Capítulo XI

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POV Harry

Após Louis dormir finalmente, devido aos medicamentos que a enfermeira deu para ele, me pego pensando no que aconteceu. Ele foi espancado na rua. O quão forte isso soa? Ele não fez absolutamente nada. Ele apenas é quem ele é. Olha o ponto em que a humanidade chegou, bater em alguém apenas por ser diferente. Apesar de o ser humano fazer isso desde sempre, nós estamos em 2017. Já era para isso ter acabado. Mas nunca acaba. Às vezes as pessoas agem como se as outras não tivessem sentimentos. Como se não sofressem. Como as pessoas conseguem ser tão cruéis?

Eu dou graças a Deus por isso nunca ter acontecido comigo. Por que aconteceria, afinal? Eu sou branco, hétero, rico. Tenho uma casa própria, dois filhos e me encaixo no padrão de beleza da sociedade. Pensando por esse lado, eu realmente não sei o que é sofrer. Deveria estar feliz por isso, mas não consigo, já que estou sentado na frente de um jovem que acabou de ser espancado na rua. Os médicos disseram que por pouco ele não fraturou a bacia. Ele poderia ter morrido!

Suspiro pesado ao pensar em todas essas coisas. Pego meu celular, que estava ao meu lado e me deparo com uma mensagem de Zayn

Zayn: E aí, Harold? Bora pra balada como nós velhos tempos? Você precisa transar cara! Quatro anos na seca! Deus que me dibre!

Quantos anos ele tem mesmo, 15? Reviro os olhos para sua mensagem e decido não responder. Vou nos meus contatos e clico no do meu filho, afinal, deixei ele sozinho com a irmã e os amigos. Apesar de alguns empregados estarem lá, é sempre bom garantir

"Alô?" Ouço uma voz fininha atender o telefone. Acredito eu que a voz do Alex não é assim. Ou  seria a puberdade? Afinal, eu também passei por isso! E quanta vergonha essa tal de puberdade não me fez passar. Saio de meus devaneios ao ouvir a voz novamente "Papai!"

"Alex?" Pergunto, confuso. Não é possível que a voz dele esteja tão fina. A não ser que...

"PAI! É A DARCY!" A voz grita irritada do outro lado da linha. Como eu não pensei nisso antes? Acho que a falta de sono está afetando a minha linha de raciocínio

"Como vocês estão, filha?" Me mexo desconfortável na poltrona do hospital. Que troço mais infeliz!

"Bem, mas a Liv não quer comer nada"
Ao ouvir a voz preocupada de minha filha, me lembro do que Louis disse. Câncer. Ele faz isso com as pessoas. É como uma droga que vai destruindo você pouco a pouco. Cada dia você emagrece mais, e antes que você perceba, já não consegue mais se manter em pé por muito tempo. O câncer é um dos males da humanidade. Ele acaba com a vida de pessoas que querem viver, porém faz isso de forma lenta e dolorosa. Ele acaba com todos em volta, inclusive. Às vezes eu paro e penso "Tantas pessoas querendo acabar com a própria vida, e tantas pessoas implorando por mais um único dia" Valorizar a vida é a melhor forma de se previnir do câncer, porque se ele vier, pelo menos você não vai ter arrependimentos.

Eu tenho muita vontade de salvar pessoas assim, inclusive faço isso todos os dias. Porém a morte é algo inevitável. Se ela resolve levar alguém, não tem quem mude isso. Você aprende essas coisas vendo várias pessoas morrerem todos os dias. O que mais me dói são ver crianças como a Olívia doentes. Pode ser que ela não dê o primeiro beijo, não termine a escola, não se forme, não se case. Pode ser que ela não viva, e isso é o que mais dói. Eu não digo viver no sentido de existência, mas sim de aproveitar a vida. De se sentir vivo. Passar anos na cama de um hospital com certeza não é se sentir vivo. Se depender de mim, a Olívia vai ser uma pessoa completamente normal. Porém nem tudo depende de mim.

Dou um suspiro cansado

"Vão dormir agora, tudo bem? Papai te ama" Digo para a pequena do outro lado da linha

Little Things | l.s Histórias para pegar e não largar. Descubra agora