Part 3

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   Conforme ia andando pela casa seguindo minha mais nova família a minha boca ia abrindo e meus olhos arregalando. Eles eram ricos, mas ricos mesmo e tipo bem mais ricos do que eu poderia imaginar que eles fossem se alguém me falasse que eles eram ricos. Notei que meus pensamentos estavam se repetindo e girando em torno da palavra "ricos" mas não tinha outra forma de descrever o que eles eram. Ricos, elegantes, gentis e perfeitos demais, me preocupei que a qualquer momento fosse acordar com as mãos e os pés amarrados jogada em algum canto escuro enquanto esperava pra ser comprada em algum mercado negro. Querendo evitar essa dúvida cruel fechei meus olhos e belisquei meu próprio braço o que não foi indolor graças a Deus. Duas coisas me passaram pela cabeça, "não estou sonhando e não tenho lepra". Suspirei em alívio enquanto esfregava levemente meu braço  e tentei prestar atenção ao que acontecia a minha volta. Cho Hee, como fiquei sabendo se chamava a mina boadrasta, sorria pra mim e me perguntava se o chá era do meu gosto. Sem coragem de dizer que eu preferia uma coca cola gelada ou um suquinho de laranja, que chá não era muito a minha praia, eu assenti e me esforcei pra tomar mais um gole do chá um tanto quanto amargo demais pro meu paladar. Danbi, minha irmã parecia a mais excitada com a minha presença, queria mostrar seu quarto, queria me mostrar as músicas que gostava, vídeos e sei lá mais o que. Porém as longas horas de viagem mais o desconforto de ser expulsa de casa pela própria mãe junto a preocupação de mudar de continente e não saber como chegar a casa do meu pai cobraram o seu preço e senti meu olho ir se fechando lentamente a medida que as vozes pareciam se distanciar.


  Acordei com um suave toque na lateral do meu rosto e pisquei algumas vezes tentando entender onde estava e quem acariciava o meu rosto com tanto carinho. Sorri preguiçosa ao ver meu pai sentada ao lado da minha sorrindo pra mim

  - Mon petit ange - Ele repetia o apelido carinhoso que havia me dado quando eu ainda era uma criancinha e chupava chupeta o dia inteiro. Sorri voltando a fechar os olhos porque mais uma vez o sono me vencia e eu sem defesas era carregada para os braços fortes de Morfeu, Deus do sono. Não vi a hora que meu pai saiu do meu quarto nem quando apagou a luz e fechou a porta, muito menos notei na decoração do quarto pois tudo o que precisava era dormir bastante. 


  Acordei com um peso estranho ao meu lado na cama, abri os olhos preguiçosamente quando encontrei dois olhos apertadinhos me encarando. Levantei de supetão assustada, esquecida por alguns momentos de tudo o que havia acontecido. Me recordei logo em seguida e sorri para Danbi que me encarava inquisitiva.

 - Olá Danbi, dormiu bem? - A menina apenas assentiu mais abriu um sorriso largo quando me respondeu.

 - Você dormiu né Marina? Você dormiu um dia inteiro. Mamãe disse que se não acordasse iriamos chamar um médico pra você. Passei as mãos no cabelo ciente que minha imagem não deveria ser das melhores mas me espreguicei para terminar de acordar. Me levantei e tomei o maior susto da minha vida quando olhei ao redor. Percebi que tinha mais rosa naquele cômodo do que eu poderia sequer imaginar. VI os bichos de pelúcia, vi as bonecas, almofadas e o enorme closet de frente a minha cama. Suspirei pois o cenário era lindo, embora talvez devesse lembrar meu pai que não tenho mais 6 anos de idade, passei os dedos por cada peça daquela decoração dos sonhos e me senti mais querida do que jamais havia me sentido na casa de minha mãe. Lágrimas vieram aos meus olhos ao lembrar de mamãe e como ela havia me jogado para o meu pai sem ao menos pensar nos meus sentimentos ou saber que eu seria recebida dessa maneira. 

Percebi que as lágrimas tinham começado a cair quando uma cabecinha de cabelos negros se aproximou de mim e me abraçou enquanto erguia a mão pra meu rosto e limpava as lágrimas que desciam por meu rosto.

- Marina, não chora. Você é minha irmã. - Sorri pensando em como era diferente a minha irmãzinha das crianças brasileiras de dez anos que eu conhecia e agradeci a Deus por ela ser assim. Afastei as lágrimas e respirei fundo me recusando a pensar na minha mãe ou no fato de ela não me querer mais. Balancei a cabeça e dei um passo pra trás vendo finalmente que minha irmã'a trazia várias caixas na mão. Ela era bastante madura para a idade dela e bem impositiva também além de saber o que quer como pude constatar logo que ela falou comigo novamente


- Vá tomar um banho que eu espero aqui e então podemos ver os clipes e vídeos que trouxe pra você. Mamãe disse que era pra eu te ajudar a se sentir em casa logo e se acostumar com a cultura e o idioma, porque seria mais fácil pra você. - Ela me apontava uma toalha que descansava sofre o sofá junto a um vestido que eu nunca tinha visto mas que com certeza era o meu número. Me aproximei e toquei o vestido quase que com reverência. Ele era diferente de tudo o que eu já havia vestido, era delicado, feminino e muito lindo. Danbi sorriu satisfeita com o brilho que viu em meus olhos. 

- Mamãe preparou para você, junto com algumas outras coisas antes de você chegar. Sua mãe disse o número e o que gostava e a minha tentou então comprar coisas que te agradassem Marina. - Novamente meus olhos estavam marejados e eu tive que controlar as lágrimas me distraindo ao pegar a toalha e o vestido.

- Me espere aqui que já volto Danbi. Ela apenas assentiu e se sentou na cama com todo o material que tinha em mãos. Sai do quarto em busca do banheiro e logo o encontrei na porta adjacente ao meu quarto. Entrei no banheiro e soltei uma exclamação de fascinação. No centro, reinando absoluta estava a maior e mais linda jacuzzi que eu já havia visto e melhor que ela estava preparada para mim como pude perceber ao ler o bilhete carinhosamente preso no espelho.  Cho Hee preparou o banho e esperava que me sentisse mais descansada e bem disposta após ele. Suspirei mais encantada ainda com o carinho dedicado a mim e me dediquei a próxima hora apenas a desfrutar do banho relaxante. A minha nova família estava me acolhendo muito bem, e contrariando todas as minhas expectativas eu começava a sentir uma fagulha de felicidade e esperança se acender dentro de mim.


 " O imprevisto acontece e alguém te encontra. E te reecontra. Te reinventa. Te reencanta. Te recomeça. -  Gabito Nunes

O RecomeçoStories to obsess over. Discover now