A transição de um ambiente para outro foi além de algo físico, foi simbólico. O corredor principal se abria à frente, o assoalho de madeira fora encerado tantas vezes ao longo dos anos que refletia as lanternas embutidas nas paredes como um espelho opaco, a luz baixa deixava com que as sombras se projetassem de maneira longa como braços silenciosos que tocavam o chão, não havia exagero na decoração, sequer fotos familiares ao longo do espaço. Sasuke percorria o ambiente como se não o conhecesse, mas a realidade é que conhecia, sabia o número exato de passos até a escada, sabia onde a madeira do degrau cedia levemente sob o peso, sabia da pequena fresta quase invisível no rodapé que havia sido resultado de uma expansão antiga da madeira durante um verão particularmente úmido, mas mesmo que seu inconsciente soubesse, para Sasuke as memórias não encaixavam perfeitamente, era como vestir uma roupa feita sob medida e ainda assim sentir que algo não se ajustava.
Ao se aproximarem da escada, houve uma organização ritualística, Fugaku caminhava à frente com ritmo invariável, não era rápido ou lento, era exato. Não havia hesitação na sua postura, cada passo parecia conhecer o destino antes mesmo que lhe fosse dado. Itachi vinha atrás, à esquerda, com seus olhos atentos e rosto impassível, Sasuke fechava a formação, subindo os degraus pelo lado direito. A iluminação tornava-se ainda mais suave, com lanternas verticais acompanhando a subida, o corrimão era de madeira maciça, liso e polido, Sasuke divagou sobre as inúmeras vezes que havia subido ali com os punhos cerrados após um treino, ou quantas vezes descerá com a esperança infantil destruída por não ouvir uma palavra de reconhecimento.
Assim que depositaram os pés sobre o andar superior, o piso rangeu com o peso coletivo, não um rangido alto, apenas o suficiente para denunciar presença, o ambiente carregava sons e vivências distantes, seja as risadas e conversas baixas que Sasuke e Itachi trocavam nas madrugadas, até mesmo o cheiro de vento noturno e ferro que sempre chegava antes da voz de seu pai nos retornos tardios. O andar superior era mais reservado, destoando da atmosfera que o andar de baixo, ali ficavam os quartos da família — as antigas alas privadas. As janelas eram menores, protegidas por painéis deslizantes de madeira e papel que filtravam a luz externa em um tom levemente dourado, o corredor superior era mais estreito, e o silêncio ali parecia mais íntimo, mais denso. Quando passaram pela primeira porta à direita, Sasuke sentiu o estômago apertar antes mesmo de reconhecer o motivo, seus passos desaceleraram por um único segundo, não o suficiente para romper a formação mas o suficiente para que o passado o alcançasse.
Seu antigo quarto.
Ele observou minuciosamente os detalhes da porta, a madeira permanecia impecável com o mesmo zelo que o restante da casa, o puxador metálico refletia a luz fraca das lanternas, externamente não havia nada que indicasse quem habitara aquele espaço, sentiu fagulhas de curiosidade se instalarem em seu peito, sua mente questionava como seria o ambiente interno. Se abrisse aquela porta agora, encontraria ordem? A cama estaria alinhada, a mesa devidamente organizada e seus acessórios ninjas limpos e afiados?
Novamente recordou-se de si, do menino que se sentava no tatame encarando as próprias mãos após falhar em um jutsu simples, das vezes que dormiu exausto após treinar até os músculos falharem, dos movimentos repetitivos que fizera sob a lua até que a frustração se tornasse dor física, a solidão silenciosa que coexistia com uma casa sempre ocupada. Talvez não fosse a nostalgia que o atingia ao fundo, era uma espécie de luto estranho.
Itachi percebeu, seu olhar deslizou sobre seu ombro, captando a alteração mínima no ritmo do irmão, ele não verbalizou nada pois não era preciso, havia uma compreensão muda, um reconhecimento de memórias compartilhadas que resultará em cicatrizes diferentes. Por outro lado, Fugaku não reduziu o passo e sequer olhou para trás, seguiu em frente, demonstrando não ter notado mas sua postura jamais era descuidada, se percebeu, guardou para si.
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Fanfiction//Conteúdo +18// "O sentimento de se sentir parte de algum lugar, mesmo não estando exatamente em casa." Aquelas palavras proferidas por Sakura nunca fizeram tanto sentido quanto naquele momento. Após um ano afastado das dependências de Konoha, Sasu...
