lábios... os lábios que, com uma suavidade quase venenosa, proferiram as palavras que quase o fizeram perder o controle.
— Padre — a voz dela soou baixa e provocante, carregada de uma insinuação que ele reconheceria em qualquer lugar. — Eu estou arrependida.
Mentira. Ela não estava. Não havia um único resquício de arrependimento em seu tom, no jeito que olhava para ele, através das grades do confessionário. Aquela boca maldita estava jogando com ele de novo.
— Eu não... eu não queria... — ela emendou.
Charlie prendeu a respiração, os olhos fixos na boca dela. A vontade de corrigir aquela mulher crescendo, quase tomando conta. Queria impor a ela uma penitência que deixaria marcas. Marcas no corpo, na alma. Ele se imaginou dobrando-a sobre seus joelhos, as palmas de suas mãos descendo forte sobre a pele dela, um castigo físico para cada provocação. A ideia tomou forma em sua mente, perigosa.
Mas em vez disso, ele se inclinou levemente, seu tom baixo, quase perigoso.
— Não minta, querida. — As palavras saíram grave, quase uma risada amarga. Ele sabia que ela estava mentindo, e ela sabia que ele sabia. — Você veio aqui porque queria. Não por arrependimento. Não por redenção. Mas porque queria saber até onde isso poderia ir, até onde eu te levaria.
Chocada, irmã Perséfone engasgou, mas logo recuperou a postura.
— Eu não mentiria para um padre. — ela projetou os lábios em um biquinho adorável, as sobrancelhas franzidas em uma expressão de falsa inocência.
Ah, ela era atrevida.
Charlie sorriu, mais para si mesmo do que para ela. Ela estava ajoelhada, vulnerável à sua misericórdia, e ele faria questão de que ela soubesse disso.
— Se está aqui, então você aceita a penitência que eu der. Vai cumpri-la, certo?
A tensão era tangível, eletrizante. Ele observou enquanto ela hesitava, as palavras que iam sair da boca dela morrendo na garganta. Ela o desafiava com os olhos, mas ele sabia que a dúvida havia surgido em algum lugar de sua mente. Ele tinha o controle agora.
— Padre, eu...
— Você vai cumpri-la, Perséfone — ele cortou, a voz firme. Quase uma ordem.
Ela o encarou, mas ele pôde ver a máscara dela vacilar, se fragmentando. Um breve vislumbre da verdadeira Perséfone surgiu ali, hesitante. Ela não estava tão no comando quanto achava, mesmo que por um instante.
E ele adorou cada segundo disso.
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SAGRADO PROFANO | Charlie Mayhew
FanfictieEm Saint Rosalie, nada é tão sagrado quanto parece. As paredes da igreja escondem mais do que preces silenciosas - elas abafam os gritos daqueles que caem em desgraça. Padre Charlie Mayhew, com sua batina impecável e uma alma marcada por uma escurid...