A Órfã e a Violinista

29 3 1
                                        

Quando Nádia concordou e acompanhar seus pais em uma visita até aquele orfanato no norte de Moscou, jamais poderia imaginar o que encontraria lá. Era filha única, mas quando completou quinze anos seus pais decidiram que queriam um filho.

   Ela não ligava em ter um irmão, apenas não queria ter que acompanha-los. No fim, aquilo acabou sendo conveniente, pois foi lá que ela a conheceu.

   Enquanto seus pais conheciam as crianças menores que ficaram no parquinho no interior do edifício, Nádia decidiu explorar o lugar. Foi quando a viu próximo ao jardim.

   Usava um vestido azul, um chapéu e luvas brancas e grossas. Notou que ela acariciava as rosas que resistiram ao frio do inverno russo naquele período. Não pensou muito naquele momento, apenas se aproximou.

   — Oi — disse Nádia.

   A menina, que estava abaixada, levantou o olhar para ela. Ela notou que seus olhos eram azuis, cabelos negros e uma pele tão pálida que se camuflada com a neve intensa no chão .

   — Oi — disse a garota em resposta.
  Ambas ficaram caladas por alguns instantes. Nádia resolveu falar.

   — Sempre admirei essas flores.

   — Como assim?

   — Elas... Florescem mesmo no inverno. São fortes. Eu as admiro.

   A garota sorriu e voltou a olhar as flores.

   — Sou Nádia. Como se chama?

   — Me chamo Natasha.

   Ela apertaram as mãos. Natasha falava timidamente com ela. Nádia se perguntou se ela seria uma órfã. Ela aparentava ter uns dezesseis anos; talvez fosse, mas não perguntaria.

   Natasha levantou-se de costas para ela e quando virou, lhe entregou uma rosa. Nádia ficou um pouco sem ação mas o sorriso tímido de Natasha a fez aceitar o presente. Natasha tinha um olhar doce que caia sobre Nádia e a fazia sentir-se relaxada, mesmo não a conhecendo.

    — Obrigado pelo presente, senhorita Natasha. É realmente muito linda.

    Natasha sorriu para ela. Mas antes que ambas pudessem dizer qualquer coisa, uma voz veio ao longe.

    — Nádia.

   Era sua mãe, que acenava a chamando. Ela olhou para Natasha outra vez.

    — Adeus — disse Natasha.

    — Bem... Eu vou voltar. Meus pais ainda estão no processo de adoção. Irei vê-la aqui outra vez quando voltar?

    — Sim.

    — Então até mais.

    Natasha fez uma reverência pouco antes dala ir. Foi adorável, aos seus olhos. Quando chegou até sua mãe, ela a esperava com as mãos no quadris. Provavelmente iria lhe dar uma bronca.

   — Nádia, Nádia.... Porque estava falando com aquela moça. E essa flor na sua mão?

   Ela nunca foi boa em mentir, então apenas lhe contou a verdade.

   — Conheci ela apenas a alguns instantes... Ela é legal, e me deu isso.

   — Espero que não ache que iremos adotar uma menina de... dezesseis? Não. Nós queremos uma criança.

   — Eu não pensei...

   — Já para o carro.

   Ela foi em silêncio para o carro onde seu pai já as esperava. Não falou nada durante seu trajeto até a sua casa. Porém, mesmo estando longe do orfanato, seus pensamentos estavam em Natasha. Não admitiria que se apaixonara por ela. Talvez não fosse paixão. Mas porque sempre que pensava nela apertava a flor junto ao corpo, como se aquilo a deixasse mais próxima dela? Aquilo era loucura; só a conhecia a um dia. Como ela era linda, pensava Nádia vez ou outra.

   Durante a semana, ela não viu a hora de voltar ao orfanato. Ela morava em um bairro nobre de Moscou que ficava a poucos quilômetros do lugar. Poderia ir andando ou de bicicleta, mas seus pais a matariam.

   Em uma tarde de sábado seus pais a chamaram para visitar o orfanato outra vez. Eles já haviam escolhido o garoto a ser adotado, e estavam na fase burocrática. Ela estava tão ansiosa que entrou no carro antes dos pais. Pensou em levar seu violino.  Nádia tocava em um teatro duas vezes por semana, aquele era seu maior dom. E esperava imprecionar Natasha. Mas na última hora decidiu deixá-lo em casa. Tocar violino para uma garota? Clichê demais.

   Quando finalmente chegaram ao orfanato, seus pais foram ver o garoto, que correu ao encontro deles assim que os viu. Era um menino de cinco anos e loiro; talvez fosse um bom irmão, afinal a abraçou também. Logo após as apresentações, seus pais se dirigiram para a sala do diretor e ela saiu andando pelo orfanato.

   O lugar era enorme, como a encontraria ali? Ela andou por todo o primeiro andar mas não a viu. Olhou por uma janela rumo ao jardim, mas ela não estava lá. Quando já havia desistido de procurá-la, ouviu um canto. Uma voz doce que ecoou pelo corredor suavemente. Ela se viu parada em frente a uma porta entreaberta. Quando a empurrou, viu Natasha em cima de uma cama rodeada de folhas e desenhos.  Ela levantou os olhos assim que a viu, e um sorriso encantador surgiu em seus lábios.

    — Nádia.

    — Finalmente encontrei você — Nádia entrou no quarto olhando ao redor.

    — Não sabia que viria hoje, desculpa.

    — Tudo bem.

    Naquele dia, Natasha usava um vestido lilás com um cachecol vermelho.

    — São desenhos ótimos. — disse Nádia. Na cama haviam vários desenhos de paisagens em vários momentos do dia. Ela segurou um. Era um desenho de uma margem de um rio com uma fogueira e a lua cheia bem acima com um lindo reflexo no lago.

   — Gostei desse.

   — Esse lugar fica a poucos quilômetros daqui. Fui uma vez com o pessoal. Mas.. Foi durante o dia. Desenhei uma noite de lua porque é assim que imagino a noite naquele lugar. Como nunca fui a noite então desenhar é a melhor opção para visualizar.

   — Interessante. Você tem talento.

   — Obrigado. Vamos dar uma volta?

   — Claro.

  Natasha pulou da cama e colocou luvas. Elas saíram do quarto e começaram a caminhar pelos corredores. Nádia sentiu-se nervosa quando Natasha tocou seu braço sem querer em determinado momento. Natasha , como sempre ficou tímida com o toque. Um único toque de um milésimo que causou efeito em ambas.

   Elas caminharam por todo o orfanato conversando sobre suas vidas. Nádia falou sobre suas aulas de violino e Natasha a fez prometer que tocaria para ela quando se vissem outra vez. Também falou sobre o desejo de seus pais de adotar uma criança entre outras coisas.

   Durante a conversa, Nádia notou um colar no pescoço de Natasha. Um pequeno pingente branco que parecia uma pedra. E brilhava mesmo na sombra.

   — Adorei seu colar — disse Nádia.

   — Ah obrigada. Foi a única coisa que herdei dos meus pais.

   — O que houve com... Não. Não quero ser intrometida.

   — Tudo bem — Natasha sorriu ao dizer isso. — Eles morreram tragicamente quando eu era pequena. Meu pai era um arqueólogo e minha mãe professora. Esse colar pertencia a meu pai. Ele encontrou em sua escavação na Alemanha a alguns anos.

   — É realmente lindo.

  Elas chegaram a um banco no jardim. Já havia parado de nevar naquele momento, mas a neve no chão estava grossa. Natasha continuou:

   — Bem, quando eu era pequena meu pai... Ele... Matou minha mãe. Nunca soube o porquê.

   — Nossa. — indagou Nádia horrorizada com aquela história.

   — Ele me deixou uma carta me pedindo para me desfazer da pedra. Mas acho que ele estava louco. Não falou coisa com coisa na carta. Bom, eu guardei o colar comigo. Desde então não me separo dele.

   Nádia decidiu trocar de assunto. Então elas conversaram sobre muitas outras coisas.

   Naquele final de tarde, elas ficaram juntas todo o tempo. Para Nádia, Natasha era uma ótima companhia. Seu sorriso era cativante e aquilo sempre desperta a algo em seu âmago. Algo que ela não conseguia identificar com clareza mais sabia que era forte.

   Quando se despediram naquela tarde, Nádia se distanciou contra sua vontade. Voltou para sua casa, e para sua vida, mas ela estava diferente. Sentia falta do olhar de Natasha. Queria voltar e desfrutar de seu Eu mais e mais. Naquela noite teve um ideia, talvez não fosse legal, mas com certeza Natasha iria gostar.


Romances Indignos Onde histórias criam vida. Descubra agora