O telheiro, onde Pedro e Ana se abrigavam, fora montado sobre seis estacas de madeira crua. A chuva pesada estalava no amianto de suas telhas, um batuque grave e constante. Mais adiante, em um espaço aberto e acimentado, Pedro viu uma cúpula geodésica – um polígono arredondado com milhares de faces, também construído à base de estacas de madeira e coberto por uma lona branca. O portal de entrada era amplo o suficiente para que Pedro conseguisse ver centenas de pessoas transitando dentro da cúpula.
Sim, havia literalmente centenas de pessoas ali. Vestiam túnicas multicoloridas e pareciam dedicar-se a atividades lúdicas, tão diferentes entre si quanto as próprias pessoas que se ocupavam com elas. Um grupo dançava movendo os braços graciosamente em direção aos céus — uma profusão de cores em tecido, peles e cabelos. Gêmeas idênticas, de olhos puxados, tocavam flautas doces, sentadas de pernas cruzadas, acompanhando as partituras em pergaminhos que se desenrolavam diante delas. Alguns sambavam, outros dançavam funk e havia um círculo de pessoas, formado ao redor de um homem mais velho que lia em voz alta um livro de encadernação grossa, decorado com filigranas douradas.
Quase todos eram adultos ou adolescentes, mas havia crianças, que corriam e gritavam jogando algum tipo de pique. Ao fundo, cerca de dez pessoas pintavam um grande painel preso na vertical por argolas e fios de aço. Alguns jogavam tinta a esmo; outros se detinham em traços mais finos, criando rostos, árvores, rios e pássaros, sem que o desenho final representasse uma única paisagem. Pincéis de variados tamanhos e latas de tinta estavam jogados a seus pés.
Pedro quase pulou para trás ao ver uma mulher passar por eles, margeando o telheiro e cruzando o portal sobre pernas de pau em uma chamativa fantasia azul metálica. Entrou na cúpula, sentindo a presença de Ana a seu lado. À medida que avançava, deixando as primeiras camadas de pessoas para trás, notou um pequeno picadeiro central onde um casal de olhos fechados inspirava e expirava profundamente, meditando com as mãos postas sobre o peito um do outro. Logo, desceram, emocionados, dando lugar a um pequeno grupo de pessoas que esperava sua vez em uma fila nada pequena.
À esquerda, perto dos limites da cúpula, havia uma mesa comprida com todo tipo de comida. Frutas, massas, pães variados, frios, feijão em grandes panelas, arroz em terrinas separadas, carnes ensopadas, pratos de doces, saladas, molhos, farofa e temperos. Jarros coloridos de todos os tamanhos e formatos continham sucos, café, leite e achocolatados. Pedro observou enquanto as pessoas se serviam e sentavam-se diretamente no cimento ou saídas de praia, formando grupos de piquenique. Ainda se lembrava da pergunta de Ana, "O que você vê?", mas estava tão embasbacado com a cena que não encontrava palavras para descrevê-la.
De algum ponto à direita, surgiu uma figura que parecia ter luz própria. Era um homem de pele negra, vestindo túnica e calças brancas. A iluminação fria, vinda de potentes lanternas espalhadas por todo o espaço, parecia convergir para aquele homem, que caminhava como quem flutua. Dirigia-se ao lugar onde Pedro estava, avançando por entre a multidão sem esforço algum. Pedro tentou desviar o olhar, mas aquela presença era hipnótica. Quando chegou mais perto, Pedro reparou algo que o fez tremer.
O homem avançava de olhos fechados.
Logo, estavam cara a cara. Pedro sentiu-se um tanto intimidado, mas o homem estendeu os braços, segurando as mãos de Pedro entre as dele, mãos quentes e macias. Pedro tomou um leve choque, que fez circular ondas de energia por todo seu corpo, escalando antebraços, braços, as laterais do pescoço e encontrando seu cérebro. Imediatamente, Pedro encheu-se de pensamentos e emoções felizes. Em seguida, o jorro de energia passou por seu coração, contagiando cada célula de seu corpo.
Aquela força circulava, chegava a suas pernas e retornava, sem que Pedro despregasse os olhos daquela tranquila face masculina. Sentia o momento se aproximar, acumulando emoção crescente. Aguardava o momento inevitável e aquele homem finalmente...
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Pedro e o Limite dos Nomes (Série A.S.L - volume I)
FantasyJá imaginou se matricular em uma escola fora do tempo e do espaço? Com professores que surgem a qualquer momento e lições dadas em meio aos seus afazeres cotidianos? Foi o que aconteceu com Pedro, pai solteiro, feliz com a rotina de cuidar de sua f...