Capítulo 8 - Uma verdade útil

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Você está aí, quieto, um marasmo só... Aí, a vida decide que vai andar, confere? Costuma ser assim. Pelo menos, era o que estava acontecendo com Pedro. Em coisa de um mês, tivera um dia interminável,  conhecera gente que viajava sem sair do lugar e tudo o que andava atravancado — quase em marcha ré — decidira se resolver de uma hora para a outra. Mudança foi o que não faltou. 

Então, vamos aos poucos...

Para começar, Pedro agora era professor de inglês. No English Now, com uma turminha, mas levava jeito para a coisa: a coordenadora passava os alunos particulares que apareciam para ele. Via Ana Terra todos os dias, aproveitando o almoço e a hora da saída para namorar. Menos às terças e quintas, quando fazia um curso de aprimoramento no curso mesmo. Com desconto, né? Porque entrava um dinheiro a mais só que não era para tanto!

Estava até juntando para graduação. Quando o vilão atacava,  Pedro emendava: "O que é 'graduação'? O que é 'faculdade'? Só fazendo para saber." Não ia mais impor limite a nome nenhum! "Todo nome me cabe até que eu prove o contrário". Lição número cinco ou dez ou vinte em limites dos nomes, de sua própria autoria. Os questionamentos geravam um alívio tão grande no dia a dia...

— Nós não inventamos os limites — Ana lhe disse, um dia, enquanto tomavam sorvete. —, mas a gente se apega e acaba dando poder a eles.

— O que eu sei é que me sinto livre — Pedro estava particularmente animado.— Repensando as coisas, sabe?

— 'Liberdade' é um nome bacana — Ana concordou. — No início, eu me embananei muito com ele. Achava que era coisa que vinha de fora...

— E não é?

— Ah, não! Qualquer nome só tem o poder que a gente dá a ele, né?

— Até liberdade?

— Até amor.

Pedro não entendeu direito, mas estava preocupado com outra coisa. 

—  Estranhão que a Helena nunca mais apareceu... 

— Se eu fosse você, regulava menos e aprendia mais — e, dizendo isso, tascou-lhe um beijo na boca. — Lembra que, em ASL, tudo é lição...

— ...e o professor aparece quando o aluno está pronto.

Quem seria Pedro para contrariar? Mais dois meses voaram, e ele acumulou muitas evidências.  Poucos dias depois do sorvete, sua filha, Thais, chegara para um abraço, trazendo a tiracolo um mariposa encharcada, talvez morta, e a frase a seguir:

— Morte é o nome do fim, né?

Ao que ele respondeu:

— Ou do começo. Depende de quem diz...

— Mas, então, tem que saber o que é fim e o que é começo?

— O que é para você, minha filha?

— Fim é parar de olhar, e começo é olhar com olhos frescos.

Aquilo rendeu muito papo. Vale dizer: a mariposa só precisava secar. No dia seguinte, não estava mais no peitoril da janela onde a puseram para descansar. Um cachorro podia ter comido? Sim, mas não vinha ao caso. A questão é que, naquele momento, a professora tinha sido Thais. E o vilão? Ah, esse aí parecia um chiadinho de nada, restinho de pó que nem chega a sujar. 

"Virou filósofo? Grande pensador?" Dava umas risadinhas maldosas, mas Pedro sabia o que fazer. Questionava: "Pensador é quem pensa, né? Eu penso" e por aí vai. Chegou a montar um caderninho. Escrevia um nome qualquer — pai, professor, pensador ou... filósofo, por que não? — e, depois, circulava com canetinha. Puxava setinhas do nome para fora, escrevendo tudo o que o seu cabeção associava àquelas palavras.

Pedro e o Limite dos Nomes (Série A.S.L - volume I)Onde histórias criam vida. Descubra agora