Agnes aprendeu cedo que pessoas perigosas não parecem monstros.
Às vezes, elas têm olhos tediosos e um sorriso quase inexistente.
Em um mundo de corridas clandestinas, segredos e mentes quebradas, confiar pode ser fatal.
Algumas pessoas sobrevivem.
...
Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.
10/02/2017 – Quinta-feira, Morgan City.
Franzo as sobrancelhas e apertos os olhos com força ao sentir uma pontada forte na cabeça. Resmungo e minhas mãos tremem para a textura ranhosa, gelada e úmida. Puxo o ar com força pelo nariz, me arrependo. Um odor forte sobe na minha narina e eu sou obrigada a abrir os olhos para descobrir o que está acontecendo.
Com dificuldade e olhos cansados, eu reparo a minha situação. As memórias voltam como um flash e é impossível não sentir angústia e terror ao mesmo tempo. Me remexo, minhas costas estralam em resposta, meus tornozelos ardem e eu gemo de dor.
Estou pegajosa e fedendo. O sangue está seco, totalmente grudado ao meu corpo e vestido, em cada rajada de vento frio, eu tremo e sinto o cheiro de carniça subir. Fui largada na entrada de Morgan, consigo me localizar por pouco o que me faz agradecer mentalmente por não dormir todas às vezes em que peguei ônibus.
Sinto mais uma pontada na cabeça. Tão forte que me faz tocar minha testa e massagear o local. Continuo deitada e gemendo de dor. Sinto que se eu me levantar, meus ossos irão ceder. O seco da garganta me faz engolir minha própria saliva na busca por alívio, passo a língua pelos meus lábios secos. O sabor de ferro dominando o meu paladar, meu roto enrijece, sinto ânsia. Cuspo a saliva que se misturou com o sangue seco de porco grudado nos meus lábios.
Inspiro e expiro com força na tentativa de me manter calma, mas nada muda. Meu corpo continua trêmulo, a ardência em meus tornozelos aumentam, as pontadas se tornam mais fortes, o frio abraça meu corpo, e as lágrimas silenciosas, que percebo apenas agora ao caírem nos meus lábios com o típico gosto salgado, preenchem meu rosto exausto pela perturbação que minha mente faz ao voltar inúmeras vezes para todas as palavras que Francesca falou.
Estou ofegante, cansada, assustada e machucada. Mas nada, além de mim mesma, pode me salvar.
Inspiro pelo nariz, tento ignorar ao máximo o odor para não vomitar em cima de mim mesma e piorar minha situação, e expiro trêmulo pela boca. Nada melhora, nada muda ou diminui, mas eu não tenho escolha e não tenho ninguém. Então, arranjando força de algum lugar dentro de mim, coloco força nas mãos e nos braços, eles tremem pedindo arrego, mas ergo meu tronco aos poucos por sentir pontadas demais na lombar, minhas pernas tremem e meus tornozelos ardem pelo movimento.
Quando ergo meu tronco por inteiro, observo melhor à escura, suja, fria, vazia e longa estrada de Morgan. Um vento forte e frio abraça meu corpo me enviando tremores, me abraço e me encolho no meu próprio aperto.
O silêncio e as faltas de presença humana e locomotiva me trazendo uma agonia horrível no peito. Está horrivelmente vazia essa estrada. Mesmo assim, continuo sem escolhas.
Passo as minhas mãos sobre meu rosto molhado secando-o, respiro profundamente com os olhos fechados e não espero que minha agonia e medo se tornem uma crise de ansiedade e pânico. Isso apenas traria mais problemas. E estou farta de problemas, principalmente dos que eu causei.