11. Surra de Vara

1.1K 134 641
                                    

PORQUE SEMPRE TEM UM PRA ABRIR O BOCÃO?

Nas primeiras horas da manhã do dia seguinte, tia Carmem soube pela boca de terceiros que havia sido realizada uma reunião não autorizada no estábulo. Fran foi apontada como a idealizadora do negócio e por conta disso recebeu mais um bottom da vergonha para a sua coleção. E a coleção continuou a crescer, já que Fran, só de raiva, se recusou veementemente a participar de todas as atividades regulares que aconteceram nas horas seguintes, dando um chega pra lá no espírito esportivo em equipe.

Para tudo ela arranjava uma desculpa.

— Não me levem a mal, mas eu não tô a fim de torcer o meu tornozelo correndo atrás de uma bandeira idiota... (Na hora do pique-bandeira).

— Meu hipotireoidismo subclínico não permite desgastes físicos desse tipo, sorry... (Na hora da queimada).

— Não posso ficar exposta ao sol ardido, tenho a pele muito, muito sensível... (Na hora da caça ao tesouro).

— Lamento! Sou alérgica a ovo... (Na hora da corrida do ovo cozido na colher).

— E lascar a minha a unha? Nem pensar... (Na hora da corrida da carriola humana).

— Cólicas! (a desculpa para todo o resto).

Na noite do quarto e penúltimo dia, aconteceu o tão esperado baile católico de carnaval. Isso mesmo. Enquanto as pessoas lá fora se divertiam com o carnaval do mundo, com aquelas músicas horríveis de cunho sexual, se drogando e se embebedando até o estomago doer, nós, os jovens retirados, também nos divertíamos, mas com músicas santas, louvores católicos animados e orações.

O baile rolou no celeiro reservado para eventos. O auge com certeza foi o momento em que tia Carmem, Satiko e Murici acharam que poderiam esquentar a pista de dança apresentando a todos uma coreografia surpresa. O trio sacudiu o esqueleto, literalmente, sem medo de ser feliz. Ao meu lado, Fran assistia o desempenho com uma expressão de incredulidade, como se estivesse diante da redefinição do significado de vergonha alheia.

— Minha nossa! Esse era um lado da sua tia que definitivamente eu não conhecia.

— Nem eu. Por favor, você poderia parar o mundo pra mim? Eu preciso descer.

— Ai, Vick, deixa de ser dramática. Sua tia não tá morta. Deixa ela se divertir. E você devia fazer o mesmo, se quer saber. Tente se enturmar. Não quero ter que te deixar sozinha.

— Como assim me deixar sozinha?

Ela deu uma risadinha.

— É porque vou precisar sumir durante a próxima meia-hora. E tipo, não precisa vir atrás de mim me procurar, beleza? Isso é uma coisa que eu preciso "lidar" sozinha, se é que você me entende dessa vez.

— Fran, aonde você vai?

Nesse momento, vi Sávio parado com as mãos enfiadas no bolso da calça, encostado na madeira da parede, próximo à porta de entrada. Antes de deixar o ambiente, ele lançou sobre Fran um olhar de caçador sedento pela caça. Essa imagem a colocou em estado de graça. Com a cabeça inclinada, ela cochichou no meu ouvido:

— Pensei que estivesse óbvio, Vick. Depois nos falamos, tá? Tente se cuidar.

— Eu sei me cuidar.

— Aham, sei.

— Fran e se alguém notar a sua ausência?

— Se alguém notar a minha ausência você fala que eu senti um forte enjoo e precisei correr até o matagal para vomitar. Com licença.

Enquanto eu observava Fran bambolear em direção à escuridão do matagal lá fora, pensei comigo como pude ser tão burra. Meu Deus, picadura de borrachudo? Gente, nada a ver. Ela estava era o tempo todo garantindo o primeiro peguete devoto do scrapbook da rotatividade dela, isso sim. Safada!

O Antidepressivo Amoroso Perfeito (Completo)Onde histórias criam vida. Descubra agora