Luca
Olho pra o chão de concreto sujo, respingado de vermelho, e tudo dentro de mim em fúria crua. Cada gemido do desgraçado me dá mais sede. Sede de justiça. Sede de vingança.
— Levanta — rosno, arrastando Louis e o puxando como se fosse um boneco quebrado. Ele geme, escorregando nas próprias pernas, fraco. Lixo patético.
— Não tenho o dia inteiro. E você vai abrir o bico — Pablo se aproxima, jogando uma garrafa de água aberta no rosto dele. — Quem mandou você tocar na minha garota?
O silêncio dele é a resposta errada. E é tudo o que eu precisava.
Olho nos olhos dele, aquele olhar vago de quem já entendeu que não vai sair dali andando, eu conheço esse olhar é quando minha presa entende que não tem jeito, ele sabe que fodeu pra ele. Seguro o rosto dele com uma calma que me surpreende — e então enfio o punho com força no estômago. Ele engasga. De novo. E de novo. Eu sinto prazer na dor dele.
— Vai falar ou quer que eu desenhe no seu corpo? Não te contei, mas eu sou artista. — minha voz sai baixa, controlada, e isso é pior. O silêncio da raiva é mais perigoso que o grito.
Mostro o pequeno canivete, surge um sorriso de canto de boca, Vito e Pablo também deixam escapar um pequeno sorriso, nossa piadinha particular, pivete era o nome que dei ao meu canivete e isso nos fazia rir.
Escuto um soluço atrás. Meu peito aperta. Mariah. Mas não olho. Não posso. Se eu olhar pra ela agora, desmorono. Preciso terminar isso.
— Você não tem ideia de quem eu sou... — Louis balbucia.
— Não. Você que não tem ideia de com quem se meteu — respondo e pego o pivete. Só uso ele quando quero mandar uma mensagem clara. A lâmina brilha fraca sob a luz morta do galpão. — E a mensagem começa agora.
Começo a escrever na pele dele — nada profundo, nada letal. Mas o suficiente pra deixar claro: ele nunca mais ameaça ninguém que eu amo. A dor vai ensinar. O medo vai lembrar.
Quando termino, o desgraçado já tá tremendo. Suficiente.
— Pablo, é contigo agora.
Pablo assume e eu me afasto, mãos sujas, cabeça fervendo. Caminho até ela. Vejo que Abby está de olhos fechados, como pedi, e Mariah também, mas o corpo dela tá rígido, como se a alma gritasse. Me ajoelho à frente dela, seguro suas mãos.
Ela tira um dos fones. Me encara. Os olhos marejados, mas firmes. Ela viu.
— Você viu? — Eu sei a resposta o olhar dela fixo em mim, ela acena a cabeça lentamente. Porra, e agora, meu coração parecia que ia explodir!
Preciso saber, com relutância pergunto e nunca tive tanto medo de uma resposta.
— E agora? — insisto, o coração batendo como uma condenação. — Você ainda me vê como o cara que te ama loucamente? Ou só o monstro que acabou de torturar um homem?
Ela leva a mão ao meu rosto, mesmo com a ponta dos dedos tremendo.
— Eu vejo os dois — responde, voz embargada. — E eu tô tentando entender como eles coexistem. Porque mesmo agora, mesmo depois disso, eu só quero te abraçar e ir pra casa.
Eu fecho os olhos. Porque isso? Isso é amor. Amor real. Amor que vê o pior da gente — e ainda fica.
— Eu te levo, baby. Mas não antes de terminar o que comecei. — beijo a palma da mão dela. — E eu juro, pela minha vida, que depois disso... a gente recomeça. Em paz.
Ela assente. Me puxa num abraço apertado, e ali, naquele momento, sou só o garoto dela. Por um segundo, só o Luca que pertence inteiramente a essa garota.
Mariah
As mãos dele ainda estavam manchadas de sangue quando me abraçou.
E mesmo assim, foi o lugar mais seguro que já estive.
Eu mantive os olhos fechados como ele pediu. Mas não por tempo suficiente. Vi o bastante pra entender quem Luca realmente é, ou pelo menos, uma parte que ele sempre tentou esconder de mim.
O monstro.
Aquele que ele guarda só para os momentos em que o mundo ameaça quem ele ama. Aquele que não treme diante da dor, que não hesita em punir. Que é frio, sádico... impiedoso.
O mais assustador de tudo isso, é que mesmo temendo, sentindo enjoo da cena, vendo até onde ele pode ir, eu ainda o amo. E talvez, pela primeira vez, eu o ame por completo — com as sombras incluídas. Eu amo o monstro!
Ele se afasta, mas não por muito. Volta pra mim como se tivesse medo da minha reação, medo de que eu tivesse enxergado algo que me fizesse recuar. Mas eu não recuei.
Aproximei meu rosto do dele. Olhei nos olhos que agora estavam mais cinzentos que nunca, e vi ali o peso de carregar o inferno dentro do peito. Mas vi também o homem que me acorda com beijos suaves. Que segura minha mão quando tenho medo. Que me chama de Bella com um sorriso tão lindo, que quebra qualquer armadura.
— Você viu? — ele pergunta.
Vejo a tensão em cada linha do seu rosto. A dúvida. A culpa.
Assinto.
— E agora? — ele continua, a voz mais baixa, como se não soubesse se queria ou não ouvir minha resposta. — Você ainda me vê como o cara que te ama loucamente? Ou só o monstro que acabou de torturar um homem?
Meu coração se aperta, mas não por medo. Por ele.
Por saber que essa pergunta carrega um trauma de anos, por saber que sou a única que poderá responder, por saber que mesmo diante do monstro eu escolho ficar.
— Eu vejo os dois — sussurro. — E eu tô tentando entender como eles coexistem. Porque mesmo agora, mesmo depois disso, eu só quero te abraçar e ir pra casa.
Os olhos dele se fecham, como se eu tivesse puxado o ar de dentro do peito dele. E eu entendo. Porque, por dentro, também tô despedaçada.
Entendi que mar o Luca nunca vai ser fácil. Meu amor por ele é sobre coragem. Sobre ter coragem de entrar em uma tormenta sem proteção nenhuma, é sobre entrar em um mar revolto e acreditar que as ondas não me afogarão.
Ele beija minha mão e promete paz. Eu não respondo. Porque no fundo, sei que ele nasceu pro caos. Mas, talvez, no meio dessa guerra dele... eu seja a única paz possível.
E isso já basta.
Olho pra Abby, que ainda está com os fones. Elijah tá ao lado, em silêncio. Pablo e Vito terminam o que começaram, mas eu já não consigo focar neles. Meus olhos estão grudados no homem ajoelhado à minha frente.
Meu Luca.
Ele me estende a mão pra levantarmos.
E eu vou.
Porque mesmo diante do inferno... eu escolho ele. Todos os dias.
— Levem ele, coloca no lugar mais macabro e deixa ele refletir até querer falar.
Ali percebo que Louis não está morto, mas apenas por um fio de vida.
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Luca
Romance"Você nunca vai ser capaz de encontrar a si mesmo se você está perdido em outra pessoa." Colleen Hoover Mariah tinha 2 opções. Ou fugia da cidade onde cresceu, deixando tudo que conhecia para trás e seguia para um novo recomeço, ou ficaria e continu...
