À Mesa

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Houve sensações diversas, talvez Sakura mal se recordasse da última vez que havia se sentido assim, com esse misto desconhecido e intenso, inicialmente o sentimento não foi de surpresa, foi estranhamento. Desde o instante em que avistara a casa, algo em seu interior se deslocou, como se uma memória que não era sua tentasse insistentemente se encaixar, o telhado, a madeira escurecida pelo tempo, o desenho do jardim, nada daquilo lhe pertencia e ainda assim seu corpo reagia como se reconhecesse cada detalhe daquele novo lugar, não era familiaridade, era eco, ela não se lembrava daquele lugar mas ele se recordava dela.

Não de si, de outra Sakura...

O peso da pequena palma sobre a sua a puxava recorrentemente para a realidade, a criança detinha em seu semblante uma dose alta de confiança, confiante demais para alguém que acabara de lhe encontrar, como quem sempre soube que eles viriam, Sakura apertou os dedos contra a própia palma, se recordou brevemente do momento em que se viram e tentou afastar aquela sensação — a textura do tecido da roupa infantil contra seus braços, o abraço súbito ao redor de sua cintura e como ele havia escondido o rosto contra ela, deixando claro que para ele, aquele era o refúgio mais natural do mundo. Aquele gesto a deixou em choque, mas foram suas feições que a deixaram atordoada, havia tanto de si e de Sasuke naquele pedaço de pessoa, aquilo a desestabilizou mais do que as perdas, guerras e missões que chegou a enfrentar, aquilo era íntimo demais, não era uma ameaça externa mas tentava se infiltrar dentro dela, ocupando espaços que nunca haviam sido previamente construídos, a criança não pedia permissão para existir, ela simplesmente existia.

Diante da varanda principal, Sasuke soltou a mão do filho, aquilo não era sobre hesitação comum, Sakura lhe conhecia o suficiente para perceber que ele não parou por indecisão, ele estava se contendo, como alguém que percebe que um único passo pode destruir o pouco de controle que ainda resta, não era a primeira vez que ela buscava entender que não era só ela quem estava à beira de um abismo, aquilo não era apenas sobre o passado dele, tampouco sobre aquela realidade deverás estranha, era sobre algo maior, sobre o que tinham sido e sobre o que nunca chegaram a viver, aquilo que de alguma forma impossível, agora os aguardava do outro lado.

- papai. - o pequeno o chamou. - você não quer entrar?

Sakura ao ouvir aquele chamado sentiu o ar ficar trêmulo, ela manejava o olhar entre um Sasuke estático e uma criança em busca de afeto familiar, com uma clareza silenciosa ela percebeu que a situação não esperava que ela estivesse pronta, exigia que ela agisse.

- seu pai está cansado. - disse de forma quase automática, mas suavizou a voz no final.

Sakura se ajoelhou para ficar à altura do menino, como se aquele pequeno ajuste de postura pudesse tornar tudo mais natural do que realmente era.

- nós andamos bastante, precisamos tomar um ar.

As palavras eram simples, mas ao dizê-las, Sakura não falava apenas com a criança, era uma tentativa de dar a Sasuke algo que ele ainda não conseguia construir sozinho, uma explicação plausível, um intervalo para que ele não fosse obrigado a enfrentar tudo de uma só vez, tudo o que estava atrás daquela porta. O pequeno Uchiha pareceu aceitar a resposta sem questionar, como as crianças fazem quando o mundo ainda é um lugar confiável demais para ser interrogado, ele assentiu, embora continuasse a encarar o pai com expectativa, aguardando o momento exato em que ele voltaria a ser acessível.

- por que não entra e nos espera lá? - incentivou ela.

Ele concordou com a cabeça e deu as costas a ambos, partindo em direção ao engawa, ao aterrissar seus pés sobre a madeira, girou seu corpo em busca de fitar uma última vez a figura dos pais, pendeu a cabeça para o lado de forma curiosa mas logo se endireitou, se voltou a porta de correr coberta pelo shogi e a puxou brevemente, dando local a uma pequena fresta a qual ele usou para adentrar a casa. Sakura notou Sasuke desviar os olhos quando a abertura surgiu, ele se negava a enxergar qualquer resquício do interior daquele local, o leve som da porta deslizando pareceu alto demais para um gesto tão pequeno, ele manteve o olhar desviado, fixo em algum ponto indistinto do jardim que já haviam atravessado, Sakura percebeu que a respiração dele mudou, não foi um suspiro, nem um vacilo visível mas algo mais contido, parecia que seu corpo reagia antes que sua mente tivesse permissão para fazê-lo, ela compreendeu que não se tratava apenas de entrar ou não, mas de aceitar que o espaço seguia imaculado, sem as marcas que ele carregava na memória.

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