Foi numa segunda-feira;
Eu, Fernando,
Estava de joelhos na catedral,
Enquanto conversava e rezava.
Não compreendi
Como poderia ter sido eu o escolhido.
Há muito pecador,
Arrependido,
Pedia perdão e declarava devoção.
As mãos unidas,
Sentia o calor do Senhor
Em sua resposta acalentadora.
Depois disso,
Olhando para a representação em vitral
Da Transfiguração de Cristo,
Tive um vislumbre de sua segunda vinda.
Senhor,
Meus sonhos desapareceram, Senhor,
Por que sofro tanto pelo que sou?
Me fizestes assim,
Está tudo bem, não reclamo;
Agradeço por continuar com forças para lutar,
Ainda: por Teu amor, aqui permaneço.
Luto contra mim mesmo,
contra mim mesmo, Senhor!
És mais íntimo do que eu a mim, me diga:
Por que há tanto mal que me assombra?
Poderia eu ser melhor do que sou?
Não questiono, Meu Pai, tenho Fé;
Mas gostaria de sorrir mais uma vez.
Livre-me do incômodo, por favor,
Já não suporto mais tanto peso.
Ajude-me a ver a luz,
A ser tocado por ela;
A sentir toda a Tua altivez.
Essa música triste no fundo da minha alma,
Permita que cante mais baixo.
Deixa haver brilhos nos meus olhos,
E esses despontarem na escuridão
Que lhes permeia,
Já seguros da anátema.
Gostaria de ver não mais a escuridão eterna
Da ação denegatória,
Mas a simples flor que balança com a brisa.
Ainda ouvir os risos ecoando dos retratos
Das minhas memórias.
Agora aperto as mãos e Lhe entrego o meu Ser,
Pois sei que Tua ideia
É maior do que qualquer outra na história.
Não é tarde demais, agora estou ciente disso;
Estou livre para me refazer.
Já no Ser, aquele que É,
Passando para o que É e vive,
E, chegando na alma;
Essa mesma que me permite o livre-arbítrio
E que se fundamenta na Verdade, e em Ti,
Com toda a tranquilidade.
Ó Senhor, bondoso, que me expande e fortalece,
Dê-me um abraço caloroso que me acolha
Nas ideias e verdades,
Mais ainda sobre Tua criação:
A faça que me engrandece.
Agora eu sei:
A maldade não é o contrário da bondade,
Pois que é a sua própria ausência.
Em Tua lógica absoluta,
O nada é o contrário da bondade.
Respiro a grandeza do Teu pensamento,
Ó Senhor das Ideias,
Tudo de maior que posso pensar.
Reconheço Tua sabedoria e sumo discernimento.
Sou eu, agora mais do que nunca,
Centro de Tua criação,
Devoto à Tua Vontade e à Tua Palavra.
Preencha-me com ensinamentos e também com unção.
Pensei... pensei em Tua grandeza,
E não pude defini-la,
Pois, de tudo que consigo pensar,
És maior e maior.
Somente Tua ideia,
Teu amor infinito,
Me é capaz de fazer compreender.
Conheço o mundo
Quando conheço a Ti, meu Senhor.
Falo contigo e sinto o Teu calor
E o abraço quente da verdade.
Eu vivo, eu canto para Ti,
E, de fato, eu toco o céu em meu louvor.
Deu-me razão para construir o conhecimento,
Para encontrar-Te,
Sou eternamente grato pela bondade,
Tal qual pela resposta;
Tal qual pelo calor; pela alegria e pela arte.
Esperança por dias melhores,
Tenho esperança pela minha salvação;
Também tenho Amor,
Primeiramente por Ti,
E então pelo próximo, como a mim mesmo;
E Fé, debruço-me sobre Tua Vontade,
E somente Tua Vontade,
Pois sou Tua criação.
Amo-Te acima de todas as coisas,
Perdoa meus pecados, por favor.
Proteja-me, Meu Pai,
Dessa tempestade de vozes
Que assola minha alma,
E a simplesmente caminhar por esses dias
Tempestuosos, peço com a minha alma.
Senti-me assim como um adolescente
Com sequelas da enfermidade e epilepsia,
E presenciei a luz do sol brilhar intenso
Na cena de Jesus Cristo
Conduzindo Tiago, Pedro e João a uma montanha.
Todo esse brilho amarelo
Banhou a catedral em uma tranquilidade celestial. Então, foi quando vi,
Desprendendo do vitral colorido,
O rosto de Cristo
Resplandecendo como o próprio sol.
Mergulhei em lágrimas
Vendo essa cena magnífica
E criando forma diante de meus olhos.
As roupas de Jesus tornando-se incandescentes
E brancas e os apóstolos vendo ao seu lado os profetas Elias e Moisés.
A vida boa tem a ver
Com o alinhamento com a Tua vontade,
Meu Deus, que é o bem supremo
Que devemos conhecer.
Sinto a Tua companhia
E o sentido da minha vida,
Essa é a mais pura verdade.
- Eu sou o caminho,
A verdade e a vida. - disse-me Cristo -
Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.
Se vocês realmente me conhecessem,
Conheceriam também o meu Pai.
Já agora, o conhece e o têm visto.
- Senhor, mostra-nos o Pai,
E isso nos basta. - bradei-me,
Assim como Filipe, como toda a humanidade.
Minha voz maior do que eu mesmo,
Voz essa que me afasta.
- Você não me conhece, Fernando,
Sabes que quem me vê, vê também o Pai.
Mesmo depois de tanto tempo?
Como você pode dizer, 'mostra-nos o pai'?
As palavras que digo
Não são apenas minhas;
Ao contrário, o Pai que vive em mim,
Está realizando a Sua obra,
Já começada outrora.
Digo a verdade - insistiu-me Cristo -
Aquele que crê em mim fará
Também as obras que tenho realizado,
Fará coisas ainda maiores
Do que jamais houvesse visto. -
- Ó Cristo, Tu, a Fonte, a Alegria e a Vida,
Nos trará a salvação? -
Perguntei com a voz trépida. -
Tenha piedade de mim,
De nós,
Não tenha nojo de nossa depravação.
- Não te apequenes, Fernando,
Não os apequene,
Farei tudo que vocês pedirem em meu nome,
Para assim, o Pai ser glorificado no Filho. -
Respondeu-me solene.
- Tua virtude moral - continuou Cristo -,
Não se fundamenta na natureza,
No que não escolhestes para si,
Mas no teu trabalho,
No teu esforço. - Ele complementa.
É por Teu amor, meu Senhor,
Que eu levanto e me orgulho
De ser quem sou;
Obrigado. Muito obrigado, meu Senhor.
Seja na epopeia, seja na tragédia,
Minha alma e minha vida,
São Tua obra de arte.
- Além - bradou Cristo -,
Para além de si mesmos vocês irão.
Pois com meu Sangue,
O mal desaparecerá, persisto.
Lhes trago o poder do Sangue Milagroso,
A própria salvação,
A elevação de toda a Criação.
Ainda mais, lhes anuncio:
Não restará o pavoroso. -
- Mas, Senhor!
Em toda essa separação,
Não existe o ser humano, nem existe humanidade.
Com todo respeito,
Ninguém se entende por criação.
Se se respira dor ou ódio,
Não se importa,
É a raiva que nos mantém respirando,
É a maldade;
Se faz sexo com a vingança.
Aqui, a verdade jaz morta.
Certo que não somos Deus
E não temos quaisquer certezas,
Não somos bons, nem nada acima,
Raras as vezes em que há genialidade,
Há muito mais impurezas.
A assimetria do mau em relação à bondade
É gritante,
Entre nós, homens, há muito mais sadismo
Do que altruísmo.
Se é, ainda mais do que tudo, assassino,
Incongruente.
Senhor,
Se deseja o que não tem e há possessão,
Pior ainda quando se quer o errado.
O prazer violento é nossa maldição.
Queremos a morte.
Eu, mais que tudo, sei disso.
Não basta pertencer ao inferno, é necessário almejar o céu,
Almeja-se ser Deus. -
- Se vocês me amam,
Obedecerão aos meus mandamentos. -
Disse-me Cristo, calmamente e em bom tom.
- Eu pedi ao Pai,
Seu amor por vocês
Vai além dos infinitos.
A estrela da verdade,
O mundo ainda há de recebe-la.
Fato, que não se conhece,
Nem nunca se conhecerá por inteiro,
No entanto, a verdade brilha sozinha,
E poucos vão absorve-la.
Como já havia dito antes:
Compreenderão que estou em meu Pai,
Vocês em mim,
E eu em vocês;
Porque eu vivo, e vocês,
Sempre viverão.
Aquele que me ama
Será amado por meu Pai,
E eu também o amarei,
E me revelarei a ele.
Pouco a pouco, este mundo,
Se converterá na Casa do Pai. -
- Senhor, mas por que
Se revelarás aos poucos
E não ao mundo por completo? -
Perguntei instigado
Vendo Cristo flutuando até mim.
Todo esse poder emanando
E tocando meu coração,
Agora tão profundo.
- É por isso que trago meu Sangue,
O mundo o reconhecerá,
Mais até do que minhas palavras.
Toma, segure-o, que, com ele,
Toda a verdade há que se enxergue.
Eu nunca achei
Que pensaria o suficiente,
Agora, vejo Jesus Cristo pairando
Em minha frente e criando forma,
Chegando ao chão,
Caminhando em minha direção.
Apesar de todo o amalgama
De sentimentos e calor,
Senti que tal visão nunca sairá de minha cabeça.
O tempo pareceu ir cada vez mais lento,
Os passos de Cristo ecoando.
No entanto, alguns segundos apenas.
Ao centro da enorme catedral,
Em tons de branco, cinza e dourado,
Seus vitrais multicoloridos;
Senti estar no paraíso.
Cristo resplandecendo como o dia.
Momento esse, pensei,
Que fora realizado todos os
Meus sonhos sagrados.
Estendi as mãos
E Jesus Cristo derramou sangue nelas.
O senti transbordar e derramar.
E, com o cheiro de sangue no ar,
Fechei os olhos e o bebi.
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Danse macabre
FanfictionDanse macabre se passa em uma catedral gótica em uma pequena província, onde alberga um poderoso medicamento, e onde se reside, aparentemente, Jesus Cristo. Ao longo dos anos muitos viajantes fizeram peregrinações à cidade procurando a cura para as...
