Este capítulo encerra as aventuras de Pedro, em seu estudo sobre o limite dos nomes. Pelo menos, no que diz respeito ao que eu posso contar. Achei bom avisar, porque não curto despedidas. Soam tão radicais, definitivas... Acho uma baita responsabilidade dizer onde uma coisa começa ou termina. Se esse finzinho sair estranho, relevem. Quase tudo o que sei sobre Pedro, tive que aprender na marra mesmo: ele não é do tipo falante, convenhamos...
Neste capítulo, vou contar duas coisas: 1) o que aconteceu com Pedro após o minuto mais longo de sua vida e 2) quem sou eu. Sei que eu podia ter me apresentado logo de cara, mas não quis me impor, sabe? Essa história não é sobre mim.
Bem, pós-minuto mais longo, ocorreu o tão esperado encontro social de fim de ano. Decidiu-se que seria organizado na casa de Pedro mesmo. Pois é! Apesar de não ter avisado com antecedência, Marlene convenceu Luísa, dizendo que a decoração já estava pronta, a comida seria responsabilidade de Marcos e cada um traria sua bebida. Fora que Fernando sabia tocar violão, o que sempre ajuda a animar as festinhas.
Quando Luísa perguntou quem eram Marcos e Fernando, Marlene respondeu:
— Um casal maravilhoso... Pedro conhece. Você vai amar! — já pedindo para que Jairo fosse comprar pratos, talheres e copos descartáveis no mercadinho mais próximo.
Luísa foi na onda: o que mais poderia fazer? Roberto ajudava Marlene, entre beijos e abraços, a criar uma playlist no celular, que acabou rolando o dia inteiro. Quando Pedro e Ana voltaram o trabalho, a casa já era outra — guirlandas de estrelinhas, coraçõezinhos e artes menos identificáveis pendiam de estantes, portas e lustres. Thais abriu a porta:
— As vós tão ocupadas se empericando... — informou, solene.
— Emperiquitando? — Ana corrigiu, mas a menina não estava mais prestando atenção.
Virgo e Veridiana chegaram às oito, trazendo quatros litrões de refri cada. Convidaram Luísa a checar seu mapa astral na internet, o que rendeu quase duas horas de conversa. Helena, que já estava lá desde cedo, apareceu na sala com a cara amassada e duas olheiras dignas de quem passara boa parte da tarde dormindo. Recebeu Antônio, sua neta Vanessa e Laura, que tinham acabado de tocar a campainha:
— Bom dia? — Laura brincou.
— Vão entrando sem comentários... — Helena empurrava os recém-chegados porta adentro. — Eu apaguei num nível que se não for servir a mesa agora nem sei com que cara fico na festa!
Porque Marcos e Fernando trouxeram o dogão — um cachorro quente em panela industrial, mais dois kilos de pão, recheios e coberturas suficientes para montar um self-service. Para desgosto de Luisa, aquela seria a única comida da noite, mas, como a fome era imensa, o papo era bom e Fernando arrebentava na viola, qualquer clima tenso acabou sendo superado.
Pedro repetia o lanche pela terceira vez, com três manchas de molho na blusa, quando deu falta de Ailton. Até aquele momento, estava se portando como anfitrião: distribuía boas-vindas, arrastava cadeiras, afofava almofadas, mostrando onde era o banheiro, essas coisas... Assim, Ana e sua família podiam aproveitar. "Se bem que Ana já é quase família", pensou. "Sinto a todos aqui como uma espécie de família".
Então, por onde andaria seu cartunista preferido? Desde a última festa, achara estranho ver ali um menino tão novo, sozinho, sem mães ou pais para vigiar. Chegou a achar que iam aparecer em algum momento, cobrando sua ausência.
Foi aí que eu cheguei. Eu, a narradora, no caso.
Ninguém ali me conhecia ainda. Eu também não sabia nada sobre Pedro ou sobre a ASL. Só sabia que, antes de chegar, a noite estava especialmente escura, calorenta, e eu sentia uma gotinhas esparsas de chuva aqui e ali. Sabe quando você tem dúvidas se está prestes a chover ou se você imaginou um pingo? Eu jurava que sentia o molhadinho no ombro, dava uma olhada e nada! Depois, outro pingo na batata da perna, ia olhar e nenhum tracinho. Sinistro!
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Pedro e o Limite dos Nomes (Série A.S.L - volume I)
FantasyJá imaginou se matricular em uma escola fora do tempo e do espaço? Com professores que surgem a qualquer momento e lições dadas em meio aos seus afazeres cotidianos? Foi o que aconteceu com Pedro, pai solteiro, feliz com a rotina de cuidar de sua f...