VENCEDOR DO WATTY AWARDS 2018 NA CATEGORIA CRIADORES DE MUDANÇAS
Para Kurt Young, a vida sempre foi dura. Mas o ruim conseguiu se tornar pior desde que ele saiu de casa com o carro que roubou do pai. Longe do subúrbio onde foi criado, ele se arrisco...
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O sol não alcançava a saída dos fundos do Departamento de Polícia. Caminhando ao longo da sombra do prédio, Kurt chegou com as mãos no bolso, se escoltando do frio. Àquela altura da tarde, apenas alguns poucos policiais estavam por ali, tirando a hora atrasada do almoço para fumar no estacionamento de motos. Kurt os ignorou e não olhou por tempo demais para que não tivessem oportunidade de reconhecer seu rosto. Perto do Mustang cinza que conhecia como a palma de sua mão, ele se encostou na parede áspera da saída dos fundos do prédio e, então, esperou.
Havia uma máquina de venda automática de jornais logo ao lado. Kurt não precisou de uma moeda para ver a manchete principal do dia, pois o visor de vidro exibia a página da frente como amostra grátis das notícias. O título e a descrição diziam: EXPLOSÃO NO DESERTO - A centenária fábrica de pólvora construída no início do século XX no Deserto Mojave não resistiu ao seu destino e explodiu na madrugada desta quinta-feira. O tremor foi sentido em um raio de 5 quilômetros, e a estrutura de um dos prédios mais antigos do Estado não resistiu ao abalo.
Sem surpresa nenhuma, Kurt encarou a manchete e a foto que trazia, ilustrando o prédio da Toca que veio a se tornar meras ruínas. Seus olhos arderam, e ele piscou, incapaz de passar indiferente à destruição da parte mais importante de sua vida. A destruição que ele mesmo ajudou a causar.
Quando a porta dos fundos fez um ruído, abrindo, ele fungou e esfregou os olhos, se obrigando a olhar para longe do jornal.
Deixando o Departamento, estava Nash, com uma caixa descartável, grande e pesada o bastante para tensionar os músculos de seus braços e ressaltar os tendões de suas mãos. Rumo porta-malas aberto do Mustang estacionado, ele não viu Kurt logo atrás. Mas quando um livro escapou da caixa, Kurt estava lá para pegá-lo antes que ele caísse. Surpreso, Nash o encarou com um sobressalto, olhos vidrados. Segundos depois, o sorriso em seus lábios pareceu automático, se dissolvendo por todo o rosto, aliviado.
— Precisando de ajuda? — Kurt sorriu de volta, devolvendo o livro à confusão da caixa.
Nash deixou o peso cair no chão do porta malas, com todas as coisas que ocupavam seu antigo escritório, e parou se segurando no alto da tampa levantada, mantendo o olhar de Kurt por todo o tempo.
— De você, sempre — Nash murmurou entre eles.
Kurt deu um passo mais perto e segurou a ponta dos dedos dele, que respondeu apertando suas mãos juntas. Fazia quase 12 horas que não se viam, desde que se separaram na última noite para executar o plano que haviam traçado. Depois de passarem juntos pelo luto com a prisão de Mackenzie no dia anterior, eles decidiram qual era a coisa mais certa a se fazer. Com pólvora e fogo em sua mente, Kurt foi quem arquitetou a estratégia. E com habilidade de se esgueirar pelas barreiras da polícia para acender a chama, Nash foi quem executou a ação, durante a madrugada. Agora estavam ambos ali, se entreolhando em silêncio, mas sabendo que pensavam naquela mesma coisa que causaram.