Depois do delicioso café da manhã, Zyron me leva para um passeio pelos terrenos de sua Corte em seu cavalo enorme. Era um animal estranho, um misto de dragão e equino com escamas nas patas e o corpo bastante magro. Seus olhos brilhavam como duas bolas de fogo púrpuras, tinha chifre escuros grandes e curvos para trás e dentes pontudos. Sua cauda era longa com escamas pontudas e uma chama púrpura na ponta. O animal não tinha crina, mas tinha asas de dragão enormes como as de Zyron.
Me aproximo do animal, cautelosa e admirada ao mesmo tempo com a beleza peculiar dele. Zyron, que afagava seu pescoço comprido, sorri para mim, mostrando as presas, e estende a mão livre em minha direção.
— Não tenha medo, criança. Venha, ela não vai te machucar.
Devagar, dou alguns passos para perto e seguro sua mão. Gentilmente, o híbrido a leva para o focinho do animal, que a fareja à distância. Meu corpo todo enrijece de apreensão e medo, enquanto observo a égua-dragão. Então, para a minha surpresa e alívio, ela toca seu focinho em minha palma e fecha os olhos. Sua respiração era fria e sua pele, dura.
— Qual é o nome dela? — pergunto, suspirando de alívio e afagando seu focinho com delicadeza.
— Tanwen. — responde o híbrido.
— Que nome lindo! — murmuro. A égua-dragão mexe a cauda e relincha baixinho, um relincho misturado com um rosnado suave.
— Ela gostou de você. — informa Zyron, sorrindo para mim. — Ela tem um bom gosto.
Abro um sorriso tímido, observando a criatura, e sinto a mão enorme de Zyron envolver minha cintura. Meu corpo treme de leve e ergo o olhar para ele.
— Posso ajudá-la a montar? — pergunta Zyron, suavemente.
Não há malícia em seu olhar.
Faço que sim com a cabeça e eu me levanta pela cintura com bastante facilidade. Com cuidado, o híbrido me coloca nas costas de Tanwen, antes das articulações de suas asas, e depois monta atrás de mim. Fico um pouco tensa, mas não procuro demonstrar, apesar de eu saber que Zyron pode sentir o que eu sinto. Usando magia, ele conjura rédeas brilhantes como lava de vulcão e bate de leve o calcanhar no dorso do animal, fazendo-o galopar.
Com medo de cair e sem ter onde me segurar, me inclino um pouco para trás e aperto um pouco os joelhos no dorso da égua-dragão. Sinto minhas costas tocarem o tronco de Zyron e meu coração erra uma batida.
— Relaxe. Não irei deixá-la cair. — diz o híbrido, perto de meu ouvido, e rindo em seguida. — Se você for cair, eu te seguro.
Assenti, soltando um pequeno suspiro e relaxando um pouco. Foi quando senti algo grande e frio envolver minha cintura. Olho para baixo e vejo uma longa cauda escamosa e escura, com uma fileira de escamas maiores, mais grossas e pontudas ao longo dela. Ele tem uma cauda!
— Por favor, não grite. — pede ele, vendo o meu pânico crescer. — É só para me certificar de que você não escorregue.
— Por que você não me disse que tinha uma cauda?! — questiono, tentando não demonstrar o meu pânico. Meu coração batia tão forte que ele parecia que iria sair de meu peito. Sinto a ponta de sua cauda acariciar minhas costas, me trazendo um leve arrepio pelo meu corpo.
— Não quis assustá-la. Aliás, não costumo mostrar minha cauda para os outros. — Zyron responde calmamente.Ergo a cabeça e olho para seu rosto, um pouco surpresa. Sua expressão era calma e sincera, mas um pouco preocupada também.
Adentramos na floresta e Zyron diminui o galope de Tanwen para o trote afim de que eu pudesse aproveitar melhor o passeio. Observo as árvores enormes e suas copas altas e cheias de folhas verdes, obstruindo um pouco a luz do Sol. Estava tudo calmo e tranquilo. Sem perceber, eu estava sorrindo.
Chegamos perto de um riacho tranquilo e não muito fundo, onde paramos para Tanwen beber água. Com a ajuda de Zyron, desço do lombo da égua-dragão e me sento na margem do riacho, molhando os pés descalços na água fresca e cristalina.
— Senhor... — começo, hesitante.
— Zyron.
Me encolho, corando um pouco.
— Desculpa...
— Sem problema. — ele para de acariciar a Tanwen e vem até mim, se sentando ao meu lado, apoiando os braços sobre os joelhos. — O que você ia dizer?
Mordo de leve o lábio, pensativa.
— Quem era a humana que você me mencionou? — indago, olhando com atenção para seu rosto.
Vejo a sua expressão mudar, ficando mais sombria e os olhos perderem o brilho. Eu conhecia essa expressão. Era de dor, de perda de algo.
— Foi a pessoa mais importante da minha vida. — responde o híbrido, num tom baixo e rouco.
Instintivamente, encosto minha cabeça em seu braço, sem nem pensar duas vezes. Sinto sua asa envolver meu ombro e me puxar para perto.
— Você é tão doce, Ayanna. — murmura ele carinhosamente. — Não consigo compreender como alguém é capaz de machucar um ser tão doce e gentil como você.
Minhas bochechas ficam quentes e meu coração dá um pulo involuntário em meu peito.
— As pessoas são ruins... — explico num tom amargurado.
— Nem todas, pequena. — diz a criatura, me olhando com ternura nos olhos. — Nem todos.
Olho para meus pés dentro da água. Talvez... Então Zyron me dá um beijo suave na cabeça e se deita na grama em seguida, fechando os olhos. Não vejo sinal algum de sua cauda. Fico por um tempo observando o seu rosto sereno e calmo, suas feições escuras e maçãs do rosto altas e afiadas, seus cílios brancos tocando levemente sua bochecha e sua cicatriz clara em seu rosto. Ele parecia um ser divino, belo, calmo e até bondoso. Parecia ser confiável e não transmitia perigo, porém eu sabia qual era a verdadeira natureza de um Senhor Elemental e, por mais que eu me sentisse um pouco segura, Zyron era um Senhor. Eu não podia me esquecer disso.
Seus olhos se abrem e seu olhar encontra o meus. O brilho em seus olhos negros de íris roxas me fazem desviar o olhar para o riacho, as faces quentes.
— Ayanna, por que você entrou em pânico quando viu minha cauda? — pergunta Zyron.
Mordisco o lábio de leve, me recordando dos tentáculos e das outras caudas que já me prenderam.
— Eu não tenho boas lembranças... — respondo, insegura. — Sua cauda me fez ter gatilhos.
— Hmm... — fez ele. — Entendo.
Sinto seu olhar ainda em mim, mas não ouso fazer contato visual. Deslizo os dedos nos meu cabelos, tentando me acalmar e não pensar mais naquilo. Algo roça em minha coxa e, quando olho para o lado para ver o que era, vejo a cauda do híbrido ao meu redor. Estremeço e faço menção de me afastar, porém Zyron me fala num tom gentil e tranquilizador.
— Não quero que tenha medo de mim por causa de outros, minha pequena. Nem pelo que sou. Quero que se sinta à vontade ao meu lado.
Volto o olhar para ele, que sorri de modo suave para mim. Pelo canto do olho, vejo a ponta de sua cauda se aproximar lentamente e me encolho um pouco.
— O-o que vai fazer? — indago, minha voz saindo mais trêmula do que eu queria.
O híbrido apenas sorri.
— Confie em mim.
Mordo o lábio, apreensiva, mas não me movo. Sua cauda se aproxima cada vez mais, fazendo meu coração disparar e minhas mãos tremerem em meu colo. Porém, para a minha surpresa, ele apenas brinca com meu cabelo, enrolando uma mecha em sua cauda. Zyron ri ao ver a surpresa e o alívio em meu rosto, enquanto eu coro e desvio o olhar para o riacho.
— Você sempre foi tímida assim? — pergunta Zyron, deslizando a ponta da cauda pela minha bochecha e depois a afastando.
Aceno afirmativamente.
— Sim. Desde quando eu me entendo por gente.
O homem me olha com interesse e cruza os braços sob a cabeça, a cauda pousada no chão ao meu redor.
— É a coisa mais bonita que eu acho em sua personalidade. A sua timidez. — diz ele, sua voz carinhosa e sedutora ao mesmo tempo. — Já em relação à sua aparência, não consigo escolher. Eu gosto de tudo em você.
Sinto minhas bochechas corarem ainda mais e um sorriso tímido cruza os meus lábios. Esse era um tipo de flerte que eu não estava acostumada, mas que eu gostava e que não me deixava desconfortável, só um pouco sem jeito.
— Eu gosto dos seus olhos. — confesso em um tom baixo e tímido, voltando o olhar para ele.. — Me lembram as orquídeas do jardim da minha mãe.
— Sua mãe tem um bom gosto para flores. — comenta Zyron.
— É. Ela tinha mesmo. — concordo, me deitando ao seu lado e me apoiando sobre meu cotovelo.
— Ela ainda está viva? —indaga o híbrido com curiosidade genuína e uma sobrancelha erguida. O sorriso treme em meus lábios.
— Eu a perdi com 15 anos.
Zyron fica surpreso com a minha resposta, mas noto um lampejo de preocupação em seus olhos ao ouvir o tom de pesar em minha voz.
— Nossa... Meus pêsames, pequena.
Desvio o olhar e dou de ombros.
— Foi há muito tempo...
— Eu sei. Mas também sei que cicatrizes antigas ainda podem doer um pouco.
Olho para ele e percebo novamente a sombra de dor em seus olhos cor de ametista, mas logo some e o híbrido torna a sorrir para mim de maneira confortadora e gentil.
— Irei providenciar um vestido especial para você usar no dia da festa. Só preciso saber qual cor você quer.
Ergo as sobrancelhas, surpresa. Outro vestido para mim? Especial?
—N-não será necessário. — falo com um sorriso sem jeito. — Eu posso usar um dos que você me deu.
— Tem certeza? — questiona ele, franzindo de leve a testa.
Assenti com o rosto levemente vermelho e quente. Zyron me olha com carinho e desejo, seus olhos brilhando intensamente. Desvio o olhar rapidamente, envergonhada.
— Desculpe a sinceridade, — começa ele, sua voz lenta e arrastada. — Mas ás vezes me dá muita vontade de beijá-la. A maior parte do tempo.
Estremeço e sinto meu sangue gelar. E agora? O pânico faz eu sentir um aperto em meu peito e cerro os punhos em meu colo para conter o tremor em minhas mãos, enquanto meus batimentos cardíacos estão disparados.
— E... Por que você não fez isso... Durante todo esse tempo? — pergunto, hesitante e apreensiva.
— Porque sei que você não iria gostar. — a resposta dele me pega de surpresa e volto o olhar para ele. Não vejo malícia em seu rosto, apesar do desejo em seus olhos, o que acalma um pouco o meu coração. Havia apenas sinceridade e ternura. Quando Zyron fala, sua voz é calmante e um pouco rouca, um ronronar suave e acolhedor. — Porque você não é mais uma serva que tem de servir ao seu Senhor contra sua vontade e, acima de tudo, porque quero beijá-la somente quando você também quiser. Quando você estiver pronta e me der sua permissão.
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Cicatrizes
FantasíaPor milênios, o mundo era governado pelos Senhores Elementais, divindades mágicas e poderosas de cada elemento, natural e mágico, do planeta e dos seres vivos. Cada Senhor ou Senhora tinha sua Corte formada por seres mágicos inferiores á eles (os co...
