De volta à Pedaço de Paraíso...
Minha sorte era que nossa cidade era tranquila e, em dias de festa, eles nem precisavam trancar os enormes portões de grades azuis que guardavam a fazenda. Quando o carro alcançou o meio caminho da casa, pedi que parasse e me deixasse ali mesmo. Não queria fazer alarde e nem ser recebida com 5 pedras nas mãos, por isso eu precisava ser sorrateira. O motorista perguntou se eu queria que ele me esperasse, disse que não e desci do carro, já enxergando as luzes da casa.
Minha entrada tinha que ser triunfal. Eu precisava de uma estratégia e já sabia qual usar. Assim, contornei a sede até alcançar a porta da cozinha e, após uma breve olhada pelo vitrô, abri a porta e entrei. Vandinha estava de pé na pia e, quando me viu, seus olhos se arregalaram e ela ficou branca.
— Dona Bela... — Sussurrou olhando para os lados e depois caminhando até mim. — O que você tá fazendo aqui?
— Preciso entrar, Vandinha. Desculpa.
— Não. Você não pode entrar. Tá todo mundo lá dentro!
— Por isso mesmo eu vou entrar... — Eu disse e já ia caminhando até a porta, mas ela se pôs em minha frente.
— Não, Dona Bela. Eu vou ser demitida se eu deixar você passar. Vá embora, por favor, não me causa confusão!
— Se você cooperar comigo, eu não vou causar confusão nenhuma, mas se você continuar aí, eu vou ser obrigada a contar pra sua filha que você tá se prostituindo pra pagar suas dívidas. — Digo com a voz dura, mesmo sabendo o quão cretino isso soaria, e ela dá um passo para trás vacilante. Era minha única chance.
— Do que você tá falando?
— Do Tio César... Eu sei, Vandinha. Todo mundo tem um podre, liga não. Agora me deixa passar que eu não tenho a noite toda, anda.
Ela fica me olhando com a boca entreaberta. Seus olhos, outrora desesperados, estreitam-se e eu sabia que ela me repugnava. Deve ter pensado em como se enganara comigo, em como eu era mesmo uma decepção... Ah sim, ela não era a única... E eu já tinha até me acostumado. Resignada e desgostosa, ela dá um passo para o lado.
— Boa garota — Faço questão de dizer assim que saio. Se todos estão me chamando de escrota, é melhor entrar no papel de vez e merecer o título.
Aproximo-me silenciosa da sala de jantar. Ninguém repara em minha presença e eu permaneço ali durante alguns segundos, encostada na soleira da porta e admirando minha família feliz. De todos que haviam se reunido para celebrar o casamento, só Sabrina e a família tinham ido embora e, é claro, o ex-noivo. Olho de um para o outro enquanto eles gesticulam e falam pelos cotovelos. Nem parece que a casa veio abaixo há apenas uma semana. Eles já tinham até se esquecido... E eu nunca fiz falta alguma.
Eu poderia ter voltado, ter ido embora, ter deixado quieto, mas os sentimentos borbulhavam em meu peito. Eu era um vulcão em erupção, e se eu não queimasse todos ali, queimaria só a mim mesma. Veja bem, eu não queria queimar sozinha. Eu precisava arrastá-los junto comigo. Eles mereciam isso. Mereciam por tudo o que falaram de mim.
Bato duas palmas fortes e permaneço como estava, com um sorriso malicioso enfeitando o canto de meus lábios. Todos viram para a origem do som e se calam. Nós nos entreolhamos durante aquela fração de segundos que precede o ataque. Predador e presa. Ambos calculando, traçando estratégias, pensando no melhor jeito de salvar a própria pele. A vida inteira eu fui presa fácil para essa família, mas é o que dizem: um dia da caça, outro do caçador. E naquela noite, pela primeira vez, a predadora era eu.
— O que essa garota tá fazendo aqui? — Tia Valquíria guincha quebrando o silêncio. Ela olha para mamãe - que está pálida e com a boca trêmula - à espera de uma resposta.
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Perfeito Proibido
RomanceIsabela Ferrarezi sempre andou na linha... Até ser convidada para passar uma semana na fazenda de sua família para comemorar o casamento da prima. Perdida entre seus desejos e frustrações, ela vê uma oportunidade perfeita de conquistar o homem dos...
