2 - Coincidência

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Luna Valente.


Eu estava hipnotizada com o olhar do rapaz que estava à minha frente, e ele parecia estar ligado a mim, pois seu olhar pesava sobre todo o meu corpo. Minha situação estava complicada, pois, embora não soubesse o que fazer para mover o meu corpo, estava inteiramente irrequieta internamente, e louca para sair dali ou para ter uma resposta da parte dele. Uma estranha visão passou sobre o meu rosto, e foi algo que ‐ sinceramente - me assustou. Suspirei ao ver que Lavínia estava na minha frente.

— Vocês vão ficar parados aqui? Perdão, moço, mas nós acabamos de chegar de Cancún, e temos uma casa para organizar. Não temos muito tempo para ficar aqui trocando olhares. — ela disse.

— A sua garrafa. — num gesto de gentileza e de cavalheirismo, ele se abaixou, tomou nas mãos a minha garrafa e a devolveu a mim. — Ela não se quebrou. Felizmente.

Eu fiquei sem saber o que dizer. Apenas sabia sorrir ao encontrar um brilho nos olhos dele, sem me importar tanto com as palavras de minha irmã, pois, já que iríamos morar no Brasil, teríamos tempo de sobra para nos organizarmos. Embora soubesse desse "tempo de sobra", sabia que não era nada agradável fazer a minha família esperar tanto por mim, e por isso, retribui ao gesto dele ao responder-lhe.


— Não foi nada. Muito obrigada pela gentileza. — Tentei falar um português que saiu um tanto carregado de sotaque. Era notório, também, que ele era de outro local. Seu sotaque não era como os dos professores brasileiros que moravam em Cancún, e muito menos se parecia com os que eu estava escutando naquele aeroporto da "cidade maravilhosa". É isto mesmo? Este é o nome que dão ao Rio de Janeiro? Acho que sim. Teria que me habituar com isso, também. E, por fim, quando já iria perguntar sobre ele ser ou não um brasileiro, alguém tocou meu braço. Era meu pai.


— Vamos? Sua mãe está te esperando, e sua irmã também. - Desviei meu olhar para meu pai e apenas assenti com a cabeça para aquele tão gentil e belo rapaz.

(...)


Dois, três, quatro dias... uma semana se passou. A casa em que gostaríamos de morar estava inteiramente pronta e, finalmente, estávamos saindo de um hotel com vista para o mar. Iríamos viver perto da praia, mas, teríamos mais vista para a Mata Atlântica e para pequenas elevações do relevo. No mesmo dia em que chegamos à nova casa, me instalei em meu novo quarto, minha irmã foi ao dela, e meus pais também se instalaram. Quando pude me sentar em minha cama, desbloqueei o telefone e mandei uma mensagem para Simón, dizendo:

"A vida dá tantas voltas. Espero que tudo fique bem. Não sei se voltarei a morar perto de você, mas, nossa amizade sempre vai existir. E me perdoe por não ter mandado mensagens antes, mas, estávamos sem internet, e até sem chip móvel. Só compramos, porque Lavínia fez um escarcéu para que papai conseguisse algum. Você sabe como ela é geniosa... enfim... como estão todos?"

Ele me respondera que tudo estava bem. Fizemos uma chamada de vídeo, e logo fui interrompida, porque o almoço seria servido. Desci após quase obrigar a minha irmã a sair do banho, e juntas fomos à nova sala de jantar. Era uma casa nova. Era tudo novo, inclusive a nossa vida. Era possível sentir que novos ares estavam passando a fazer parte de todos nós, inclusive nos negócios da família, que estavam tomando novos rumos em prol de uma recuperação rápida. E aquilo seria necessário, embora eu não entendesse nada, absolutamente, sobre finanças.

O que mais me preocupava era a falta de conhecimento que eu tinha sobre a cidade. Gostaria de andar, ou melhor, de patinar sobre os calçadões das praias para poder conhecer, mas, principalmente, para sentir a brisa do mar sobre meu rosto. Minha pele precisava daquele ar marítimo, salino.

Doce DeleiteOnde histórias criam vida. Descubra agora