Uma calamidade, um absurdo da pior espécie. Nunca imaginei que passaria por situação tão desumana como esta que estou prestes a relatar nesse diário.
Após alguns custosos dias de caminhada, finalmente pudemos avistar ao longe a vila jesuítica. Se encontrava no topo de um pequeno planalto de vegetação baixa, terra firme e clima ameno. Porém, o que eu pensei ser uma abordagem amistosa atrás de reservas de comida e trocas de mercadoria, na verdade era uma invasão bruta e vil contra os pobres homens de deus que lá viviam.
Pude notar que nenhum destes falavam português, eram na verdade espanhóis emaranhados dentro da mata para catequizar índios e trazer suas pobres almas para a fé cristã, por tal motivo o capitão disse que os espanhóis eram "inimigos da coroa", tentando catequizar animais impuros como os negros da terra, ao invés de usá-los como mão de obra que impulsionaria o desenvolvimento.
A expedição saqueou o templo, roubou seus objetos de valor e matou todos os homens religiosos que puderam colocar as mãos. Todos os índios que lá viviam já civilizados foram tornados como escravos, o capitão dizia que nativos recém cativos morriam para doenças do homem branco, estes que já conviviam com padres eram os que tinham maior chance de sobreviver.
Por esse motivos, nem mesmo os adoecidos foram poupados, enfermos que estavam sendo tratados pelos padres na área isolada da vila foram levados à força pela expedição para compensar as perdas que tivemos na noite anterior. Sofriam de uma irritação misteriosa na pele e uma indisposição inquietante. Nem mesmo os nativos saudáveis se comunicavam precisamente com estes, levantando a possibilidade que o raciocínio e compreensão deles estava debilitada.
Levei comigo um livro que encontrei na ala dos enfermos que detalhava qual o tratamento e qual malograda doença sofriam estes nativos. Porém todo o manual estava escrito em espanhol, língua que eu parcamente dominava.
Muito dos mestiços imploraram ao capitão para que os enfermos fossem poupados e que continuassem na vila enquanto prosseguíssemos caminhada pela floresta, com medo é claro, que os males nas peles dos cativos se espalhem entre os nativos saudáveis e até mesmo entre a gente. A esse pedido o capitão apenas decidiu destacar o grupo do resto da expedição, andando separadamente dos outros, o que agradou os mestiços.
Hoje iremos dormir nessa aldeia destruída com o sangue de homens de Deus em mãos e com o aroma de suas carcaças ao vento. Temo que tal atitude violenta possa servir de mau presságio e que de alguma forma, as forças divinas venham a nos punir por tal insensatez.
A imagem dessa calamidade, o terrível peso na consciência e os aromas de morte que me cercavam me alimentaram a imaginação de forma terrível. Esta noite meus terrores noturnos se tornassem mais vívidos que os passados. O número de vozes ouvidas era ainda maior, pareciam agora incluir os homens santos mortos impiedosamente.
Pude observar, ainda que de forma dificultada, a forma que assumira os nativos nesse estado de retorno da vida. Seus corpos eram coberto de sangue coagulado, exalavam um terrível odor pútrido, suas peles carcomidas com nervos e tendões saltados de expressões horríveis faziam contraste a expressão facial totalmente desprovida de vida e sentimento. Não pude encará-los, e no ponto mais alto de terror acordei no acampamento com a fronte umedecida de suor. Espero que esses pesadelos cessem antes que comprometam minhas noites de descanso e minha tranquilidade mental.
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A Pestilência Nefasta da Tribo Ka'yngua
HorreurÉ convocado na Vila de São Paulo de Piratininga uma bandeira em direção a oeste do rio Tietê e Paraná com o objetivo de procurar riquezas naturais e escravizar índios. Após uma grande escalada de violência os bandeirantes entram em contato com uma m...