2 - Castelo de Cartas

110 6 2
                                        




🎵 Música: House of Cards - Madina Lake



Na sexta-feira fomos chamadas para jantar no restaurante metidinho da cidade com o resto dos parentes que também iriam para a Pedaço de Paraíso na semana seguinte. Quando chego, atrasada por postergar o encontro tanto quanto possível, já estão todos na mesa.

— Olha quem apareceu! — Meu tio César grita quando me vê, escandaloso como sempre. — Chega aí, Bela!

Sorrio sem graça e começo o tour. Tia Valquíria, a mãe da noiva, é a primeira que cumprimento. Beijinho. "Tudo bem querida?". Assinto. Tio César com sua barriga protuberante logo ao lado. "E aí, tio?". Beijinho. "Oi, Pablo". O primo bronzeado com cabelo rastafári do lado de uma morena bonitona. "Bela! Como você cresceu. Tá linda". Agradeço. "Oi, tia Verônica". Sabrina, prima. "Tudo bem?". Beijinho. Uma das gêmeas começa a chorar. Sabrina a sacode em seu colo. "Oi, Ítalo". O pai do ano. Só que não.

— Bela! O que você fez pra ficar com essa cara de menininha? — Eu o ouço antes de levantar a cabeça e seguir para a cadeira dele.

Com um sorrisinho no canto dos lábios, finalmente chega nossa vez de fazer os devidos cumprimentos. Dou um beijo rápido nas bochechas cheias de barba de Rafael.

— Como assim? — Pergunto, mas ele já não me escuta.

Depois de cumprimentar Susana, sigo para meu lugar. Os adultos estão falando mais alto do que o normal, gesticulando e sorrindo demais para estarem sóbrios: duas garrafas de vinho em cima da mesa confirmam minhas suspeitas.

— Vai beber o que, Bela? Quer um chope? — Tio César oferece e eu aceito. — AMAROOO! Mais um chope aqui, por favor! — Ele estica a mão para o garçom, que faz uma careta, provavelmente farto daquela bagunçada... E olha que a comida ainda nem chegou.

Lanço um olhar para o canto oposto da mesa, onde ele está sentado conversando com Ítalo e Susana. O que ele quis dizer com cara de menininha?

— Amor, pode ir lá dentro pedir um prato kids de tilápia pro Emanuel? — Sabrina cutuca o marido e olha para meu primo, entretido com o celular.

— Fala aí, cabeção. — Dou um tapa na cabeça de Emanuel.

— Ai!

— Sai dessa merda, a gente vai jantar... — Sorrio, feliz por poder me distrair enchendo o saco dele. Mamãe me olha feio, mas dou de ombros.

— Daqui a pouco a Verônica xinga... — Ela sussurra em meu ouvido e eu só reviro os olhos.

Emanuel é o irmão mais novo de Sabrina e o menininho intocável da tia Verônica.

— AMAROOO! Vocês servem pizza aqui, meu querido? — Tia Valquíria é a que grita dessa vez, colocando a mão no braço de Amaro. — AH! OLHA ELAAA! FINALMENTE!

Todos viram a cabeça na direção que a tia olha.

— MÃE! EU PASSEI! — Minha prima Carla, irmã de Susana, chega gritando com sua voz estridente e lágrimas nos olhos.

— Amora, saiu o resultado já?!

— SIM!

Tia Valquíria dá um gritinho de excitação.

— O QUE FOI? O QUE HOUVE? — Tio César se intromete aos gritos.

— Nós vamos ter mais um motivo para comemorar semana que vem... — Minha tia olha orgulhosa pra filha.

— EU PASSEI PRA MEDICINAAAA! — Carlinha grita e começa a pular, a mãe levanta no mesmo instante e vai abraçá-la.

Nesse momento, todos começam a gritar e a se empolgar ainda mais. "Uhuuul, viva a Carlinhaaa". "Parabéns, lindaaa". "Que orgulho". Reviro os olhos e balanço a cabeça, agradecida por Amaro ter trazido meu chope no meio tempo. Quando termino de virar um gole, meu olhar procura pelo dele e o encontra. Ele levanta seu copo e faz um brinde no ar que eu acompanho.

— AMAROOO! Tem champanhe, querido? — Tia Valquíria vai mais uma vez pra cima do garçom cujos ombros estão retesados e a expressão é de poucos amigos.

— ÊH, Valquíria... Agora a festa vai ter que ser maior, hein? Haja booolso! — Meu tio César se demora na última palavra e lança um olhar à irmã.

— Ah, meu querido, você acha mesmo que eu vou me incomodar em dar um festão pras minhas duas amoras maravilhosas? — Valquíria se coloca ao lado de Carla e passa seu braço pelas costas da cadeira em que Susana está; fazendo carinho nas filhas.

— Quem pode, pode, não é não? — O tio se demora numa risada longa e preguiçosa, feliz por colocar lenha em qualquer fogueira.

Amaro aparece em seguida com o champanhe.

— Vai lá cumprimentar sua prima, filha! — Mamãe diz entre sorrisos quando torna a se sentar depois de já ter cumprido seu papel de interpretar a tia mais legal.

— Aff... — Sussurro e me levanto mesmo a contragosto, não estou nem um pouco afim de ouvir sermão agora. — Parabéns, Carlinha! — Digo e abraço o corpo franzino da irmã da noiva do ano.

— Brigada, Bela! Mas e você? Já pensou o que vai fazer de faculdade?

Lanço um olhar a minha mãe que sei que está prestando atenção na conversa e dou um sorriso cara de pau.

— Gastronomia, prima... Você sabe, né?

Ela sorri sem sequer parecer ter ouvido o que acabei de dizer e se afasta, e eu torno a me sentar. Enquanto comíamos e bebíamos, lancei o olhar mais algumas vezes na direção de Rafael, porém, ele estava concentrado demais falando com primo, tio, noiva, irmã da noiva, contando várias histórias mentirosas que sempre o engrandecem de alguma forma. "Ah, é? Você faz isso? Eu conheço um amigo que já conseguiu fazer o dobro, acredita? Tem que ter desenrolo!". Tão típico... Eu nem precisava saber.

Com toda a atenção de meus parentes canalizada de um só lado da mesa, fiquei feliz enquanto era deixada em paz para beber à vontade, entupir-me de comida e prestar atenção nas vergonhas que eles passavam. É... Até que não era tão ruim assim.

Perfeito ProibidoOnde histórias criam vida. Descubra agora