Até o sábado tudo permaneceu na mesma, nem Gael nem Rodolfo voltaram a me procurar. Eu estava muito tentada a ligar para Rodolfo, pois sabia que ele ainda estava na cidade, e de um jeito “descompromissado” queria convidá-lo para sair, mas fiquei receosa quanto a ele se sentir sufocado e sumir de vez. Havia uma outra possibilidade de iniciar uma vida amorosa fora os dois homens que ocupavam meus pensamentos: voltar a interagir no site de relacionamentos, mas confesso que não estava nada motivada a procurar uma outra pessoa, pois, na minha cabeça, estava bem certa de que havia encontrado o meu par, só precisava trabalhar com calma para convencê-lo disso, afinal, eu tinha um ótimo trunfo, Rodolfo me achava bonita e interessante e tinha me confessado que havia pensado em mim depois do nosso primeiro encontro.
Ainda em dúvida sobre como agir, no sábado mesmo aceitei o convite de Helena para um encontro entre amigos na casa dela. Óbvio que minha vida amorosa entrou em pauta em alguma hora da noite e não me incomodaram muito às zoações sobre ter me encontrado novamente com Rodolfo e ter saído com Gael. A torcida dos homens era para que eu continuasse com o primo de Raquel, pois ninguém achava nossa diferença de idade um empecilho, embora concordassem comigo quando dizia que estávamos em estágios diferentes da vida. Os homens estavam firmes de que eu deveria deixar a ideia de ficar com Rodolfo de lado, pois estava claro que ele queria apenas o que disse, sem romance nas entrelinhas. Já as minhas amigas entendiam bem minha vontade de ter um relacionamento sério e estável. Escutei tudo quanto é tipo de bobagem, desde as brincadeiras até o desincentivo dos homens à romantização das meninas e saí da casa de Helena decidida a procurar Rodolfo. Muito álcool e uma linda história de amor e superação criada por mim e minhas amigas, me fizeram chegar à conclusão de que Rodolfo precisava mais da minha companhia para deixar de lado sua crença de que casamento não funcionava para ele. Embora, um pouco alterada pela bebida, sabia que qualquer passo em falso o afastaria de mim, então sabiamente guardei o celular num bolso bem escondido dentro da minha bolsa e fui caminhando para casa. Um vento gelado soprava na noite e não havia muita gente pelas ruas, os bares estavam a meia porta e eu, meio tonta, sentia uma espécie de solidão ao fazer o trajeto. A noite tinha sido ótima, eu deixei meus amigos cheia de entusiasmo, mas foi só começar a volta para casa, que a sensação ruim foi invadindo meu peito, eu imaginando todos que estavam comigo minutos atrás indo para a cama, acompanhados, aquecidos de corpo e de carinho e eu, ali, ainda com um longo caminho a percorrer para, talvez, conseguir o que eles já tinham. Então, sem vontade de chegar logo em casa, fui caminhando, sem me preocupar em estar sozinha e já ter passado das duas da manhã quando cheguei até a rua da casa do Gael. Sentei num degrau de uma casa em frente ao sobrado dele e fiquei pensando, nada coerente, fiquei pensando nele, em como deveria estar sendo excitante e desafiadora a sua nova fase, mudando de cidade, abrindo o próprio negócio e questionando onde, no meio de tanta coisa, ele conseguiu me encaixar, pois se havia me mandado mensagens, era porque se lembrava de mim durante seus dias. E fiquei me repreendendo por estar ali, por estar gastando meu tempo, me sentindo solitária e relembrando como ele era fofo e carinhoso e lindo e com o sorriso mais inocentemente sexy do mundo. E olhando para a janela de sua casa, fiquei imaginando que logo ele estaria de volta e que se voltasse a me procurar, eu deixaria bem claro que entre nós dois só haveria amizade.
— Isabel! — exclamou ele, sem gritar, assim que abriu a janela do sobrado e, ao me ver, se afastou, sem me dar chance de reagir.
Puta merda! Corro e depois juro de pé junto que ele teve uma alucinação? Fico sentada e invento alguma desculpa para estar aqui? Mas que desculpa? Eu nem sei o que estou fazendo aqui?
A porta de ferro ao lado do bar se abriu e ele foi em minha direção, vestindo a blusa de moletom. Levantei-me rapidamente e senti até que meu corpo estava levemente trêmulo de tanta vergonha. Ajeitei minha roupa, passei as mãos pelos cabelos e sorri, sem graça, quando Gael parou de frente para mim, certamente à espera de alguma explicação para a cena bizarra. O sorriso dele era uma mistura de felicidade e vitória, e eu estava sem força até para retribuir.
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De Cor e Salteado
RomanceBel é uma mulher descolada, na casa dos trinta anos, dona de uma lojinha de decoração e papelaria, a De Cor e Salteado. Tudo ia dentro da normalidade em sua vida até que ela se dá conta de que todos os seus amigos estão noivos ou casados. Alguns del...
