Capítulo 7

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Alguns dias haviam se passado e as coisas voltaram a sua normalidade, os garotos tiveram suas aulas normalmente, menos as aulas práticas, as quais Matthew não conseguia participar por estar com o braço debilitado. Havia passado mais de uma vez insistindo a enfermeira Neg'na que retirasse as bandagens, pois já estava preparado e o braço estava ótimo, a cada ida a enfermaria, uma nova forma de ser botado pra fora. Desta última vez, Neg'na literalmente "soltou os cachorros" com o jovem paladino. 

Estavam se aproximando da troca de estações, o verão estava chegando ao fim, as folhas caíam, os dias iam calmamente ficando mais frios, mais nublados e traziam uma sensação de sempre beber uma grande caneca de chocolate com canela e comer Pãezinhos da Porca, especiaria de um bar para menores na cidade próxima. Como dizia Matt: "A Porca sempre nos ajudou a não crescer." E realmente ajudara, pois o bar sempre tinha no ar o cheiro de bolo de chocolate, com jogos de tabuleiro espalhados, doces expostos nas prateleiras, babados nas mesas e a sensação de que "a Porca" nunca envelhecia. 

Como Matt não podia frequentar as aulas práticas, ia para o bar da Porca, era bem tranquilo durante as aulas e ficava longe dos outros alunos de sua idade - que passaram a importuná-lo após o episódio que o deixara debilitado -. Alunos não eram possibilitados de ir a Cidade de Railor à pé, deveriam tomar uma carroça até a cidade ou solicitar um portal, mas Matt já conhecia outros jeitos. Por mais que era apenas um paladino, conseguia se teletransportar para locais próximos, utilizando uma pequena gema roxa de poder, que ganhara de seu irmão antes de sua morte. Então o garoto utilizando da magia da pequena pedrinha, segurando-a com muita força, concentrando-se no local desejado e conjurou a magia. 

Muitas vezes que utilizava deste recurso se sentia tonto, mas logo recuperava, chamava de "retorno do universo", pois como paladino não podia conjurar magias, a não ser as que lhe são propriamente direcionadas pelos deuses. 

Para não chamar a atenção, Matthew teletransportou-se para um beco muito próximo do Bar, assim que recobrou seus sentidos de seu retorno do universo, viu um gato assustado correndo para a saída do beco. O seguiu diretamente para de encontro a rua de ladrilhos que estava enlameada devido a chuva recente. 

Os pequenos estabelecimentos na rua de qual saiu eram todos bem decorados, alguns ainda possuíam teto de feno para manter o visual antiquado. Haviam muitas pessoas na rua desta vez, Matthew nunca visitara Railor nessa época do ano por causa das aulas que o prendiam no colégio, então tomou seu tempo e assistiu as pessoas e suas vidas, achava curioso que todos amavam acenar para outras pessoas e até parar para conversar quebrando a rotina de sempre de andar reto pensando somente em seus próprios caminhos. Outras pessoas, pareciam sempre estar correndo desnecessariamente como se fugissem de alguém. 

Tomando sempre muito cuidado olhando ao seu redor para não ser surpreendido por ninguém do colégio, Matt seguiu em direção do bar da Porca. Sua fachada era muito similar aos outrosestabelecimentos, paredes de barro branco, tijolos na parte inferior e o telhado de um vermelho bem escuro. Logo que entrou, sentou-se na mesa a qual já estava acostumado. 

"Onde está a Senhora Grulha?" 

Perguntou-se Matthew abrindo seu livro.Passaram-se poucos minutos até que o garoto ouviu um estrondo na sala atrás do balcão ao fundo do estabelecimento. Logo se levantou, pulou por debaixo do vão que servia de portinhola e procurou entrar na sala. 

- Dona Grulha sou eu, Matthew, está tudo bem? - Perguntou ogaroto adentrando na cozinha do bar. 

Era difícil enxergar, parecia que uma saca de farinha havia sido explodida ali mesmo. O corpo rechonchudo de Grulha, dona do bar, estava estirado ao chão e uma criatura muito esguia, com pele preta, escura como se o pó da farinha não afetasse o tom de sua pele, olhava para a mulher desfalecida. Sem tirar os olhos de Grulha, a criatura apontou para Matt, seu braço era comprido o suficiente para ficar metade do caminho entre os dois, o garoto fez como quem iria falar algo, mas nada o acometeu, sua voz sumiu, um frio tremendo o tomou, como se o calor do sol sumisse e o mundo fosse comandado somente por escuridão. 

Neste momento, Matthew estava sem reação, nunca em sua vida houvera encontrado criatura tão estranha e nunca houvera visto relato de tal coisa. O rosto daquela coisa virou para o garoto, seus olhos enormes como de uma coruja, porém amarelos e fundos sem vida. 

O corpo ainda mole de Grulha começou a se levantar até ficar sentada, porém ainda sem vida, então a criatura abriu sua bocarra mostrando dentes da mesma cor de sua pele, enormes, finos, infinitos e pontiagudos. Tanto a mulher porca e aquele ser começaram a gritar, a voz de Grulha era reconhecível, porém a criatura possuía várias vozes.

Matthew não conseguia reconhecer a voz daquele bicho, mas em certo momento a voz dele começou a balbuciar algo concreto, até que a criatura se movimentou de forma brusca, ficando em uma posição de ataque, colocando suas mãos e suas garras próximas ao corpo, suas pernas se afastaram rapidamente. De repente um berro ensurdecedor saiu da criatura, porém a voz era de Arthur. 

"ME AJUDA... MATTHEW, AJUDA!!" 

Assim que aquele berro bizarro cessou, a criatura contorceu-se no ar até desaparecer completamente como se nada tivesse acontecido. 

~ 

- Dona Porca! – Correu o garoto para próximo da mulher caída no chão, cheia de farinha. – Acorda Dona Grulha! 

Gritar pelo nome da dona do bar não mudava nada, ela não acordava. Matthew checou a respiração dela e o ar saía de suas narinas normalmente, como se estivesse dormindo profundamente. Matt tentou mais uma vez chamar pelo nome da grande porca, novamente sem efeito. Então começou a dar leves batidinhas em seu rosto pensando "PELO AMOR DA DEUSA MULHER ACORDA!", mas nada parecia funcionar. 

O sino do balcão, que Dona Grulha deixava para ser chamada caso não estivesse próximo, soou e Matt logo correu para ver quem havia tocado. Era Brena. 

- Matt, o que está fazendo aí dentro? – Perguntou ela surpresa. 

- Pelo amor da criadora, me ajuda! 

Logo a garota meio dragão entrou correndo pela portinhola e seguiu Matt até a dispensa, dando um berro contido, Brena logo se juntou ao enorme corpo de Dona Porca junto ao seu amigo e começou a chamar pelo nome dando leves batidinhas no rosto da mulher. 

- Eu já tentei isso, ela não responde! 

- Menino, você bateu na Porca?! – Perguntou Brena entrando em desespero. – Como você tem coragem?! 

- Brena, olha o tamanho dessa mulher! Minha mão machucada não fez nem cócegas!

Então o garoto correu para pegar um copo com água, jogaram no rosto da mulher, mas nada acontecia. Dona Grulha apenas roncou e continuou seu profundo sono. 

- Matthew, me explica o que houve aqui! – Perguntou Brena já em seu total estado de desespero. 

- Nem eu sei o que aconteceu aqui! – Respondeu Matt também desesperado. – Vamos acordá-la primeiro, depois eu explico! 

Assim que o garoto terminou a frase, Brena levantou sua mão e deu um tapa muito forte no rosto da mulher desacordada, que num grunhido abriu seus grandes olhos se levantou num salto muito assustada.

Contos da Estrela do Norte - O Sol e a LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora