PRÓLOGO

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Naquele dia, uma movimentação estranha acontecia em uma das casas daquela tranquila rua.

Um adolescente, vestido com bermudas na altura dos joelhos e uma camiseta gasta, permanecia encostado no muro que rodeava o imóvel com uma expressão que, para um observador desavisado, poderia denotar uma fria indiferença.

Dentro daquele lar, uma senhora de cabelos pretos com as raízes brancas, apertava um pano qualquer em suas mãos calejadas e derramava lágrimas que retratavam uma dor impossível de ser mensurada.

Do outro lado, falando ao telefone, estava um senhor que, no alto dos seus cinquenta anos, se perguntava sobre o que teria feito de errado. Linhas de expressão sombreavam o seu olhar e as inúmeras rugas ao redor de sua boca deixavam o seu rosto ainda mais severo.

Ele finalizou a conversa, desligou o aparelho de comunicação e levantou seu olhar para a mulher que o observava de forma ansiosa.

- Pronto, meu bem. Eles chegarão à qualquer momento.

Essa única fala fez as lágrimas da mulher engrossarem ainda mais e saírem aos borbotões. Sua menina precisava de ajuda urgente, mas ela não conseguia ficar perto da sua criança naquele estado. Doía demais.

No interior de um pequeno quarto naquela mesma casa, uma jovem de aparência abatida e que externava uma tristeza penetrante, balançava-se para frente e para trás, enquanto dizia palavras desconexas. Sua fala era sussurrada e rápida. Impossível de ser compreendida.

Ela se mantinha bastante afastada de uma mulher mais velha que tentava - sem sucesso - acalmá-la. Infelizmente, suas tentativas mostravam-se infrutíferas. Ela já desistira de tentar tranquilizar a jovem sozinha e tinha recomendado aos seus pais que chamassem uma ambulância urgentemente. Observava, com preocupação, algumas manchas vermelhas e roxas que apareciam nos pulsos da jovem. Tentou questioná-la sobre aquilo, mas apenas recebeu indiferença como resposta.

A jovem, desde muito cedo, fora diagnosticada com deficit de atenção e predisposição a desenvolver a doença da depressão. Inclusive, ela já havia sofrido um surto parecido quando era bem mais nova. Naquela primeira vez, a crise fora desencadeada por um assalto violento ocorrido quando ela estava no carro com sua mãe. No entanto, com o tratamento adequado - e o efetivo acompanhamento da profissional - ela voltou a ser uma garota normal, vivendo sua vida tranquilamente.

Desta vez, a profissional tinha quase certeza que as marcas aparentes nos braços da jovem escondia a causa para o que acontecia naquele momento.

A mulher olhava para a garota com uma preocupação e carinho genuínos. Assim que os pais da jovem perceberam que ela estava em crise novamente, ligaram para a experiente profissional que depois de tratar aquela menina alguns anos atrás, acabara se tornando amiga da família. Lembrava perfeitamente do que acontecera antes, das suas consultas, e por isso se preocupava mais agora. A jovem que observava parecia ter sido ferida profundamente.

Os pensamentos da profissional foram quebrados pelo barulho ensurdecedor de sirenes. A acompanharia até o hospital, já que era a psicóloga responsável pela jovem e conforme desejo da família.

A ambulância chegou e, junto com ela, várias pessoas vestidas de branco saíram para atender aquele chamado de urgência. O som do choro da senhora e do seu esposo mal podiam ser ouvidos, pois eram sobrepujados pelo barulho feito devido ao trabalho dos profissionais de saúde.

O jovem menino, quase um rapaz, continuava encostado no muro que circundava a residência, ouvindo tudo o que se passava. Permanecia quase imóvel. Quase. Sua boca tremia de maneira imperceptível e seus olhos abriam e fechavam em movimentos acelerados.

Não demorou muito para uma maca que suportava o peso de uma inerte garota passar em direção ao veículo parado. Os profissionais tinham sido obrigados a sedar a jovem, já que ela ficara ainda mais agitada com a visão dos estranhos.

A psicóloga acompanhou a garota dentro da ambulância, enquanto o casal mais velho seguiu o trajeto ao hospital em seu próprio veículo.

Durante todo esse tempo, o rapaz apenas observava. Não era a primeira vez que via a sua irmã daquele jeito. Ainda lembrava do surto anterior, mesmo que ele fosse bem mais novo na época. Enquanto sua mãe fazia o relato do assalto que havia sofrido para o policial, ele encontrara sua irmã no quarto quase da mesma forma que ele a tinha visto hoje.

Assim como naquele dia, ele tinha certeza que dessa vez a crise também fora despertada por algum evento traumático. E estava ainda mais certo que o acontecimento fora na noite anterior, quando sua irmã saíra com alguns amigos.

O rapaz observou mais um pouco aquela rua solitária e este foi o exato momento em que ele se permitiu derramar duas únicas lágrimas de tristeza.

Logo após, ele percebeu que precisava preencher o seu vazio com alguma coisa. Necessitava descobrir o que acontecera na noite anterior para fazer sua irmã mergulhar num surto daquela magnitude. Este seria o primeiro passo. Depois que ele desvendasse o mistério, verificaria se poderia fazer algo, como se vingar. Este seria o segundo passo.

Acaso Destinado (AMOSTRA)Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora