Alexandra, na manhã que se seguiu àquele encontro traumático com Harry, acordou com a cabeça pesada, dolorida e o estômago contraído. A Srta. Holland logo diagnosticou uma gripe e insistiu que o sr. Styles chamasse um médico.
— Não é necessário! — disse Alexandra, muito fraca, tentando levantar a cabeça do travesseiro, mas a Srta. Holland foi categórica, e a obrigou a deitar-se novamente.
— Todo cuidado é pouco — falou, com convicção. — Não podemos ter certeza se não se trata de uma gripe especial. Pode ser até pneumonia!
— É um resfriado, Srta. Holland — Alexandra insistiu, mas um acesso de tosse a fez calar. — Preciso de uma aspirina e de alguma coisa quente, e depois tenho que ficar de cama o dia todo. Amanhã eu estarei melhor.
Mas a Srta. Holland não era fácil de se convencer e quinze minutos depois apareceu em companhia de Estelita.
Alexandra não esquecera o olhar desconfiado com que Estelita recebera a Harry e a ela, na noite anterior, quando os dois chegaram juntos. Estava no hall e Alexandra não conseguira dissimular a confusão que sentia, e que um intenso rubor revelava. Tivera a sensação de que Estelita sabia perfeitamente o que havia se passado, e a julgava a única culpada. Mesmo na certeza de que não havia nada que a denunciasse, aquele olhar sombrio quase fizera seu sangue gelar.
De manhã, o olhar de Estelita estava indecifrável: havia ao mesmo tempo desprezo e divertimento nele. Alexandra gostaria de saber o que exatamente Harry dissera a ela.
— O sr. Styles já saiu para o campo — explicou a Srta. Holland. — Por causa disto pedi à Sra. Vargas que subisse para nos dar a sua opinião.
Alexandra não respondeu e viu que a boca de Estelita se entreabria num sorriso irônico.
— A Srta. Holland me disse que você tem dores... aqui — disse, enquanto batia a mão em seu próprio estômago. — Teve vômitos?
— Não — Alexandra respondeu, sacudindo a cabeça.
— Acho que ela precisa ser examinada por um médico. Pode ter comido alguma coisa que lhe fez mal, e isto seria perigoso.
— Estou resfriada! — exclamou Alexandra inutilmente, enquanto Estelita começou a protestar vivamente, dizendo que sua comida não fazia mal a ninguém.
Aquela discussão não teria fim se Alexandra não precisasse correr para o banheiro e voltasse de lá fraca e trêmula, depois de vomitar bastante. Estelita já tinha ido embora e só a Srta. Holland a esperava.
— Eu disse à Sra. Vargas que eu pretendo chamar um médico — declarou com segurança, ajeitando os lençóis.
Alexandra não tomou conhecimento do que acontecia. Incapaz de engolir qualquer coisa a não ser uma limonada, tinha a impressão de que nunca mais teria forças para se levantar. Nem mesmo o caldo de galinha que a Srta. Holland preparou, enfrentando a ira de Estelita, parou em seu estômago, e seu abdômen doía por causa das contrações constantes. Sentia-se miserável e sabia que a aparência mostrava seu estado. Por causa disto, ficou aliviada quando Harry não procurou vê-la.
O médico era um homem de meia-idade, baixinho e vivo, que clinicava em Puerto Novo. Chegou no fim da tarde. Depois de se certificar de que não havia inchação ou inflamação, diagnosticou um leve ataque de gastrite, agravado com uma gripe. Deixou remédios e instruções para que Alexandra permanecesse de cama o resto da semana.
— Está vendo? Era só um resfriado. Nada muito sério. E agora Harry vai ter que levar o médico até Puerto Novo e guiar de volta no escuro!
— O sr. Styles não vai voltar hoje — disse a Srta. Holland. — Ele falou que tem alguns negócios para tratar por lá e que era preferível passar a noite em um hotel e voltar amanhã de tarde.

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Anjo Loiro
RomanceAlexandra era tão pura quanto uma criança. Criada num convento, não conhecia os segredos da vida e nem sabia a diferença entre a amizade e o amor que une um homem a uma mulher. Depois da morte do pai, foi viver numa fazenda no Uruguai, com Harry, se...