a chuva do amor - P. Mescal

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Era uma tarde cinzenta em Londres quando S/N, jornalista de uma renomada revista de cinema, recebeu a notícia que mudaria sua semana: ela teria que entrevistar Paul Mescal. A princípio, parecia um trabalho comum, mas para ela, era um pesadelo. S/N e Paul tinham uma história que remontava a um encontro desastroso meses atrás, em um evento de gala. Durante uma breve troca de palavras, ele havia sido sarcástico e, segundo ela, completamente arrogante. Desde então, ela o considerava insuportável.

"Ótimo", murmurou S/N para si mesma ao receber a pauta. "A única coisa que me faltava era passar horas com o 'Sr. Arrogância'."

Paul, por outro lado, também não tinha boas lembranças daquele evento. Ele lembrava-se de S/N como alguém teimosa e crítica, alguém que não parecia se impressionar nem um pouco com seu sucesso. Isso o intrigava, mas também o irritava. Quando soube que seria entrevistado por ela, não conseguiu evitar um sorriso irônico.

— Isso vai ser interessante — comentou para seu agente.

[...]

O encontro foi marcado em um café discreto no Soho, longe dos holofotes. S/N chegou alguns minutos antes, ajustando mentalmente as perguntas para manter a conversa estritamente profissional. Vestida de forma elegante, mas prática, ela estava determinada a manter a compostura.

Paul chegou logo depois, com um casaco pesado e um sorriso que parecia desafiador. Ele se aproximou da mesa onde ela estava sentada, tirando o cachecol e revelando o rosto familiar que estampava revistas e cartazes de cinema.

— S/N — ele disse, com um tom que era ao mesmo tempo educado e provocativo. — Que prazer.

Ela levantou o olhar, tentando esconder o incômodo. — Paul. Espero que possamos manter isso... direto e simples.

Ele ergueu uma sobrancelha, como se aceitasse o desafio. — É claro. Direto e simples. Isso descreve você perfeitamente, não é?

Ela ignorou a provocação, abrindo seu bloco de notas. — Vamos começar, então.

[...]

A conversa começou tensa. S/N fazia perguntas objetivas, enquanto Paul respondia com sarcasmo disfarçado de charme.

— Você parece muito confiante no papel de Calum em Aftersun. Foi difícil se conectar com a complexidade emocional do personagem, ou isso veio naturalmente para você? — ela perguntou, olhando diretamente para ele.

Paul inclinou-se na cadeira, cruzando os braços. — Bem, S/N, não sei se "naturalmente" seria a palavra certa. Mas, claro, algumas pessoas acham que sabem tudo sobre emoções, então talvez você pudesse me dizer.

Ela estreitou os olhos, irritada. — Eu estou aqui para ouvir a sua opinião, Paul. Não para dar a minha.

— Bom, então você está perdendo uma oportunidade. — Ele deu um sorriso de canto, que a deixou ainda mais irritada.

A entrevista continuou nesse tom, com faíscas de animosidade surgindo a cada troca. Mas, à medida que as horas passaram, Paul começou a perceber algo diferente em S/N. Ela não era como os jornalistas que ele normalmente encontrava — aqueles que o bajulavam ou faziam perguntas genéricas. Ela era perspicaz, inteligente e não tinha medo de desafiá-lo.

Por outro lado, S/N também começou a notar algo em Paul. Apesar de sua postura provocativa, ele tinha um jeito genuíno quando falava sobre seu trabalho. Quando mencionou como Aftersun era um projeto pessoal para ele, ela viu um vislumbre de vulnerabilidade em seus olhos.

— Parece que esse filme foi muito importante para você — disse ela, em um tom mais suave, quase sem perceber.

Paul olhou para ela, surpreso com a mudança de tom. — Foi, sim. Acho que me ajudou a entender partes de mim que eu evitava antes.

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