Rio Azul, minha cidade, fica em Minas Gerais, é uma cidade pequena, perto dos 100 mil habitantes. Um lugar lindo, onde as montanhas que cercam a cidade são as principais atrações turísticas e, mesmo assim, não chegava a ser uma cidade muito visitada. No mais, era um lugar que estava tentando, a todo custo, se expandir, no ano passado uma fábrica de chocolates se instalou na cidade e acabou trazendo no seu rastro alguns outros investimentos e, um deles, acredito que a construção do complexo de prédios que a firma de engenharia onde Rodolfo trabalhava, pois seria o primeiro grande complexo habitacional da cidade. Não sei se tinha alguma coisa a ver com o progresso que a cidade estava começando a vivenciar, mas o fato era que pouco depois da chegada da fábrica, foi instalada a franquia de um bar bastante renomado no país, Cachaçaria Dom Cortez, e foi lá que combinamos de nos encontrar.
Eu estava ansiosa para encontrar Rodolfo, não ansiosa de paixão, mais algo do tipo “vou ficar surpresa se ele aparecer”. Então, na terça-feira fechei a loja meia hora antes do horário normal e fui para a loja da Raquel, escolher uma roupa para o encontro. Raquel e minha mãe me ajudaram na decisão, um vestido de algodão, estampa em pequenos poás brancos, alças finas, num tom laranja bem fechado, uma sandália de salto médio, nude. Acompanhadas por elas, fui para casa me arrumar e depois de um bom banho, adicionei um pouco de maquiagem, deixei os cabelos soltos e parti rumo ao bar.
Cheguei no horário combinado e logo praguejei mais uma vez sobre essa minha péssima mania de pontualidade que, basicamente, sempre me serviu mesmo para me deixar aflita e com raiva à espera dos outros. Escolhi uma mesa pequena de dois lugares, uma cadeira de frente para outra, no meio do salão e, depois de pensar um pouco se devia satisfazer minha vontade e tomar uma bela cerveja gelada ou impressionar o meu pretendente com a minha delicadeza e pedir um suco de laranja, optei pelo meio termo, suco de laranja com vodca.
Já havia passado quinze minutos, atraso imperdoável caso minha situação amorosa estivesse um pouco melhor, e estava pronta para pedir a conta, enquanto a raiva ainda era moderada. Nós não tínhamos trocado números de telefone (a pedido dele, que sugeriu que seria bacana manter o suspense), mas naquele momento, sentada sozinha no bar, tive a quase certeza do papel de idiota a que tinha me submetido, pois havia acatado todas as suas esquisitices, sem câmera, sem número de contato... Meu estômago já doía de raiva e estava no último gole da bebida, quando meu coração deu um salto. Vi aquele homem, muito, mas muito, muito mais lindo do que na foto, entrando no bar. Ele não parecia ter tido tempo de se arrumar para o encontro. Estava de camisa polo branca e jeans. A barba estava por fazer e os cabelos meio bagunçados, ainda assim, me pareceu o homem que conseguiria arrancar o título de Breno, de cara mais bonito que eu já tinha visto pessoalmente. Rodolfo entrou com o rosto tenso, parecendo que algo o havia desagradado — esperava que o motivo do descontentamento fosse seu próprio atraso — e ficou olhando com uma espécie de impaciência à minha procura. O lugar estava cheio, mas não lotado, então resolvi levantar um pouco o braço e abrir o sorriso para que ele me localizasse. Assim que me viu, lançou um meio sorriso com má vontade e foi em minha direção. Levantei para cumprimentá-lo e ele encostou seu rosto no meu, fazendo barulho no ar como se estivesse beijando minha bochecha.
Fingi não ter percebido sua animosidade, sorri gentilmente.
— Oi. Vamos nos sentar — sugeri.
Ele me encarou por um segundo, com a expressão indecifrável e sentou-se, ainda com o ar carrancudo. O garçom se aproximou e eu estava ficando muito nervosa com a postura séria que ele apresentava, então pedi mais um drinque daquele que havia acabado.
Parecendo querer me deixar mais sem graça ainda, Rodolfo encarou o garçom de forma seca.
— Para mim, apenas água — sentenciou, curto.
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De Cor e Salteado
RomanceBel é uma mulher descolada, na casa dos trinta anos, dona de uma lojinha de decoração e papelaria, a De Cor e Salteado. Tudo ia dentro da normalidade em sua vida até que ela se dá conta de que todos os seus amigos estão noivos ou casados. Alguns del...
