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Pov Bill

Ela dorme e eu fico ali, imóvel, sentindo o calor do corpo dela encostado no meu. Chloe respira devagar, tranquila... e mesmo assim, algo em mim permanece em alerta. Como se eu estivesse vivendo uma coisa que não mereço.

Porque eu não mereço.

Ontem à noite foi... foda. E não só no sentido carnal. Foi eu deixando escapar tudo aquilo que jurei nunca deixar ninguém ver.

E agora estou aqui. Com medo.

Ela se mexe, tentando sair da cama, e eu falo antes que ela consiga:

— Fica.

Ela para, mas não me olha.

— Achei que já tivesse voltado pro seu modo Bill de sempre.

Meu modo padrão é afastar, dominar, mandar. Tudo pra não me perder. Pra manter distância. Mas com ela... as vezes não funciona.

— Eu ainda sou o Bill de sempre. Só... tô tentando não estragar isso em cinco minutos.

Ela não responde. Só respira fundo. E eu continuo:

— Isso. Você. A noite passada. Merda.

— A gente transou, Bill. Não foi um contrato. — a voz dela é defensiva, fria. Mas eu ouço o medo por trás.

— Não. Mas foi mais do que só sexo. E você sabe.

Ela não responde, mas eu vejo no rosto dela. Ela sabe. E isso me fode mais ainda.

— A gente continua vivendo no mesmo jogo. Você com o poder. Eu com a coleira. — ela diz.

— Não é mais assim. Eu ainda sou um filho da puta, Chloe. Mas por algum motivo...

Antes de eu terminar ela me interrompe e pergunta sobre a festa. Então digo a verdade.

— Você não vai mais dançar no palco central.

Ela se espanta. Me questiona. E eu digo.

— Porque eu não quero mais te mostrar.

Talvez eu esteja sendo ridículo. Talvez eu esteja confessando demais. Mas não me importo.

Ela diz que quer dançar. Eu digo que deixo. Mas também digo que mato quem olhar demais. E é aí que percebo: eu tô perdendo o controle por completo.

Ela me olha com aquele meio sorriso, meio desgosto, e diz:

— Você tem que decidir se sou sua ou se sou livre.

— Eu ainda estou tentando entender se consigo te ter sem te prender, Chloe... Tudo que eu aprendi na vida foi sobre posse. Sobre controle. Sobre colocar as pessoas no lugar onde eu possa vê-las, dominar, prever.

Ela se mantém quieta, apenas levanta e começa a se vestir, e o quarto parece mais frio sem ela.

Ela sai sem olhar pra trás.

E eu fico ali, sozinho.
Com o cheiro dela no lençol.
O gosto dela ainda na minha boca.

[Quebra no tempo]

Pov Chloe

O Vitrola por si só nunca é um lugar silêncio, mas naquela noite... ele gritava.

Música pulsando nas paredes, luzes vermelhas cortando o salão, as dançarinas circulavam com corpos cobertos por véus e brilhos. O cheiro de perfume caro, cigarro doce e tensão sexual impregnava o ar.

Essa não era uma noite comum.

E eu — eu estava ali no meio. Me movendo por entre eles com minha lingerie colada ao corpo, um vestido de renda longo e transparente, maquiagem marcada, cabelo solto. Mas o que me marcava de verdade era o que aconteceu ontem. E ele.

Bill.

Sabia que ele estava ali. Observando.

Não de uma mesa.

Não de um canto escuro.

Mas de cima.

Daquela cabine que só ele tinha acesso.

Onde tudo era monitorado. Onde tudo era visto.

E naquela noite... ele me veria dançar.

Mesmo que dissesse que não queria mais me mostrar.

Quando entrei no salão, senti. Os olhares. Os desejos. Mas nada me encostava. Porque todo mundo ali sabia: eu era "dele". Ainda que ninguém dissesse em voz alta.

Só que havia um homem que parecia não ligar pra isso.

Alguém novo.

Alto. Terno preto. Sorriso afiado. Olhar que desafiava. Ele me viu cruzando a pista e sorriu como se me conhecesse. Como se não temesse as regras não-ditas daquele lugar.

- Eu estava na parte de trás do palco até que uma música começou. A batida certa. A minha. Aquela que eu sempre uso. A que ninguém escolheu — só eu.

E naquele instante, o salão inteiro se virou pra mim.

Eu subi no palco lateral — não o central, como ele havia proibido — mas ainda visível.

Retirei o vestido levemente tirando uma alça seguida da outra, deixando cair no chão e ficando apenas de lingerie, e então a dança começou.

Lenta.

Intensa.

Como se cada movimento dissesse "você não manda em mim".

A pele brilhou sob a luz. As mãos se arrastaram pelos quadris. Os olhos se fecharam, depois se abriram... e olharam direto no alto onde ficava algumas pessoas

E ele estava lá.

Ele me viu.

Não como propriedade.

Mas como um risco.

Porque o controle que ele pensava ter estava ruindo.



Na cabine, Bill estava de pé. Imóvel. Mandíbula travada. Copo na mão. Mas os dedos... tremiam.

Ao lado dele, o segurança falou:

— Senhor... Gregory Cavaliere está aqui e quer falar com você a sós.

— Bill simplesmente ignorou e continuou assistindo ao show de Chloe.

— Ela não devia ter dançado. Mas ela dançou.

Então ele completou, quase em um sussurro:

— E ela nunca esteve tão linda.

De volta ao palco, quando a música acabou, eu desci devagar. O salão aplaudiu, alguns se aproximaram, mas eu ignorei todos. Fui direto para os bastidores.

No camarim, quando pensei que tudo estava prestes a se acalmar... a porta se abriu com força.

Era ele.

Bill.

Olhar escuro. Passos firmes. Nenhum sorriso.

Ele não disse nada. Só fechou a porta atrás de si, trancou.

My Worst NightmareOnde histórias criam vida. Descubra agora