It's time to be a big girl now/ And big girls don't cry
Eu gosto chuva. Sempre gostei.
Ela sempre foi uma forma pacifica de choro compartilhado, como se o céu estivesse dizendo: Ei, senta aqui. Vamos chorar juntos e descarregar toda sobrecarga de agua e mágoa que temos.
Mas, ao contrário da chuva, as minhas lágrimas não cessaram.
Faziam alguns dias desde que saíra do apartamento dele.
Das incontáveis ligações dele.
Dos buques de girassóis, colocados na minha porta.
Faziam alguns dias que eu não conseguia parar de chorar.
A parte mais difícil não foi sair do apartamento, foi ignora-lo, como se eu não me importasse.
Foi ignorar os cartões, que vinham com as flores, nos quais estava escrito: D e s c u l p a.
Ignorar os flashbacks de 5 em 5 minutos.
As mãos dele nas minhas, o corpo contra o meu, os sussurros, os gemidos, os olhares. A perfeição contida no caos humano. O amor.
Tudo aquilo estava me matando. Sem eufemismo algum.
Eu não saia de casa e, quando o fazia, era para comprar mais bebidas. Ou cigarros. Ou drogas.
Não sabia o que era sobriedade faziam alguns dias.
Não sabia o que era ser eu, faziam alguns dias.
Há alguns dias, eu tinha me perdido, naquele apartamento desarrumado. Entre os discos, os livros, as xicaras lascadas, o sofá xadrez velho e desbotado.
Entre o que sou e o que poderia ser, se tivesse coragem para sê-lo.
Enchi outro copo, de qualquer coisa, e fui ao banheiro.
O reflexo já havia sido melhor, com certeza.
Largo o copo em cima da pia, escovo os dentes, pego o copo e tomo tudo de uma vez.
Vou até o quarto, visto qualquer coisa, pego as chaves e saio de casa, trancando a porta atrás de mim.
Caminho pelas ruas, quaisquer ruas, entro no bar e peço um uísque sem gelo, por favor.
Abro o caderno, qualquer página.
Começo a escrever, qualquer palavra.
Então, no canto da folha, surge um poema. Um sentimentalismo barato, um clichê.
"No meu coração/ remendado/ você é um dos retalhos/ mais coloridos"
Assim, o nó da garganta aperta mais forte do que antes. Poesia barata, bebida barata, para um amor não tão barato assim.
Romances custam caro, dependendo da intensidade dos sentimentos depositados.
Nenhum romance, até hoje, me fez chorar como eu chorei por ele. A força dos sentimentos implícitos nos beijos e olhares, custaram muito mais do que apenas uma marca no meu coração.
Custaram o coração inteiro.
- Tá tudo bem, moça? – pergunta o atendente, preocupado.
Suspiro.
- Não muito, na verdade.
- O que aconteceu?
- Eu não consigo ser feliz, não consigo amar.
- Ih, moça. Esse negócio de amar é complicado mesmo.
- Não sei, nunca amei, eu acho.
- Você tá com cara de quem amou, sim. E muito.
Silencio.
- Pra doer tanto assim, só pode ser amor, moça - continua ele.
- Eu sei, eu sei – suspiro, limpando a lágrima que escorre, novamente.
Ele se afasta, para atender outro cliente, me deixando sozinha.
Sozinha.
Como eu deixei ele.
Sozinho.
Levanto, pegando minha bolsa, e caminho até a saída do bar.
Pego a maçaneta, devagar. Sinto o metal frio, esfriando minha mão congelada. Abro a porta e vejo a última pessoa que esperava ver naquele dia.
Nota:
Enquanto a melancolia
me afogava
meu coração se encolhia
e minha alma se dilacerava
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Helianto
Romance"E meus discos velhos, meus livros e meus escritos já não são companhia para minha alma inquieta. Procurei-te em outras musicas, outros textos, outros rabiscos e é claro que encontrei. Você sempre está lá. Assim como eu ainda continuo aqui, cantando...
