Capítulo sem título 4

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Julia:


Depois de me despedir de Mark, claro que eu fingi que fui embora. Sim, fingi. Misturei no meio das pessoas e comecei a segui-lo.

Porque? Não tinha mais nada para fazer.

Mark estava com seu rosto que eu odeio. O rosto forçado de alguém que se mostra ser forte, mas, no fundo, não passa de um covarde. Afinal, é isso que ele é.

Alguns minutos depois, avistei Luke indo na direção oposta de Mark.
"Vai dar merda." Pensei.

-O que você quer que eu faça? - Disse Luke de cabeça abaixada.

-Assuma a culpa. - Mark foi embora como se não se importasse.

A verdade é que Mark fala pra Luke como se ele fosse o próprio Mark. É meio confuso, mas, é o único jeito de Mark se confessar. Ele não suporta estar errado e tem medo do que nós vamos falar dele, por isso ele se culpa desse jeito. Indiretamente.
O problema é que Luke também se culpa pelo o que aconteceu seis anos atrás, e, isso acaba ficando num ciclo infinito de ódio. O pior de tudo é que eles não odeiam um ao outro. Eles odeiam eles mesmos.

A verdade é que eu vi tudo o que aconteceu naquele dia. A culpa foi minha por ter me escondido... e parece que eu ainda continuo fazendo a mesma coisa. Ryan devia estar no meu lugar..

*************

-Julia! O jantar está na mesa. - Disse minha mãe lá da cozinha.

-Já vou.. - Eu estava de baixo das cobertas.

Como meus amigos decidiram ficar assistindo filmes e séries hoje, resolvi tirar o dia para dormir e pensar na vida, algo que eu prefiro deixar em "off", já que minha conclusão sempre é a mesma: a culpa é minha.
Por isso tento me ocupar com o máximo de coisas para não ficar pensando nisso.

-Como foi seu dia querida? - Perguntou meu pai.
-O mesmo de sempre. - Respondi com o mínimo de empolgação.

Assim que eu terminei de comer, fui dar uma olhada no meu celular. Pela minha surpresa, havia uma mensagem de Luke, escrita: "você percebeu algo fora do comum nos últimos dias?"

Primeiro: Como ele tinha o meu número do celular? E segundo: Não, eu não sou louca igual ele.
No primeiro minuto que eu o respondi, me surpreendi novamente. Ele estava me ligando.

-O que você quer, Luke? - Falei com desânimo.

-É sobre o Ryan! - Luke parecia estar em pânico. Sua voz estava meio travada e não parecia ser uma brincadeira.

-Qual é Luke... Não acha que está tarde para falar dele?

-Eu já liguei para todo mundo. Venha na minha casa agora. - Desligou na minha cara.

-Sério? Não aceita um não como resposta?
Eu estava brava mas muito curiosa ao mesmo tempo. Não sabia o que ele estava tramando, mas... ele está indo longe demais. Eu não quero ficar relembrando coisas do passado. Que droga.

-Oi. - Mark me cumprimentou na rua.

-Ele me chama pra ir sendo que eu nem sei aonde é. - Reclamei.
-Eu vou encher ele porrada quando chegar lá. - Ele estava agitado, afinal, era de Ryan que estávamos falando.

Chegando lá, Mark colocou o dedo na campainha e não soltou até Luke aparecer na janela e começar a fazer sinais para parar.
-Minha mãe não está aqui agora mas os vizinhos querem descansar! - Disse Luke abrindo o portão.
Mark ameaçou ir pra cima dele mas eu o parei.

-Calma. - Olhei para ele.

-Hump. - Mark deu as costas para Luke e entrou na casa.

-Vamos. - Disse Luke.

Sua casa era bem simples. Nada tão chamativo e as coisas bem arrumadas, afinal, só duas pessoas moravam lá, o que não dava muito trabalho.

Entrando em seu quarto, me surpreendi com o tanto de livros que ele tinha em sua estante, uma pena que não eram livros importantes, mas, sim, de coisas sobrenaturais. Pude ver um que era um "guia de ressuscitação."

-Ok. - Olhei para todos que estavam sentados na cama. - Por mim já deu.

-Vai fugir? - Luke me encarou.

-Calma gente... - Chloe estava segurando um urso de pelúcia.

-Lissa não pode vir por causa dos estudos. - Luke continuou. Ele estava sério, mais sério do que o normal.

Olhei para Mark e pude perceber sua mão tremendo. Ele queria muito surrar Luke.

Sentei perto para impedir isso e levantei minhas sobrancelhas para Luke, como se estivesse esperando por algo.

-Vamos ao que interessa. - Luke pegou um livro que estava sobre a mesa. - Alguns dias atrás eu vi um vulto, que, por sinal, era muito familiar. Levando em conta as possibilidades, eu pesquisei sobre tudo, passei várias noites acordado para tentar entender isso...
-Passou várias noites á toa, você quis dizer. - Mark o interrompeu.

-Enfim. - Luke parecia não se incomodar com aquilo. - Vocês também estão tendo pesadelos, né?

Por um momento, me veio um frio na barriga. Como ele sabia que eu estava tendo pesadelos frequentemente?

-Sim... - Chloe respondeu olhando para baixo, como se estivesse incomodada.

-E daí? - Mark não estava convencido. - Isso é algo normal.

-Não. - Luke estava suando. - Não há nada de normal nisso.

Mark levantou da cama.
-Você está tentando nos dizer que só nós temos pesadelos?

-Não, na verdade, pesadelos são mais comuns em pessoas que apresentam diversos fatores, como: estresse, ansiedade, eventos traumáti... - Luke foi interrompido mais uma vez.

-Chega. - Mark olhou para mim. - Vamos?

Eu concordei.

-Vocês precisam ouvir o que eu tenho a dizer! - Luke gritou.

-Quem você pensa que é para gritar com a gente? - Dessa vez, fui eu quem perdeu a paciência.

-Para começar, nós nem devíamos ter vindo aqui! - Mark continuou estressado.

-Gente... - Chloe estava encolhida no canto.

-Vocês não podem me ignorar. Tem algo de estranho em tudo isso... - Luke parecia preocupado.

-Agora você vai fazer essa cara de preocupado? - Mark o empurrou ate o armário. - Então fala logo o que você quer.

-Você está exagerando... - Falei.

-Cala a boca! - Ele estava fora de si. - Continue, Luke.

-Talvez o Ryan que voltou não seja o mesmo que vocês conhecem... - Essa fala foi o que precisava para o nível de paciência de Mark se elevasse ao máximo.

-Qual é a sua cara? - Mark o jogou para o chão. - Nunca mais se aproxime se mim, entendeu?

Luke estava ofegante.

-Nossa vida está em jogo, Mark! - Luke continuou, mas, Mark deu de ombros e foi embora.

Eu não sabia o que fazer, Chloe estava apavorada perguntando de Luke estava bem e eu fiquei ali, parada.
-Bom... acho que é isso. - Andei até a porta para ir embora.

-Julia... Por favor.. - Eu nunca tinha sentido tanta dó dele.

-Boa sorte em seu conto de fadas. - Falei deixando o quarto.




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