Capítulo 4

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Posicionei o carro à espera o portão da garagem do prédio onde estava morando se abrir. Enquanto acompanhava a subida do portão de ferro senti um calafrio ao perceber que havia alguém parado do lado de fora, bem próximo à porta do lado do carona, me observando. Levei alguns segundos para, finalmente, tomar coragem de olhar para o lado: era Miguel. Lindo, de terno cinza, sem gravata, paletó aberto, mãos no bolso, me encarando com o semblante fechado, de uma forma tão compenetrada que eu não consegui decifrar o que ele poderia estar pensando. Não fazia sentido, mas assim que meus olhos encontraram os dele meu coração por um momento pulsou errado.

Abaixei o vidro do carro e ele se aproximou: - Lina, não sou um louco perseguidor, só quero conversar com você. – afirmou com o sorriso mais lindo e cafajeste que já tinha visto em toda minha vida enquanto se abaixava para ficar na altura da janela do carro.

Eu sorri e pedi que me esperasse na recepção. Subi ao térreo e o encontrei de pé à minha espera: - Miguel, vamos subir e a gente conversa lá em casa.

Antes de abrir a porta do apartamento respirei profundo e o adverti com verdadeiro pesar: - Estou envergonhada com o que você vai ver, mas não estava esperando visita... – suspirei mais uma vez e completei – E não estou falando sobre bagunça...

Ele não me respondeu, apenas manteve-se firme à espera de que eu abrisse a porta. Eu estava certa quanto à decepção que ficou clara no olhar perdido que percorreu toda a sala que nada mais era que um lugar triste, com paredes recém pintadas em cinza claro e nenhum móvel, nem mesmo uma mísera cadeira, apenas duas caixas grandes de papelão que ainda não haviam sido abertas.

Tentei amenizar o clima deprimente (reflexo da situação da locatária do imóvel) abrindo um sorriso e falando num tom divertido: - Não é tão ruim assim... Venha conhecer o resto do apartamento: olhe a cozinha, geladeira velha, fogão caindo aos pedaços e esta enferrujada mesinha de ferro acompanhada de sua única cadeira também enferrujada. - Miguel forçava um sorriso e sem dizer nada continuava me acompanhando em silêncio – E por fim o quarto, decorado com esta cômoda sem duas gavetas, esta arara esquecida de alguma loja e atrás da porta, thanrã, uma incrível sapateira de plástico! – levantei rapidamente as sobrancelhas e concluí: - Fiz um acordo com o dono do imóvel e ele me deixou ficar com os móveis que estavam aqui. Foi um ótimo acordo, paguei um condomínio que estava atrasado e fiquei com tudo. – sorri.

Miguel encostou numa das paredes do quarto, passou as mãos pelos cabelos e deu um sorriso forçado de canto de boca: - Lina, desculpe se vou parecer intrometido, mas me preocupo com você... seu ex-marido te deixou em apuros financeiros – indagou com seriedade.

- Não. – respondi entortando os lábios para um dos lados do rosto e balançando a cabeça em negativa.

Ele ajeitou o corpo, desencostando-se da parede. Em seguida passou as mãos nervosamente pelos cabelos e concluiu: - É pior que isso, não é? Você não está conseguindo superar a separação.

Levantei os ombros e preferi não responder: - Sente-se aqui na cama. – pedi com doçura, batento de leve no colchão - Desculpe, Miguel, mas só tenho água para te oferecer. – afirmei ajeitando-me ao seu lado.

- Obrigado, Lina, eu não quero nada. – respondeu com um suspiro forte e depois mudou completamente o semblante abrindo um sorriso animado – Aliás, vim até aqui porque quero uma coisa: te levar para jantar hoje.

Eu estava me preparando para recusar mais uma vez o convite, mas ele se antecipou: - Calma, eu já me conformei que você não quer nada comigo. – concluiu sorrindo – Eu não vou mais insistir, quero apenas jantar com você e tentar desfazer qualquer má impressão que tenha de mim.

Não ResistoOnde histórias criam vida. Descubra agora