Capítulo III

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As chamas lamberam as paredes como se fossem feitas para aquilo. Os móveis, as fotos, tudo o que estava no caminho do fogo era consumido e alimentava as labaredas que estalavam assustadoramente. Mikoto tossia, a porta fechada do quarto enquanto abraçava o corpo dos filhos pequenos e rezava com fervor. O fogo chegou à porta, o filho mais velho em seus braços havia desmaiado, a respiração tão fraca que ela chorava com medo de que ela fosse uma ilusão e lhe segurasse apenas o cadáver. Sasuke chorava, a tosse forte, o corpo mole agarrado ao seu vestido.

Sasuke assistiu à perda de consciência da mãe. Gritava e tentava acordá-la, mas era em vão, embora viva, ela não o respondia. O calor o queimava pela proximidade, e a esperança era apenas uma palavra boba na boca de um menino de cinco anos. Até que o viu...

Podia ser Deus, podia ser um anjo, podia ser uma pessoa qualquer, mas era alguém parado em meio às chamas que lhe estendia a mão. Sem saber o motivo para tal irracionalidade, correu, assustado, na direção do fogo, o grito tornando-se ensurdecedor enquanto a pele era queimada e se sentia carregado para longe. A casa desabou, e Sasuke não permaneceu acordado a tempo de ver-se sendo colocado entre as madeiras, entre as cinzas, ao lado dos corpos incinerados da própria família e com um terço intacto ao redor do pescoço bem à vista.

Milagres podiam acontecer e, quando não aconteciam, bastava uma pequena farsa para simulá-los, não é?

— O que está procurando, Sasuke?

— O que você está fazendo aqui? — Sasuke perguntou, mas não se mostrou surpreso com a aparição de Naruto ao seu lado.

— O sonho é seu, Sasuke, estou aqui porque foi onde você me colocou. — Naruto sorriu.

Mentiroso — Sasuke devolveu e sorriu de canto ao fazê-lo.

— Aprendendo a jogar, padre?

— Saia da minha cabeça.

— Tire-me dela.

Sasuke suspirou, e Naruto sorriu ao piscar um dos olhos e então desaparecer.

— Acorde. Sasuke, acorde! Por Deus, garoto, acorde!

Sasuke abriu os olhos, panos molhadas e gelados eram pressionados contra seu rosto, e ele reconheceu fácil Kakashi debruçado sobre si. Não havia mais sinal de fumaça, do calor do incêndio ou da brisa fresca que tinha aparecido com Naruto. Não estava mais sonhando, e isso, de alguma forma, era decepcionante...

— Ele acordou! Água! Me dê água, Sakura!

Estava em seu quarto. A cama era a sua, o colchão moldava-se fácil às costas e era confortável, o aroma de papéis e tinta do quarto o tornava inconfundível, e ele relaxou por se localizar com facilidade.

— Aqui, tome, com calma — Kakashi o ajudou a se sentar, a mão livre lhe entregava o copo com água, e o médico o assistia atentamente beber cada gole. — A febre está baixando, como se sente?

— Bem... — respondeu, surpreso, sem sombras do mal-estar de antes, sem nada que indicasse que sua saúde estivesse abalada.

— Sem dor? Sem enjoo? Está me ouvindo bem? Quantos dedos tem aqui? — Kakashi questionou sem pausas, e Sasuke franziu o cenho ao empurrar os dedos erguidos diante de seus olhos.

— Estou bem, Kakashi — resmungou.

— Você desmaiou no meio da missa, Sasuke, e quando cheguei perto estava tão quente que achei que morreria pela febre! Passou a madrugada inteira lavado em suor e agitado!

— Não foi dessa vez então.

— Sasuke!

— Kakashi, entendo sua preocupação, mas agora eu estou bem. Não me sinto mal; pelo contrário, acho que nunca me senti tão disposto. Acho que Deus não achou que de fato fosse a minha hora ainda.

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