Elisa nunca se importou em acompanhar o pai a cada nova transferência de trabalho. A jovem costumava encarar aquelas mudanças de um jeito otimista e confessava gostar de não se ver presa a um só lugar. Os prós de levar uma vida nômade envolviam: nun...
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As malas estavam sobrepostas na carroceria do nosso Strada 2014. O espaço no banco traseiro não era farto, mas depois de anos de mudanças, parecia quase confortável.
Minha mãe tomava o lugar do passageiro, ao lado do meu pai, que dirigia há pelo menos 7 horas. Ela montava um sanduíche de queijo. Parecia animada, mas no fundo, eu sabia que lamentava por ter deixado a horta que havia começado a cultivar no nosso último jardim.
Acho que apesar de mais nova, eu estava mais habituada com a ideia de não me apegar a nada. Afinal, por que criar uma ligação, se sabia que depois de alguns meses não estaria mais ali?
Meu pai trabalhava como militar desde que me lembrava. Minha mãe costumava dizer que ele era um artista frustrado, mas eu não tinha recordações dessa época. Só conseguia pensar em nós assim, indo e vindo de um lugar para o outro.
Um militar pode ser movimentado a qualquer época do ano, para qualquer região do país. Eu e minha mãe dávamos nosso máximo para acompanhá-lo em todos esses deslocamentos, mesmo que às vezes isso significasse largar nossos planos pela metade.
Sendo sincera, eu nunca me importei tanto com isso. Não se pode sentir falta de algo que não se teve e estabilidade sempre foi uma coisa que não me pertenceu. Acho que esse era o grande motivo pelo qual minha mãe sofria nas mudanças. Ela conhecia a sensação e sentia falta de pertencer a algum lugar.
Eu admirava a relação dos meus pais. Seria o tipo de relacionamento que eu tentaria construir se houvesse espaço para isso na minha vida.
Eu gostava de ouvir, ler e especialmente escrever sobre o amor, mas não o conhecia de fato. Não que eu nunca tenha tido uma queda por um garoto antes, mas nunca foi algo concreto. A maioria dos caras pelos quais me interessei, nunca souberam do que eu quase senti.
E foi em meio a esses devaneios que cheguei a Brígida, meu novo lar pelos próximos meses, até o nosso destino ser redesenhado mais uma vez.
A cidade era encantadora e apesar de ser relativamente pequena, era mais movimentada que as outras três em que moramos nos últimos anos.
— Lar doce lar — afirmou minha mãe, suspirando e tentando parecer satisfeita.
— Com sorte, conseguimos colocar as caixas na sala de estar antes de anoitecer — disse meu pai. — Pensei em sair pra ver o pôr do sol. O que acha, Lis?
Eu não disse nada, apenas sorri e esperei que isso bastasse. Não que eu não estivesse empolgada com a mudança, mas já levava esta vida nômade tempo o bastante para saber que todo pôr do sol é igual.
A cidade tinha um clima tropical que não combinava muito com a calça jeans que eu estava usando naquele fim de tarde. Isso foi enfatizado no momento em que saltei do carro e senti o suor escorrer em meu corpo.