II: Noite Feliz

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Um fato conhecido por todos, seja aqui, em Marte ou no fim do mundo (que provavelmente você não vai encontrar, porque obviamente a Terra é redonda), é que Samuel Sousa é aficcionado por lendas

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Um fato conhecido por todos, seja aqui, em Marte ou no fim do mundo (que provavelmente você não vai encontrar, porque obviamente a Terra é redonda), é que Samuel Sousa é aficcionado por lendas.

E não. A palavra aficcionado, não está normalmente no meu vocabulário, ou estaria se não fosse por influência dela. De uma maneira bizarra Gwen carregava um dicionário para cima e para baixo sempre que podia, e a sua obsessão com palavras só aumentou quando tinha dez anos e conheceu o meu avô, o aficcionado por lendas.

Desde então, eu nunca mais consegui dizer que ele gostava de lendas, só saia aficcionado por lendas e assim continuou. Minha mãe ficou eternamente grata por Gwen ter melhorado o meu vocabulário.

Voltando a falar do avô Samuel; ele sabia de tudo sobre lendas. Era um sabe-tudo nessa área. Acho que esse saber acaba até ultrapassando os limites ao ponto dele acreditar realmente nessas lendas.

E por que eu estou pensando em tudo isso enquanto a minivan sacoleja pela estrada em direção a uma velha casa de madeira?

Porque é muito provável que o meu avô passe mais uma noite da véspera de natal e a madrugada do feriado para tentar encontrar o Papai Noel. E também é bem provável que ele queria me arrastar para essa maluquice.

Nada contra o Papai Noel, o bom velhinho me rendeu boas lembranças na infância em natais passados. Mas a questão é que, essa não é a minha ideia de "espairecer no feriado".

Minha mãe e a tia Carla resolveram que seria uma boa ideia viajar para a cabana dos meus avós nessas festas de final de ano. E passar o Natal e o Ano-Novo num lugar distante da capital e do que aconteceu "faria bem a todos".

Eu achei uma boa ideia, principalmente para a tia Carla que estava precisando de um tempo para pensar, e a pequena floresta atrás do lago serviria para isso.

Mas o maldito problema é que o lugar está cheio, repleto, quase que inundado com lembranças da Gwen. Passávamos os verões, finais de semanas e feriados (prolongados ou não) lá. E seria uma missão impossível passar duas semanas lá sem sentir a falta dela e continuar com a sensação horrível de que estou manchando a imagem dela, ou que ela está se perdendo. Como areia escorrendo entre os meus dedos.

— Lá é muito bonito Carla. — minha mãe disse para a mulher de cabelos loiros à sua frente. — Você vai adorar. Ela não vai adorar a cabana dos seus avós, Felipe?

Tirei um dos fones e confirmei com cabeça, botando o fone de volta logo depois.

O som de jazz era horrível, na verdade, quase estourava os meus ouvidos e não faltava muito para jorrar sangue pelos dois lados da minha cabeça. Não tenho problemas contra quem gosta, porque é música e eu não vou remexer na opinião dos outros.

Mas por que o meu pai não podia ser uma pessoa normal? Ele tinha mesmo de ouvir uma versão de jazz das músicas natalinas? Não podia ser a versão normal da música?

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