Quem é vivo... Deveria estar morto

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Mariah

Voltar à escola depois de tudo o que aconteceu parecia surreal.

Os corredores barulhentos, os professores chamando a atenção dos alunos, os cadernos se empilhando em cima das carteiras... tudo isso parecia pequeno demais perto do que havíamos vivido no galpão. Mas, de algum modo, era reconfortante. Como se fingir normalidade fosse uma forma de cura.

Luca pairava ao meu redor como um satélite. Aquele olhar protetor que agora carregava algo novo: culpa. Mesmo eu tendo ficado ele não conseguia se perdoar por ter mostrado aquele lado de si.

Aos poucos, o silêncio entre a gente foi dando lugar a conversas baixas nos intervalos. Toques de mãos rápidos, olhares demorados. E mesmo sem falar muito sobre o que aconteceu, sabíamos que estávamos reconstruindo algo. Não novo. Mas mais forte.

Pablo, por outro lado, parecia nem lembrar do que tinha acontecido. O foco dele agora era outro...  Abby.

Ela tinha florescido, os cabelos agora estavam soltos, e o batom claro nos lábios era uma pequena rebelião. Onde ela ia, ele aparecia. Ela abertamente flertava com outros garotos e ele tinha pequenos momentos de surto, como no dia que tirou ela de uma conversa e jogou sobre os ombros enquanto ela gritava histericamente e ele caminhava passos raivosos. Depois disso, os garotos começaram a sumir misteriosamente de perto dela e ele sempre ao redor.

— Cê tá me seguindo, Pablo? — ela perguntava, provocando.

— Tô te escoltando. Segurança 24 horas. Você é preciosa demais pra ficar sozinha. — E então ele piscava, e ela revirava os olhos. Mas sorria. Sempre sorria.

Começaram com bilhetes trocados no caderno. Depois com mensagens na madrugada. E uma semana depois, ele apareceu na escola com um milk-shake de morango só porque ela tinha dito, sem querer, que era o favorito dela.

Eu observava tudo isso do lado de Luca, e apesar do caos que sempre parecia rondar nossas vidas, esses pequenos momentos de normalidade me davam esperança.

Mas esperança, eu aprenderia, é sempre o primeiro alvo da guerra.

Luca

Desconfiar é parte de quem eu sou. Nunca desligo completamente. Sempre tem alguém observando, sempre tem alguém com intenções ocultas. E quando o Erick, o bobão, começou a aparecer mais nos corredores, eu soube que a paz seria temporária. Eu devia ter estourado não só o nariz, mas o crânio desse otário.

Ele era da nossa escola, sim. Mas nunca foi do nosso ciclo. E, de repente, tava em todos os cantos. Falava com professores, se aproximava dos colegas, cumprimentava Abby, o que deixava o Pablo cheio de fúria. 

E claro... se aproximou da Mariah.

Com calma. Como quem não quer nada. Primeiro, um comentário no trabalho em grupo. Depois, um "posso sentar aqui?". Depois, elogios sutis, perguntas demais. Sempre testando os limites. Se ele soubesse que eu não tenho nenhum. Eu me segurando ao máximo e meu máximo é mínimo, mas depois do galpão, tava tentando não explodir de novo em um curto espaço de tempo, preciso que a Mariah assimile de fato o que sou.

Ele passou por nós e sorriu pra ela. E não gostei.

— Quem ta vivo... deveria tá morto. — Falei enquanto passava por ele.

Percebi o olhar sarcástico e por um minuto, vi no sorriso dele algo que eu conheço bem, o sorriso de um monstro. Preciso ficar mais cauteloso, alguma coisa ta errada pra caralho o que estamos deixando escapar?

— Você reparou que o Erick tá em cima demais, sempre arrumando um pretexto pra aparecer? — comentei com Pablo, que franzia o cenho.

— Também achei estranho. Mas até agora, nada concreto. Só... presença demais. 

LucaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora