Capítulo Quatorze

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Apolinária admirava o pequeno objeto brilhante em seu dedo anelar. Marcado na pele, ela nunca o tirou, exceto quando faleceu e Igor teve o cuidado de guardá-lo. Saiu de seu quarto mais confiante e pronta para trocar nem que fosse poucas palavras com Arsénio, mas o suficiente para se sentir tranquila e saber que a vida dele estava caminhando, conforme ela desejava, pois, suportaria vê-lo ao lado de Louise.

Ela entrou no elevador vazio e acessou o painel para averiguar os locais e as pessoas que estavam neles, então escolheu o seu escritório no décimo primeiro andar. O elevador subiu e parou no sétimo andar, logo uma pessoa entrou. Apolinária permaneceu distraída e cabisbaixa. Cruzou os braços e ergueu a cabeça para olhar de esguelha para a pessoa com quem dividia o elevador. Arsénio sorria e olhava para ela.

— Bom dia — disse Arsénio, envergonhado.

— Bom dia, Arsénio. — Ela retribuiu.

Arsénio sorriu.

— Eu trabalhei aqui em 2014. E a senhora, infelizmente, pelo nome, não me recordo, mas sou um dos primórdios daqui, por assim dizer. Não conseguimos conversar mais depois daquele dia, eu gostaria de saber mais sobre a senhora. O ano em que veio para cá. A senhora chegou a conhecer Vivian?

—Não. — respondeu Apolinária prontamente.

Arsénio percebeu que incomodava a senhora, abaixou os olhos até parar diante das mãos da mulher e visualizar com clareza o seu dedo anelar da mão direita. A aliança de Vivian. Preferiu não questionar sobre algo tão antigo. A aliança era idêntica, mas talvez, não era única.

O elevador parou no décimo primeiro andar e Apolinária se virou para se despedir de Arsénio, mas as portas do elevador não se abriram, o painel desligou e as luzes se apagaram.

— Nossa, faltou energia. Mas em casos assim, existe um sistema capaz de acionar o gerador e estaremos a salvos — riu Apolinária.

O tempo passava e Apolinária não deixava de fitar as portas do elevador. Arsénio parecia despreocupado e não dizia nada.

Apolinária estranhou e abaixo do painel principal, havia outro, portanto Apolinária apertou o botão para ligá-lo, mas ele também estava desligado. Ela resmungou e deu um soco na parede, entretanto disfarçou ao se lembrar da presença de Arsénio.

— Não era para acontecer isso, mas e agora? — Apolinária entregou os pontos. — Já sei! — Pegou seu computador e acionou a emergência. — Por um instante, havia esquecido. – Ela riu e voltou para o canto do elevador sem encarar Arsénio, que permanecia calado.

Arsénio começou a passar mal e se apoiou em Apolinária.

— O que sente, rapaz?

— Elevadores me trazem lembranças e eu acho não estar condicionado a lugares fechados. — explicou.

Apolinária pegou seu braço e colocou em volta de seu pescoço e tentou acalmá-lo com uma massagem em seu peito, além de abaná-lo em vão. Lembrou-se da geladeira acoplada no elevador e abriu a portinhola, retirando uma garrafa de água para ajudar Arsénio a beber.

— Obrigado. — Ele agradeceu, bebendo aos goles.

Aquela aliança brilhante e aquele ambiente trouxeram à mente de Arsénio, as cenas em que ele havia desmaiado ao descobrir sobre a mentira de Vivian. Sentia ser transportado para aquela época. Apolinária não o soltava, porque ele não permitia que ela se afastasse dele. Pedia para abraçá-lo enquanto o mal-estar dirimisse.

Arsénio enxergou a pessoa que trazia a lembrança de Vivian intensamente em Apolinária.

Arsénio apertou sua mão e perscrutou minuciosamente seus dedos longos e finos com as unhas transparentes. Ele trouxe a mão de Apolinária para mais perto e tentou tirar sua aliança, mas Apolinária evitou, puxando sua mão de volta, porém a aliança saiu de seu dedo.

— Devolve-me, rapaz — pediu Apolinária.

Arsénio olhou para o interior do aro e encontrou o seu nome e o nome de Vivian gravados.

— Por que a senhora carrega a aliança de Vivian? — Arsénio franziu a testa.

— Ela me presenteou antes de morrer, Arsénio. Tornamo-nos amigas e ela sentiu pena de desfazer de um anel tão bonito e simbólico, portanto ele esteve no meu dedo como lembrança dela.

— A senhora se incomoda desta aliança ficar comigo? Ela pertenceu à Vivian e eu quero estar com algo que esteve com ela, por favor. Ela não foi importante para você o tanto que ela ainda é para mim.

Apolinária assentiu com a cabeça e sentiu-se amada naquele instante ao ver Arsénio chorando e falando daquela maneira dela mesma.

— Perdoe-me por fazer esse pedido à senhora, mas é que Vivian foi uma das pessoas que mais amei na vida. E hoje estou sozinho, sem minha mãe e sem ela.

A energia voltou a circular pelo elevador e Apolinária suspirou aliviada.

— Voltou a funcionar. Venha comigo até a enfermaria.

As portas do elevador se abriram e Apolinária conduziu Arsénio para fora.

— Ainda bem que fica neste andar — disse Apolinária, aliviada.

— Não se preocupe. Estou melhor — disse Arsénio, colocando o anel em seu dedo. —Depois que a senhora me presenteou com isto, só tenho de agradecê-la eternamente. Obrigado por tudo.

As mãos dadas e os encontros dos olhos fizeram os dois pararem e ficarem como estátuas, mergulhados em diversos sentimentos misturados. A familiaridade era recíproca entre ambos. Arsénio encontrava naquela mulher de mais de oitenta anos, o conforto de estar com alguém conhecido e amável. Enquanto isso, Apolinária só agradecia a Deus por estar diante de alguém tão amada e tão viva.

Os dois se afastaram um do outro lentamente, eles não queriam sair dali. Arsénio beijou as duas mãos da mulher, e sorriu, e agradeceu pelo amparo e o presente que agora habitava seu dedo anelar.

— Serei grato por me receberem com tanta afeição. Vivian era para estar aqui, mas ela não quis, fez com que eu estivesse e esse é o paradoxo da vida. Este anel me lembrará ela e também a senhora. Fique com Deus e eu estarei com ele também.

Arsénio continuou sua caminhada em direção à sala de fisioterapia. Em seguida, Igor saiu do elevador ao lado e se encontrou com Apolinária absorta em sua ilusória.

— Vivi para ver a senhora abraçá-lo. Eu me emocionei tanto que estou vermelho — disse Igor, abraçando Apolinária.

— Você assistiu tudo? — Apolinária franziu o cenho.

— Aconteceu mais do que eu esperava e não me arrependo de ter feito o que eu fiz.

Apolinária arquejou uma de suas sobrancelhas e encarou decepcionada para Igor.

— Quer dizer que o elevador teve problemas tão raros por causa de sua vontade? Igor, por que fez isso? Não lhe dei o direito de monitorar minha vida! — Ela exclamou.

— Pare de ser uma velha marrenta e assume sua identidade. Não vê que o rapaz a ama tanto que pouco importa se sua idade está avançada. A declaração dele foi tão profunda e inspirada que me trouxe lágrimas e eu não nasci para chorar. Sou amargo feito pedra.

— Dane-se! Não quero voltar a ter de encará-lo dessa maneira. Nossa amizade foi construída há tanto tempo, não tente destruí-la de um dia para o outro! — vociferou Apolinária.

Igor se desculpou, mas Apolinária saiu em direção ao seu escritório, ignorando Igor.

— Vá entender essa mulher! — Igor reclamou consigo mesmo.

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