IX

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As águas azuis-esverdeadas estavam calmas. Elas baloiçavam o pequeno barco de madeira escura que eu me encontrava. Os raios de sol trespassavam pelas minhas madeixas de cabelo douradas. A brisa compensava o calor produzido pelo sol. Apesar de me sentir confusa com o que se passava, a ausência dos barulhos não apreciados, era exatamente que eu necessitava. O meu campo de visão era limitado em relação à distância. Tudo o que eu podia ver eram as águas cristalinas a dançar num ritmo relaxante. Onde estou? Pensei para mim mesma. E era realmente uma boa pergunta a fazer visto que o cenário e principalmente o porquê do mesmo era ainda uma incógnita para mim. De repente, uma voz ecoa. Era uma voz feminina e rouca. Nela pude perceber a sua faceta de mágoas resguardadas que gritavam para sair num grito de desespero. A voz aproximava-se e os ecos que a imitavam tornavam-se mais profundos e fortes. Mas o que se está a passar? Onde estou? O reconhecimento da voz era cada vez mais evidente.

"Qual é o estado dela, Doutora? Quanto tempo ela demorará a acordar?" Era Clara. A voz dela ecoava entre as brisas do cenário paradisíaco que me encontrava.

"Não podemos determinar o seu tempo de coma, Miss Lancaster. É um milagre o coração de Miss Mars ainda bater depois do acidente que sofreu." Uma outra voz surge, aveludada e feminina. Esta deu passagem a nuvens que começaram a cobrir o céu previamente limpo.

"Por favor Mary Anna, volta para nós. Segue a minha voz, luta! Eu irei rezar a nosso Deus todo poderoso. Ele irá ouvir as minhas preces e irá trazer-te de volta!" A voz de Clara que transmitia as suas crenças religiosas, desvanecia, dando vez aos relâmpagos que rasgavam as nuvens escuras carregadas de água para se protestarem.

Chuva começou a ser derramada sobre a minha cabeça. O ambiente já não era calmo e relaxante como aparentava ser no início. As ondas estavam mais bravas e violentas e a escuridão da água transmitia o ambiente temível, contrastante à calma antes apresentada. O sol tinha desaparecido entre as nuvens escuras que reinavam o céu. Delas, os trovões brancos e barulhentos surgiam cada vez mais ferozes e ecoavam a metros de distância. O pequeno barco baloiçava de forma selvagem e eu tentava procurar equilíbrio entre as bordas do mesmo, com as minhas duas mãos. O meu coração acelerava a cada relâmpago visível nos ares. Aquilo que me parecia ser um sonho, apresentava sensações demasiado realistas para ser apenas um sonho. E por alguma forma, este "sonho" parecia ter sido já vivido por mim. Como se estivesse a cair constantemente numa brecha que me fazia reviver vezes sem conta a mesma história. Será este o meu lugar depois da vida?

"Eu não aguento mais vê-la assim, mãe... Porque é que ela nunca mais acorda? Eu quero tê-la nos meus braços novamente. Eu amo-a e não a posso perder... Eu não sei o que vou fazer se ela não acordar, não sei. Eu preciso da minha princesa!" A voz de Ryan pronúncia. E sem aguentar, os pequenos soluços que ele tanto reprimia, se libertam de forma abafada. A dor que sentia no meu peito ardia, como lava a pulsar pelo meu corpo através das artérias do meu coração. Eu queria abraçar Ryan. Garantir-lhe que tudo está bem e que teremos o final feliz que merecemos. Mas a vida parece não querer esse final tão cedo. Será que isto é apenas um teste que a vida me está a fazer? Será que ela quer testar a minha vontade de viver? E se isso for realmente verdade: será que as forças restantes que eu tenho são suficientes para me manter perante os vivos?

"Olá mana!" A voz da minha pequena Charlotte, alerta a minha atenção, entre os relâmpagos, cada vez mais fortes. "A Clara disse que tu estavas a dormir mas que eu podia falar que tu ouvias. Porque não acordas Mary? Eu tenho saudades tuas! A Clara também disse que estás num sono profundo, como a bela adormecida. E quando eu disse que precisavas que o príncipe encantado te beijasse, eles riram-se de mim! Assim nunca mais vais acordar! Eu pedi muito de força para que o Riri desse um beijinho mas quando ele deu, não aconteceu nada! Eu gosto muito dele mas eu acho que ele não é o teu príncipe encantado! Mas não te preocupes! Eu sei que o Jamie vai dar quando vier aqui outra vez! Eu amo-te muito Mary!"

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