O carro avançava pela estrada sinuosa, e o silêncio entre elas era pesado, preenchido apenas pelo som baixo da música que saía do rádio. Perséfone dirigia, os dedos apertando o volante, enquanto seus olhos se desviavam para o espelho retrovisor, procurando qualquer resquício de batom nos lábios. Não podia correr o risco de ser vista assim. Não pelo padre. Não ainda.
Ela mordeu o lábio levemente, testando a cor. Ainda tinha vestígios, um toque suave de vermelho que não deveria estar ali, mas que agora parecia mais uma provocação sutil. Algo que ela poderia apagar no último segundo, se quisesse. Um jogo. Tudo isso era um jogo, e ela estava decidida a vencer. Ele não resistiria.
Ao seu lado, Megan a observava. Sabia que a outra podia sentir a tensão pesando sobre ela, mas, de alguma forma, aquilo só tornava tudo mais excitante. Não havia troca de palavras, mas os sorrisos e olhares trocados carregavam promessas veladas. Ambas sabiam o que estava em jogo.
O pensamento do padre Charlie já dominava sua mente. Ele, com sua postura rígida, sempre tão controlado, tão acima de qualquer tentação. Ela riu por dentro, imaginando como ele reagiria ao vê-la, o que faria se suas mãos escorregassem sob o tecido macio da batina, seus dedos explorando tudo o que ela não deveria tocar. Ela o faria perder o controle. Destruiria a fachada de santidade que ele carregava tão bem.
Mas antes... ela precisava garantir que estava perfeita. Seus olhos se desviaram para o banco de trás, onde sua bolsa estava aberta. Ela estendeu a mão, puxando discretamente o espelho de bolso. Com um movimento rápido, olhou novamente para os lábios, certificando-se de que não havia cor demais. O vermelho era perigoso, uma lembrança de que não havia redenção naquele desejo.
Ela verificou o batom, limpando o canto dos lábios com a ponta do dedo. Perfeito. Ele jamais saberia o que estava por vir até que fosse tarde demais. Até que ele estivesse tão envolvido, tão consumido pelo desejo, que nem mesmo o confessionário seria capaz de salvá-lo.
Confessionário. A palavra fazia seu corpo reagir, os músculos tensionando ao imaginar o cenário. A madeira fria sob suas mãos, o som de seus passos ecoando pelo espaço vazio, o padre do outro lado, sua voz grave, inabalável. Até que não fosse mais. Até que ela o quebrasse.
— Você está muito quieta, — Megan comentou ao seu lado, interrompendo seus devaneios. O tom de voz era leve, mas o olhar era afiado, como se soubesse exatamente onde a mente de Perséfone estava. — Algo em mente para hoje?
Perséfone sorriu, sem desviar o olhar da estrada.
— Só pensando no sermão — respondeu, sua voz munida de uma falsa inocência que não enganava ninguém.
— No sermão ou no padre? — Megan brincou, inclinando-se um pouco mais no banco, o olhar tão penetrante quanto antes.
Perséfone riu, sentindo a adrenalina percorrer seu corpo. Megan sabia demais, e isso só tornava tudo mais... interessante.
— Talvez nos dois, — ela admitiu, apertando um pouco mais o volante. Mas estava mentindo. O sermão não significava nada para ela. Apenas o padre importava. Ele era o prêmio, e ela estava prestes a reivindicá-lo.
Com um movimento discreto, ela ajeitou o hábito, garantindo que o tecido não revelasse nada por enquanto. Debaixo dele, a renda vermelha de sua calcinha pressionava contra sua pele, um lembrete de sua própria perversidade. Era o último toque, a última peça em seu plano. Ela sabia que ele talvez não a visse, mas a simples ideia de que estava ali, pronta para ele, era suficiente para deixá-la trêmula de antecipação.
O padre Charlie não sabia o que o aguardava. Ela o tentaria, o faria questionar cada voto de castidade, cada prece que ele já havia feito. A ideia de vê-lo lutar contra o próprio desejo, de vê-lo quebrar, era um prazer em si. Perséfone imaginava o confessionário, pequeno e claustrofóbico, o cheiro de madeira velha e incenso enchendo o ar, enquanto ela se ajoelhava, como uma penitente em busca de absolvição.
Mas, desta vez, não haveria absolvição.
— O que você acha que ele faria, se soubesse o que você está pensando? — Megan perguntou, interrompendo seus devaneios mais uma vez.
Perséfone sorriu, ladina, seus pensamentos escurecendo ainda mais.
— Ele rezaria por mim — respondeu suavemente. — Mas isso não seria suficiente. Ele acabaria rezando por si mesmo.
O carro desacelerou, e o grande prédio da igreja surgiu à frente delas, silencioso e imponente contra o céu cinzento. Perséfone respirou fundo, sentindo o coração bater mais rápido. Hoje, o padre Charlie descobriria que o pecado, às vezes, não era algo que você podia evitar.
Era algo que você escolhia.
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SAGRADO PROFANO | Charlie Mayhew
FanficEm Saint Rosalie, nada é tão sagrado quanto parece. As paredes da igreja escondem mais do que preces silenciosas - elas abafam os gritos daqueles que caem em desgraça. Padre Charlie Mayhew, com sua batina impecável e uma alma marcada por uma escurid...