Eu já estava cansado. Três dias. O meu final de semana. E o mesmo sonho voltava á tona. O lugar branco, o piso branco, o céu branco. Mas hoje, algo me surpreendeu. Eu estava no sonho, e olhava pra cima, como se tivesse algo lá em cima que pudesse me ver, e não somente eu ver á ele. Mas não algo como "Deus", algo mais... humano. Mas só podia dizer isso pelo meu olhar, já que, "de resto, nada me restava".
Como era final de semana, me lembrei que tinha abandonado o meu desenho da estátua. só faltava desenhar direito a roupa do anjo, e fazer os detalhes, e então, tudo estaria pronto. Quando cheguei lá, estava vazio. Nada normal pra um parque. E o mais curioso, algumas pessoas pensavam em ir ao parque, mas vacilavam, e entravam na primeira loja que aparecesse. Fiz uma expressão facial de desentendimento e voltei a desenhar. Ranquei a folha pra usar a capa do caderninho como apoio, já que era meio difícil quando as folhas saíam do lugar ao apagar algo.
MARTIN'S POINT OF VIST
- Isso ta demorando demais... você precisa de um... empurrãozinho. - as pessoas não sabem quem eu sou. Não sabem o que posso fazer, ou acreditam que tudo de bom que dizem sobre mim sejam rumores. Bem, algumas coisas são, admito, mas... não temos tempo pra isso agora.
Observava Lexam fazer o desenho de longe, bem longe. Mas sim, ele precisava de um empurrãozinho. O irônico disso foi que ele acabou caindo do nada de cara no chão. Auch! Isso deve realmente ter doído bastante. Mas o papel do pobre menino se prendeu, em nenhum lugar mais, nenhum lugar menos do que o escudo do anjo. Entre um espaço mínimo entre o corpo e o escudo que, por ter um material mais claro do que o resto da estátua, presumo ser de ouro. Tipo, sério que a sorte dele é tão boa assim? E então ele começou a fazer algo que não pensei que faria.
LEXAM'S POINT OF VIST
Olhei em volta. Novamente, não parecia ter ninguém por perto, as pessoas continuavam desviando do parque como se tivesse vômito em volta dele. Tem algo diferente no lugar... seria vômito? Mas eu não podia deixar meu trabalho de dias e dias pra lá só porque voou pra uma parte não muito legal de se pegar. Muito alto.
Apoiei meu pé na base que segurava a estátua, e coloquei o outro sobre o pé de 30cm dela. Sim, eu iria escalar uma estátua pública num parque público, e talvez levasse uma ocorrência por destruir propriedade pública. Hm, nada mal, não tenho nada a perder, a não ser minha casa, minha escola, meus amigos, minha dignidade... é, tranquilo.
Um na barra da calca, outro em uma barra mais pra cima. Joelho, ondulação, ondulação, borda da camisa, ondulação, desviar do braço, subir no braço... olhei pra trás. Não via ninguém ainda. Olhei pra baixo... é melhor eu não cair daqui. Engatinhei pra cima até chegar perto do escudo, mas não era o bastante, estava mais no alto. Ao tocar um símbolo presente no escudo, em uma péssima hora, um flashback aconteceu. Minha vizão ficou em branco como um choque em frações de milésimos.
[Flashback STARTS]
Hey, aquele era o lugar do meu sonho? Mas... tinham pedras. Na minha frente. Uma paralela á outra, o suficiente pra colocar meu caderninho, mas não o suficiente pra se sentar. Pra cima, eu estava certo; agora eu podia ver o céu se azular enquanto... alguém flutuava? Não, isso não faz sentido. Era visível um tênis branco. Todo branco. Mas as linhas laterais dele eram paralelas e pretas. Duas linhas. O corpo desceu um pouco mais e eu percebi que eu estava lá. Mas não o eu do sonho, o meu eu Espectador. Era muito estranho olhar pra mim mesmo e o meu outro eu não prestar atenção. Digo, eu me acho feio, mas não me ignoraria. Eu ainda tenho um pouco de amor próprio.
Um jeans claro apareceu, ao contrário do Lexam Espectador, que usava um jeans escuro. Descia devagar. E finalmente, uma camisa branca. Atrás da camisa tinham asas. Mas o "Lexam E." achava aquilo normal. Tentei falar:
- Cara, cê não ta vendo que ele tem asas? Asas! Isso é muito legal, mas não é normal. Lexaam, Lexam. Lexam! CARA, ME ESCUTA, EU TO FALANDO CONTIGO. Digo, comigo. Não, contigo. Com... - depois de alguns segundos de confusão vi que o Lexam E. não podia me ver. Agora a figura acima de nós mostrou um cabelo. O rosto estava longe demais pra decifrar, mas era definitivamente um menino de cabelos lisos e tão pretos que os céus refletiam nele, e de repente, no "meio do caminho" ele perdeu as asas. Quanto mais ele descia, mais deixava de ser pálido, e sua pele pegava um branco natural, e não como o do céu ou das núvens. Me apressei pra correr e ao menos amortecer a queda dele, mas ele continuou flutuando, mesmo sem as asas. As pontas de seus pés pousaram, e logo depois os calcanhares.
O flashback mudou, e agora eu estava no mesmo lugar, mas o Lexam E. e o menino, que suponho ser um anjo, estava sentado conversando com ele, cada um em uma das rochas, que já tinham tamanho suficiente pra isso agora. Cheguei mais perto pra que pudesse ouvir. As bocas se mexiam pronunciando palavras, mas eu não podia ouvir um som sequer. Eu estava agoniado em não poder ouvir uma conversa da qual eu participava, mas iria melhorar. Assim espero. Mas não, continuei sem ouvir. Lexam ria do que ele falava, e logo depois, ele ria do que Lexam falava. Como uma conversa casual entre amigos, rindo toda hora de coisas inúteis, mas realmente pareciam coisas legais, porque Lexam não forçava sorriso nenhum, saía tão naturalmente... eu só conseguia sorrir naturalmente com Lara, então aquilo era novo pra mim.
Deixei de notar que enquanto conversavam, o rosto e o cabelo mudavam aos poucos. Os cabelos foram ficando ondulados, e o rosto... ele alternava. Ás vezes mais feminino que o anjo na primeira vez que o vi, e ás vezes mais masculino e mais velho do que tinha chegado ao chão. Até que seu cabelo tomou uma forma cacheada, e depois uma touca apareceu cobrindo-o, e agora seu sorriso tinha covinhas leves, quase imperceptíveis. Um minuto depois, e realmente eram covinhas. Ficaram bem mais visíveis, deixando o sorriso dele mais alegre. Mas do nada o menino anjo se levantou. O sorriso de Lexam sumiu, não parecia que o menino tinha se despedido dele/de mim. O menino virou, e corri atrás dele, a expressão parecia triste e fria, e depois de olhar pra Lexam, era uma expressão confusa, mas uma tristeza em comum.
Lexam começou a gritar por ele. Ele não atendia ao chamado, Lexam E. correu atrás dele, mas os passos começaram a flutuar quando ele levantava os pés, aumentando sua velocidade, mas sempre voltando ao chão. Lexam E. correu mais, e mais, tentando desesperadamente alcançá-lo. Lágrimas se formavam em seus olhos, lágrimas de medo, lágrimas de confusão, lágrimas que representavam que seu mais verdadeiro amigo tinha sumido. E quando Lexam ia tocar nele, ele simplesmente sumiu. Se desmaterializou. Lexam E. parou os passos aos poucos, mas chegou onde ele sumiu, eu assistia de longe meu próprio comportamento. Eu realmente faria tudo isso. Ele/eu procurava por vestígios, mas nem um pó brilhante apareceu. Nada. De repente tudo ficou preto. Não me via, não via meu Lexam Espectador, não via nada. Apenas preto.
[Flashback ENDS]
Barulhos parecendo a contagem regressiva de uma bomba entraram pelos meus ouvidos. Abri os olhos aos poucos, primeiro tendo-os semi-cerrados. A visão embaçada tudo branco, mas um branco diferente. Eram paredes. Olhei pro lado, o barulho de contagem regressiva vinha de uma máquina medindo meus batimentos cardíacos, e do outro lado, Lara estava dormindo no sofá de visitantes. O que havia acontecido enquanto eu tive o flashback?
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Salvation
Fiksi RemajaA história acontece em volta de Lexam Densolo, um garoto até então comum no colegial, que descobre seu passado através de outro garoto, e através de uma estátua esculpida em nome de uma profecia. Lexam, é na verdade, um anjo adolescente.