Capítulo 10

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Na segunda-feira, assim que abri a loja, minha mãe apareceu toda sorridente e ofegante, vindo diretamente de uma aula de jump do Maurício. 

— Não posso demorar, Bebel — disse, apoiando-se no balcão e me dando um beijo carinhoso na bochecha. — Preciso tomar um banho e correr para o trabalho! Mas como não nos encontramos ontem, fiquei com saudade... — E fez um beicinho dengoso. — Tudo bem com você, meu amor?

— Tudo — respondi, sorrindo.

Ela então arqueou uma sobrancelha e cerrou os olhos, desconfiada pela resposta curta. 

— Tudo e o que mais?

Apoiei os cotovelos no balcão e expirei profundo. 

— Dormi com o Gael no sábado, terminei ontem. — Revirei os olhos e bufei. — Quer dizer, deixei claro que o que aconteceu ontem de novo foi a última vez e vou sair com Rodolfo esta semana. Ele me procurou! — Sorri abertamente.

— Filha, quanta novidade! — Minha mãe balançou rapidamente a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse chacoalhando as informações recebidas. — Estou até zonza, mas não tenho tempo agora para ouvir tudo detalhadamente, nem dar conselho, nem puxar sua orelha. Então, venho almoçar com você aqui hoje. Eu trago marmitex do Luís — sentenciou, enquanto saía apressada.

Aproveitei e chamei Raquel para almoçar conosco e, assim, eu poderia desabafar, porque, por um lado estava toda animada com o avanço que estava tendo com Rodolfo, mas por outro, estava com uma pontinha de tristeza, doida para ver e estar com Gael novamente.

Uma outra coisa que eu vinha empurrando para debaixo do tapete era a situação da minha loja. Nos meses de janeiro e dezembro a parte de papelaria vendia bem e eu conseguia praticamente manter o restante do ano com o faturamento desses meses, mas só conseguia manter, lucro mesmo era tão pouco que não podia nem me dar ao luxo de ter algum investimento. A parte de decoração era a mesma coisa o ano todo: uma venda aqui e outra ali, mais para presentes de última hora. Eu tinha comprado uma máquina de xerox e ela vinha sendo a garantia da loja não passar o dia às moscas, mas por pouco dinheiro. Eu, muitas vezes, perdia muito tempo, fazendo cópias de livros, geralmente só fazia esse trabalho após o expediente, então não era nem de longe algo que valesse a pena. Eu não estava totalmente desesperada, porque a loja ainda garantia o aluguel dela e do sobrado, ainda dava para manter minhas pequenas despesas, mas não tinha luxos e sei que nem todas as mulheres são assim, mas eu sentia falta de ter uma tarde num salão: cuidar do cabelo, das unhas, da pele... Enfim, inventar o que me desse vontade na hora... Mas nem para isso estava conseguindo ter dinheiro. A casa da minha mãe era basicamente meu salão de beleza e meu shopping. E eu tinha outro problema: ninguém sabia da gravidade que eu passava. Se por um lado eu era superaberta sobre a minha vida sentimental, sobre meus negócios era um túmulo. Não queria que minha mãe se apavorasse com problemas financeiros de uma filha grande, mulher já feita. Não tinha por que abrir mais do que já me abria com Raquel, a loja dela vendia mais que a minha, mas eu sabia que também não era um poço de lucro, pois era nítida a desmotivação dela quanto ao casamento e eu sabia muito bem que grande parte de ela não exalar felicidade era não estar segura quanto ao futuro. Então, deixei as questões sentimentais de lado durante aquela manhã e, enquanto não atendia, fiquei atrás do balcão procurando nos sites de buscas dicas sobre como alavancar os negócios, pois cursos sérios e pagos naquele momento estavam totalmente fora do meu alcance financeiro.

No horário de almoço minha mãe chegou, trazendo quentinhas para nós três — Raquel, ela e eu — e enquanto as duas se sentaram na minúscula cozinha, eu fiquei de pé na porta, depois nos revezaríamos  para que eu pudesse almoçar. Primeiro contei sobre o sábado. 

De Cor e SalteadoOnde histórias criam vida. Descubra agora