A porta do quarto rangeu quando Perséfone a empurrou, a madeira velha gemendo em protesto contra a umidade que parecia impregnar o lugar inteiro. A chuva batia violentamente na janela, e o vento assobiava pelos corredores do convento, criando um ritmo tenso e constante, como um lembrete sinistro do que havia acontecido lá fora.
Ela suspirou, os ombros pesados de tensão enquanto se apoiava na parede por um momento. O quarto estava escuro e vazio, a única fonte de luz era o relâmpago ocasional que iluminava o céu, e, por consequência, a pequena cruz acima da cabeceira. Megan não voltaria tão cedo. A notícia do assassinato a tinha levado a uma reunião urgente, e Perséfone sabia que teria um tempo a sós.
Ela precisava disso.
Os pensamentos continuavam rodopiando na cabeça dela, caóticos e impossíveis de organizar. O padre Charlie ainda estava lá, pairando na memória, e, de repente, parecia que a cidade inteira estava envolta em um nevoeiro denso de pecado e morte. As mãos dela tremiam, não de medo, mas de uma inquietação que não sabia nomear.
Com um suspiro, ela começou a se despir.
A batina deslizou por seus ombros, caindo suavemente no chão como um peso morto, deixando a pele fria e exposta ao vento que se infiltrava pela janela. Os dedos dela tocaram a renda da calcinha vermelha, a mesma que ela tinha usado na igreja. Um símbolo do desafio que pretendia fazer, e que agora parecia uma ironia diante do que acontecera.
Charlie Mayhew.
Ela não conseguia parar de pensar nele, na forma como ele parecia se forçar a manter o controle. O maxilar travado, as mãos apertando o púlpito até os nós dos dedos ficarem brancos. Mas o que a perturbava mais não era o que ele fez, e sim o que ela sentiu. A eletricidade que se espalhou pelo corpo dela como uma onda de choque quando ele respondeu à altura.
Ela havia esperado um homem de Deus. Mas o que ela encontrou foi algo completamente diferente.
Perséfone se aproximou da cama, sentindo o tecido frio dos lençóis contra sua pele quente quando se deitou. O som da chuva a envolvia, abafando o caos em sua mente por alguns segundos. Mas não o suficiente. A memória de Charlie ainda estava lá, insidiosa, infiltrando-se como a água da chuva nas frestas da janela.
Ela fechou os olhos, tentando apagar a sensação das palavras dele, a maneira como ele a olhou. Como se a visse de verdade, e não como um pecado a ser evitado.
O que ele sabia?
O que Charlie Mayhew escondia por trás daquela fachada de santidade?
A dúvida crescia dentro dela, e, pela segunda vez, Perséfone se sentiu sem controle.
Ela não tinha mais certeza de quem estava tentando quem.
Os dedos dela traçaram a curva de seu pescoço, descendo até o colo, como se pudessem desfazer a sensação daquele olhar sobre sua pele. Mas tudo que conseguiram foi intensificar o calor que ela tentava ignorar. Seu corpo parecia uma mistura de frustração e desejo, uma batalha que não deveria estar acontecendo dentro dela. Não com ele. Não com um padre.
Mas não havia como negar.
O desejo de vê-lo vacilar mais uma vez, de testar até onde ele aguentaria, estava ali. Latejando. Assim como o medo.
Um trovão soou ao longe, e ela abriu os olhos, encarando o teto do quarto escuro. Charlie Mayhew era um problema. Um problema que ela não sabia se conseguiria resolver... ou se queria.
E isso a apavorava e excitava na mesma medida.

VOCÊ ESTÁ LENDO
SAGRADO PROFANO | Charlie Mayhew
ФанфикEm Saint Rosalie, nada é tão sagrado quanto parece. As paredes da igreja escondem mais do que preces silenciosas - elas abafam os gritos daqueles que caem em desgraça. Padre Charlie Mayhew, com sua batina impecável e uma alma marcada por uma escurid...