Agnes aprendeu cedo que pessoas perigosas não parecem monstros.
Às vezes, elas têm olhos tediosos e um sorriso quase inexistente.
Em um mundo de corridas clandestinas, segredos e mentes quebradas, confiar pode ser fatal.
Algumas pessoas sobrevivem.
...
Sinto um gosto amargo na boca. Pego o guardanapo na bandeja e o levo em direção a boca cuspindo tudo o que estava mastigando. Olho para o guardanapo e faço cara de nojo para a gosma preta e nojenta. Resmungo e amasso o papel jogando ele na bandeja.
— Será que está estragado? — Daniela perguntou me olhando curiosa.
Minha visão fixa nos seus machucados quase sarados. Continuam visíveis e feios, mas apesar disso, a ruiva não parece ssentir dor mais. Ela come tranquilamente sua maçã, mesmo que com o canto do lábio ainda arroxeado.
— Acho que sim. — Respondo pegando mais guardanapo e levando a boca.
— O cheiro não estava bom. — A loira afirma. — Eu avisei. — Chiara reforça enquanto morde o canudo do seu suco de cor estranha.
A mistura de limonada com groselha fez o suco ficar nojento apenas de olhar. Reviro os olhos devolvendo o guardanapo sujo e amassado para a bandeja.
— Seu suco também não parece bom. — Alfinetei, ela apenas suga o líquido com força, fazendo suas bochechas sumirem e olhos fecharem.
Rio da sua resposta não verbal. — Amei a resposta, amiga. — Brinco e ela ri.
Daniela suspira profundo e joga o resto da maçã sobre a bandeja chamando nossa atenção.
— Estou cansada... — Deixou no ar deitando a cabeça na mesa.
— Só você, né? — Chiara ironizou olhando para a ruiva que virou seu rosto para ela sem tirar a cabeça da mesa.
— Como foi com o seu irmão? — Perguntou sem humor.
Chiara tira o canudo da boca. — Péssimo. — Assumiu em um suspiro. — Tentei chamar ele para conversar esse fim de semana todo, mas não deu em nada. Eu pareço ser invisível. — Explicou bufando no final. — Babaca! — Resmungou deixando seu suco de lado e deitando sua cabeça nas costas de Daniela.
— Que idiotice. Eles estão agindo como crianças e babacas! — Dani bufa enquanto deixa um murro na mesa. — Nem foi algo tão ruim assim... — Terminou em um muxoxo.
— Não é querendo ficar do lado deles... — Inicio dividindo meu olhar entre elas. — Foi bem ruim, sim. Você levou um tiro. Eu, quase morta e Chiara, praticamente, um baculejo do irmão. — Relembro os ocorridos do dia. — Não foi ruim para nós, porque a corrida foi novidade. — Expresso minha opinião fazendo ambas ficarem em silêncio e pensativas.
— Não ligo. — Daniela diz subindo sua cabeça com o queixo sob suas mãos. — Por algum motivo, para eles foi bem ruim, e isso nem faz sentido, a única que deveria ser alvo disso tudo é Chiara, que é irmã de Miguel. — Suas palavras fazem Chiara beliscar as costas da ruiva que resmunga em resposta.