Raridade é ter a oportunidade de amar um só coração em duas pessoas diferentes.
Oito anos após a morte de seu primeiro esposo, Rara encontra o amor novamente residindo no peito do político Caetano D'Ovant, o receptor do transplante de coração de se...
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Como veias expostas sob a fina espessura da pele, raios assumiam a forma de sinuosas correntes de eletricidade atmosférica. O reluzir de sua vigorosa luminescência seria capaz de cegar até mesmo as mais resistentes íris. Naquela madrugada, o céu se assemelhava a uma tela de pintura enegrecida, sua vastidão iluminava-se pelos cortes de luz enviados pelo universo na companhia do gritar da noite ressoando como trovões bradados por vozes divinas. Em meio à ventania, árvores dançantes lutavam bravamente para manterem-se enraizadas e não serem arrancadas do solo pela força das intensas rajadas de um vento impetuoso.
No enlace das paredes do Palácio, protegida de todo o caos natural, Rara D'Ovant observava através das vidraças a bravura de um alguém que se dispunha a enfrentar a ira dos céus ousando colocar-se em posição tão vulnerável às ameaças da caótica tempestade. Protegido sob um mísero casaco, o alguém avançava os degraus. Havia pressa em seus passos, ansiedade em sua forma afobada de se mover. Ao aproximar-se, a pessoa tomou forma e foi reconhecida pelos olhos atentos que a observavam. Rara plantou um sorriso contente no rosto, sem medo de expor os dentes envoltos pelos fartos lábios tingidos de vinho.
E foi genuíno.
Toda sua graciosidade se moveu com ela da janela até a porta principal, abrindo-a no exato momento em que a visitante venceu a escadaria.
— Senhorita Mazza! — saudou a viúva, oferecendo seu melhor sorriso. — A que devo a honra?
As iluminadas mechas de Heloise desgrenharam-se todas em sua luta contra a impiedade do vento. Fios pendiam sobre seus olhos sem obstaculizar a troca de olhares que ocorreu entre as duas mulheres ao se encontrarem. A delegada ofegava pela breve corrida enquanto em sua mente incontáveis questões se formavam, como a origem de toda aquela simpatia.
— Preciso te fazer algumas perguntas.
Irredutível, Heloise burlou a boa educação e adentrou o Palácio, passando por cima do convite de braços estendidos que Rara ofereceu. Aos pés da escada, quatro espaçosas malas aguardavam por seu destino. Tomada por surpresa, correu os olhos até Rara, e só então notou as vestes da viúva. Um robe de tela repleto de transparência envolvia parcialmente seu corpo, sem laços ou amarras, revelando a lingerie cujas rendas se encarregavam de cobrir pequenas partes. Calçava indiscretos saltos tão finos quanto as meias que revestiam de seus pés até acima de seus joelhos, onde uma cinta-liga se prendia ao espartilho e estendia suas tiras até o choker preso como uma coleira ao pescoço de Rara.
Seu olhar era pesado, carregado de sombra escura. Seus lábios deixavam a marca do batom na taça de vinho que ela carregava em mãos.
Indubitavelmente, toda negra. Desde sua pele, às ondas dos cabelos e sua vestimenta. Heloise apenas já não estava mais tão certa sobre o termo viúva. Toda aquela sensualidade em preto não remetia nada ao luto.