Teus olhos

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     Ao som do apito, a partida se iniciou, meus olhos agora estava não estavam apenas marejados, o pranto havia se iniciado.Em mim, perpetuava o medo, não de perder aquele jogo, isso não mais importava, mas de acontecer outro tiroteio ali, onde estávamos desprotegidas e distraídas.

     Com toda a equipe desestabilizada, estava óbvia nossa derrota, uma sequência de faltas e penalizações ocorreu, o que me fez ficar dois minutos fora de quadra, apenas assistindo o desastre que estava a acontecer.

     Por mais que fosse sincera nosso medo, queríamos ainda assim passar para a próxima fase e, por isso disputamos, literalmente demos nosso sangue, muitas se machucaram durante a partida, com uma queda, torci o tornozelo e acabei indo para o banco.

     A goleada que levávamos era humilhante, muitas vezes pensamos até em desistir e voltar para o ônibus, mas já estávamos ali, só nos restava jogar, mesmo que de nada adiantasse. O apito final foi dado, a equipe adversária comemorava sua classificação, diversas colegas, vi chorar, nesse momento, meu pranto já havia se cessado, estava conformada.

     Com dificuldades para andar, me dirigi ao ônibus, que mais uma vez se encontrava em silêncio, exceto por algumas meninas que discutiam por passes errados, gols não defendidos, o que naquele momento, de nada adiantava.

     Chegamos à escola, um banho era necessário para acalmar os ânimos, evitando fila e possíveis discussões, me dirigi ao banheiro. Ao voltar para o quarto, haviam colegas chorando, gritando,  mostrando seu descontentamento, pedindo para ir embora e sequer pensando que ainda havíamos de ficar e sermos torcida para a equipe masculina.

     Compreendo a vontade, também quis ir para casa após todo aquele trauma, mas algo dentro de mim pedia para que eu ficasse ali, aproveitasse cada segundo que ainda pudesse ter ao lado de Luiza, beijá-la novamente ou pelo menos poder olhar naqueles olhos mais uma vez.

     Estava cansada, a dor no tornozelo foi cessada depois de alguns analgésicos mas mesmo assim preferi ficar deitada por um tempo. Trocava mensagens com Luiza, ainda havia de vê-la hoje, mas as aglomerações pela escola tinham se encerrado, não haviam mais brincadeiras que englobavam diferentes equipes, apenas alguns grupos isolados, acredito que por medo ou desânimo, à essa altura, muitas das equipes já tinham sido desclassificadas e algumas até embarcariam de volta para casa amanhã.

     Após não muito tempo, resolvi ir jantar, dessa vez não a vi ao chegar no refeitório, jantei tranquilamente na companhia de algumas amigas porém, com vontade de vê-la. 

     Perguntei-a onde estava, e logo ela me respondeu dizendo que estava próxima ao seu quarto, jogando cartas e conversando com alguns amigos. Resolvi ir procurá-la e a encontrei sem muita dificuldade, sentada numa rodinha de amigos, estava animada, o brilho do seu sorriso resplandecia por todos os cantos, quando me viu pareceu surpresa, fazia poucos segundos desde o momento que visualizou minha mensagem onde anunciava minha chegada.

     Por um tempo, fiquei atrás da cadeira que ela estava, sentia, por diversas vezes, seu olhar disfarçado sobre mim, e a cada olhar, sentia o arrepio percorrer meu corpo, a vontade de tocá-la aumentava exponencialmente a cada vez que ouvia sua voz ou seu riso. Assim que uma cadeira foi desocupada, sentei-me ao lado dela, incrivelmente, por um momento pareceu tímida com minha presença mas logo se soltou. 

     Alguns instantes após o fim do jogo, alguns amigos dela começaram a cantar, estava animado, queria poder passar minha vida toda ali, em meio ao canto, risadas, algumas brincadeiras e, principalmente, o sorriso dela.

     Infelizmente, como tudo que é bom dura pouco, as horas acabaram passando e precisei voltar ao quarto no toque de recolher, queria poder me despedir dela com um beijo, o beijo que tanto anseio repetir, mas nem sequer um abraço foi dado, talvez por não querer demonstrar, ou por não querer causar nenhuma suspeita.

     Me direciono ao quarto, estava cansada, realmente queria dormir, mas a sensação de insegurança permanecia em mim, me deitei ao lado de Eduarda,a qual ficou ali por pouco tempo, disse sentir cede e saiu para encher a garrafinha. 

     Estava esperando por ela, o tempo passava e ela não voltava, decidi procurá-la, fui no banheiro, onde pensei que possivelmente estaria, não a encontrei. Resolvi ir até o bebedouro, mas ela não estava lá.

     Preocupada e pensando no pior, resolvi chamar algumas meninas para me ajudar e com elas, vinham algumas "tias", que estavam extremamente preocupadas, talvez até mais do que eu, pois elas eram as responsáveis por nós.

     Em minha cabeça passava muitas coisas, a possibilidade de ela estar com algum menino, traindo Vinícios, ou pior, de não estar na escola, de ter desaparecido, de algo sério ter acontecido, não precisava de mais fortes emoções após o tiroteio.

     Saímos a procura dela, andamos uma boa parte da escola, olhamos pelos cantinhos e estávamos pensando em bater de quarto em quarto. Não podíamos gritar, muitas pessoas provavelmente já estavam dormindo. 

     Após muito andar, uma das tias resolveu chamar o segurança, questionar se não a havia visto, ele disse não saber, e o desespero em nós aumentou. Depois de algum tempo, ele se lembra de ter avistado ela andando com alguns meninos em direção à algumas árvores. Saímos mais uma vez a sua procura, felizmente, conseguimos encontrá-la. Sentada embaixo de uma das árvores, com cinco ou seis meninos ao seu redor, conversando tranquilamente com eles.

     Ok, talvez eu tenha me preocupado demais, mas já passava da meia noite, estava a quase duas horas sem ter notícias dela, sem saber seu paradeiro, já estava pensando como contaria à sua mãe que ela havia desaparecido, mais uma vez entrando em desespero nessa viagem.

     Voltamos ao quarto, mais uma vez me deitei na intenção de dormir, lembrar dos olhares e sorrisos de Luiza era o que me acalmava, por muitas vezes a imaginei ali, ao meu lado, dormindo como um anjo que havia de ser. Ela mexe comigo em todos os sentidos, percebo que está a predominar nos meus sonhos, nos meus pensamentos, até nas conversas com meus amigos. Me questiono a todo momento como isso aconteceu, como pude me entregar tão facilmente à ela, é algo estranho, parece ser uma conexão de outras vidas, é inexplicável o quanto seu olhar muda meu dia, como hoje, que me fez esquecer de toda a tragédia, do jogo ruim e da noite mal dormida.

    Dessa vez, adormeço, vendo ela mais uma vez em meu sonho e ansiando tê-la em minha vida.

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