Sexta-feira, último dia de trabalho da semana. Não que esteja com muita vontade de sair de baixo dos meus lençóis brancos de seda ou levantar-me do colchão maleável. Clico na pequena tecla do meu telemóvel. O ecrã ilumina mostrando as horas. 6h58. Ainda era cedo, Charlotte devia estar a dormir. Abri a primeira gaveta da minha mesa de cabeceira do lado direito da cama e retirei o meu diário juntamente com a caneta azul que nele escrevia. Reli tudo o que já tinha escrito a meu pai e decidi escrever mais um pouco.
"Querido pai,
Eu sei que já passou algumas semanas desde a última vez que te escrevi. Não te preocupes, eu não me esqueci de ti. Sabes que isso nunca irá acontecer. Apenas queria te manter informado das últimas ocorrências na minha vida. As férias acabaram, o que significa que voltei ao trabalho. Charlotte também começou a escola primária. No início, pensava que iria ser difícil a adaptação, visto que eram poucas as pessoas que ela interagia. Mas parece que estava errada. Ela adora a escola e todos os dias conta-me as suas aventuras com os seus novos amigos. Eu fico feliz de saber que ela está a adaptar-se bem à sua nova rotina. Em relação a mim, tudo está como estava. Mesma rotina, mesmo cansaço. Mas acho que já aceitei que a minha vida será assim durante uns bons anos. A Clara anda um pouco distanciada. Parece que esta descobriu as redes sociais e nelas encontrou um 'potencial namorado' como ela gosta de chamar. Estava receosa no início mas acabei por conhecê-lo e, francamente, ele é um encanto em pessoa. Eu fico feliz por ela. Contudo, Clara mostrou sinais de preocupação em relação ao meu estado. Ela diz que estou muito mais pálida, com olheiras bastante carregadas em tons escuros debaixo dos meus olhos, com os ossos da minha clavícula mais salientes,... a lista continua dos defeitos que ela vê em mim. E para ela o problema é nomeado por dois e apenas dois nomes: James Parker. Segundo a teoria da Dra. Clara (sem nenhum doutoramento), eu estou a sofrer uma depressão desde a partida de James. Sim, ele desapareceu. Nunca mais ouvi uma palavra dele desde aquela noite. Nenhuma mensagem, nenhuma chamada, nada. Como se nunca tivesse existido. Todas as noites recordo-me das últimas palavras por ele proferidas: 'Não me deixes'. Elas ecoam todas as noites, bombardeiam o meu cérebro até me deixar cair em exaustão e com o rosto coberto de lágrimas secas. Como pude deixar-me levar pela luxúria que nele habitava? Eu acabei por me magoar e ele teve o que queria. Homens são lixo (menos tu, pai). E o que eu mais odeio é que, eu ainda tenho esperanças que ele volte para mim. É estúpido não é? Esperar alguém voltar quando nunca sequer foi teu. E é assim que me sinto: estúpida, confusa, triste, com raiva,... tanto sentimento junto para uma mente só. Talvez não fui feita para amar. Talvez o meu amor seja Charlotte e somente Charlotte. É nela que me devo focar. Nela e no futuro dela. E é por isso que decidi candidatar-me à oferta de emprego que a KK's Magazine está a oferecer neste momento. Eu sei que é ridículo e que eu nunca conseguirei um emprego numa, senão a revista mais conceituada em todo o mundo. Mas boas notícias chegaram ontem à noite. A secretária de Katherine King (mulher que mais admiro neste mundo), ligou-me afirmando que a minha candidatura à posição tinha sido aceite e que teria oportunidade de conhecer a Miss King esta sexta-feira às 17h em ponto. Adicionou também algumas regras que Katherine King não tolera serem quebradas, nomeadamente atrasos, vestuário inadequado, entre outras. Tratei de memorizar tudo para que desta forma eu consiga o emprego que sempre quis. E novas oportunidades veem simultaneamente com este emprego. Uma vida melhor não só para mim mas para Charlotte. Sobretudo pela Charlotte. Só me resta agora esperar e dar o meu melhor na entrevista. Deseja-me sorte aí de cima, pai!
Com muito amor,
Mary Anna"
Pousei o meu diário e caneta na mesa de cabeceira enquanto soltei um leve suspiro. Estava na hora de acordar Charlotte para começarmos o nosso dia. Dirijo-me ao seu quarto e vejo que esta ainda se encontrava a dormir. Nestes últimos dias, Charlotte tem andado bastante cansada com a sua nova rotina e por isso os minutos extra da manhã eram, para ela, sagrados. Assim que alcancei a sua cama, sento-me na mesma fazendo-a contorcer em desaprovação.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Suites&Ties[EM PAUSA]
RomanceMary Anna é uma rapariga de 19 anos que perdeu o seu pai recentemente e foi abandonada pela mãe alguns anos atrás. Ficou completamente sozinha a sustentar a casa e a irmã. O que Mary não sabe, é que a sua vida irá mudar drasticamente apenas conhece...
![Suites&Ties[EM PAUSA]](https://img.wattpad.com/cover/47166695-64-k915901.jpg)