5 - A Bronca

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Luna Valente. 

A diretora apareceu no instante em que Matteo me beijava e meu corpo estremeceu bastante somente em escutar a voz dela, que mais parecia querer engolir a nós dois. Estava brava, ou melhor, bravíssima. Resolvi me levantar para acompanhá-la, e Matteo até me deu a mão, mas, com um olhar, disse que seria não seria bom, uma vez que já tínhamos ultrapassado todo e qualquer limite. Apenas andamos com ela, observando a luz fria que tinha no corredor imenso, o qual nos encaminhava até a sala da direção geral da escola. A diretora Olívia andava a passos largos, e Matteo e eu a observávamos com um certo deboche, uma vez que nos olhávamos e ríamos da forma como ela costumava andar. Parecia uma militar. E constatamos, ao chegar à porta de sua sala, que um dos apelidos dela eram relacionados ao militarismo: "sargentona" - dizia um adesivo que estava colado sobre a placa de identificação do cômodo. Ela o viu, bufou, e a placa original apareceu com as palavras "Diretora Olívia". Matteo e eu rimos mais ainda, cessando ao perceber que ela iria virar o rosto.

Ao adentrar no ambiente de trabalho dela, sentei conforme sua indicação. Ela passou a redigir as tais advertências e a minha respiração começou a pesar um pouco mais, mas foi o suficiente para que ela perguntasse o que estava a acontecer comigo. Eu a respondi, tentando fazer um resumo sobre a história de tantas coincidências que envolviam a mim e a Matteo. Ela fez algumas perguntas e nós a respondemos outra vez, e ao findar, sorriu, e disse:

- Só estou fazendo isso para que não deixem de ter ordem e disciplina nesta escola. Desejo que saibam de uma coisa: o amor é lindo, mas é preciso respeitar os ambientes, seja de trabalho, ou de estudo, e do que quer que seja. - disse, entregando as laudas em nossas mãos - Tragam isso assinado amanhã. Ou melhor, eu mesma pegarei na sala de aula. Eu espero que vocês tenham aprendido algo com isso. E agora... - olhou rapidamente no relógio - Vocês têm que voltar. A segunda aula vai começar em cinco minutos, e a professora Helena deve estar à espera da turma.

- Aprendemos sim. - Matteo respondeu por nós, e nos levantamos. Ele estendeu a mão. Eu a recebi.

- Esperem. - a diretora disse, e rapidamente soltei a mão de Matteo.

Ela nos olhava de uma forma que me fazia ficar ainda mais nervosa. Sei que não poderia levar uma advertência por causa daquele ato, mas, faria de tudo para "andar na linha" de rigidez da diretora. Ela parecia que era exigente, e fazia jus àquela aparência. Porém, seu falar emitiu um lado que, provavelmente, pouca gente conhecia.

- Tomem cuidado com esse tipo de demonstração de afeto. O amor é lindo, mas, é preciso saber dosar a quantidade que se deve demonstrar em cada ocasião. Se sempre for intenso, infelizmente, vai acabar caindo na rotina. Na verdade, não há sentimento que não caia, mas, o que queri dizer é... que é preciso saber separar cada intensidade para seu devido momento. - ela olhava em nossos olhos com um sorriso muito discreto, e quase imperceptível - É terminantemente proibido beijar na escola, mas, não há nada contra a andar de mãos dadas, nem sobre abraçar ou repousar a cabeça sobre os ombros, mas, quando se beija, muitas vezes se dá margem para um colo, mesmo que seja só carinho... Esses namoros de hoje em dia... não tem muito limite. enfim... aproveitem o namoro de vocês, mas se cuidem.

Corei quando ela disse aquilo de uma forma tão aberta, mas, estava certíssima ao falar cada palavra. E nós dois a entendíamos. Não resisti e dei um abraço na diretora, e pude ver que aquela pose de "durona" era mera casca, pois, ela aparentava ser uma mulher extremamente doce, mesmo que por dentro. E ao ver que ela havia ficado feliz com aquele gesto meu, saí e me despedi dela juntamente com Matteo, que me deu a mão. Andamos rapidamente até o bloco em que voltaríamos a estudar, mas, desta vez, o horário indicava que a matéria seria outra: História. Quando entramos, escutei algo sobre o que havia acontecido conosco, mas, resolvi que era hora de esquecer o que havia se passado, pelo menos até chegar à minha casa. Lá, com toda a certeza, eu levaria uma bronca.
Logo que abri o livro na página indicada, meu sorriso apareceu em meu rosto, pois, falaríamos sobre a chegada dos europeus à América, assunto pelo qual eu tinha interesse e grande domínio.

Doce DeleiteOnde histórias criam vida. Descubra agora